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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.11.22

O inferno concretiza-se por meio das obras que lhe caem dos dedos, amiúde já com cabeças capazes de fundar novas escolas de desespero. A temporada no Círculo dos Gigantes protege-o de um envenenamento excessivo, graças aos gumes, persiste unido aos demónios; as asas derretidas e a queda, outro nome para metamorfose.
 
A cólera é dotada de luz própria. Apesar de encarregada de canalizar os animais para a arca das ideias, ela é igualmente o que fica de fora, as sobras clandestinas com a mania de grandeza, o que torna o imensurável em ilha, que é como quem diz, o dilúvio posto em obra de sangue. Do mal o menos.
 
Quando a poesia é encostada contra à parede, esmagada pela pressão de todas as eras, as bolorentas e as que hão-de vir, o poeta não tem outra escapatória senão torna-se um cachalote albino. Fazer gato-sapato da profundidade, florescer onde a luz se extingue não está altura do peixe miúdo.
 
Tentam engaiolá-lo numa definição, todavia ele extravasa do molde da descrição. Metal fundente e zero absoluto em simultâneo.
 
Ó bobo canoro, não te limitaste a gerar confusões, empecilhos e fogueiras do bem. O homem à mercê do desconhecido, o mesmo bicho assustado do início.
 
O homem não viu nada que o fizesse esquecer a fome. Ainda assim, engordou. A solidão engordada pelos fracassos amorosos.
Vingança? Qual quê? Um menu frio de lamber os dedos, eis as palavras do Diabo diante do cadáver de Deus.
 
Uma única linha de um gigante serve como alimento para um enxame de artistas. As postas do legado fervilham de fome e mediocridade alheias. O desmantelamento pacífico do cachalote albino por formigas oportunistas é apenas uma paródia ao oitavo círculo de Dante. E solução? Calma, primeiro tenho de engolir o cosmos, sussurra Dioniso aos ouvidos da morte. Mesclem-se então as máscaras, as vagas de heterónimos, eis chegada a altura de fundir as infinitas possibilidades num único rosto.
 

Círculo dos Gigantes, primeiro rascunho


Roberto Gamito

12.11.20

O clima era ameno, as pessoas quentes, as tempestades previsíveis, porém o rei permanecia imperturbável. Nada encantava o rei. O catálogo de oferendas era vasto, a saber: comida oriunda dos quatro cantos do mundo capaz de fazer salivar uma pedra (por essa altura a terra ainda era plana), bobos com provas dadas em reinos exigentes, terras nas quais a guilhotina é muito solícita, tecidos invulgares capazes de enaltecer o corpo mais disforme, chapéus do tamanho de países, pedras preciosas de encandear a mais simples das criaturas, animais exóticos, mantícoras, esse animal que é leão, homem e escorpião, hidras e unicórnios. Todavia nada conseguia arrancar um sorriso ao rei.
 
Decidiram então recorrer à bajulação. Iniciaram o cortejo de elogios timidamente, ao rés do que seria suposto, mas aos poucos foram perdendo a decência e rumaram em direcção à terra dos superlativos. Ó rei dos reis, és o mais sábio dos Homens, o mais bonito, o mais forte, o mais careca dos homens (na altura era visto como elogio). Nada surtia efeito, o rei era totalmente imune à bajulação. Porém o povo, a fim de receber uma migalha de agradecimento, permanecia compelido a enaltecer o rei. Morreram em uníssono, cada alma com a frase mais falsa que logrou encontrar. Há quem diga que nesse momento o semblante do rei sofreu um ligeiro abalo. Talvez não passe de uma lenda, comentou o historiador, estamos a falar de uma estátua.
 

Rei imperturbável - Roberto Gamito
(Estátua de Alessandro Boe)


Roberto Gamito

11.11.20

Ao contrário dos reinos de menor expressão, parcos em chacinas e proezas, facilmente tragados pelo esquecimento — alguns dos quais pobres a ponto de não garantir o emprego ao algoz —, o Reino dos Filósofos era uma província em crescimento, povoada pela incerteza fértil, onde são bem-vindas todo o tipo de perguntas e questiúnculas. Reza a história que os casais não se inibiam de perguntar quem és com uma periodicidade assinalável, mesmo após o casamento, sem que daí nascessem zaragatas de grande envergadura. As mulheres estavam entre as mais felizes do mundo, tinham homens que sabiam falar e ouvir. O interesse em ouvir cada sílaba saída da boca do outro nunca esmorecia. Graças a isso, toda a gente parecia exageradamente interessante e bonita. Não raro, a relação amorosa era um longo primeiro encontro, o qual se alongava durante décadas. A arte havia sido extinta, livros, teatro, cinema, qualquer tipo de performance espalhafatosa. Não havia entretenimento. O maior espectáculo do reino era o outro.
 
Não havia assassinos, embora de longe em longe surgissem assassinatos. A polícia era incapaz de resolver o caso; embriagava-se com questões o que é a vida?, o que é a morte? e o morto passava para segundo plano. Como devem ter notado, no Reino dos Filósofos tudo era uma desculpa para encetar a boa da conversa.
A conversar é que a gente se entende, vozeava o rei todas as manhãs, em jeito de ritual.
A conversar é que a gente se desentende, chalaceava o bobo.
 
Aos poucos foram surgindo divergências, o reino cresceu a ponto de ficar vizinho do Reino das Certezas.
 
O Castelo da Questão, assim era alcunhado o coração do reino, caiu nas mãos dos seus inimigos num momento memorável. Enquanto o povo da questão se debatia com: a bifana deve levar mostarda ou maionese?, o povo da certeza levou para os calabouços o rei filósofo. Foi feito prisioneiro no seu próprio castelo. Ébrios pela certeza, não aguentavam tanta pergunta. Os guardas incumbidos de guardar a cela gritavam frequentemente: Cala-te com os porquês, já tens idade para não fazeres perguntas. Porquê?, perguntava o rei ingénuo.
 
O rei da certeza subiu onde ontem o rei da questão encorajava o porquê e bradou: Acabaram-se as perguntas. Porquê?, responderam em uníssono as gentes do Reino dos filósofos. Em jeito de retaliação, coseram-lhe as bocas e nunca mais se ouviu uma questão no antigo Reino dos filósofos. 
 

Golias, Roberto Gamito

 

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