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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

02.07.22

A laureada morte prescreve o ritual, do qual quase tudo se ignora, segundo o qual o druida imprevisto, cuspindo na mercadoria, fará a adoração do fetiche da extinção, saltando de animal em animal, retrocedendo até ao organismo primevo, ou à faísca que pegou fogo à pólvora até então húmida, coisa que maravilha o Diabo, narcotiza-o, deixando-o, não à beira da loucura, mas no seu coração. O amor, se usado em plano inclinado, é um camarote com vista privilegiada sobre o abismo. As coordenadas nas quais as mãos se libertam da servidão de serem produtivas e se agarram à vida ou porventura à morte. Um espaço envidraçado, género estufa, onde os corações crescem desabaladamente abraçados à sua música de eleição. Sociedade da transparência, afiançam eles. O sangue, nos seus começos, revelava-se uma oferenda do recém-decapitado ao deus sequioso. São lugares verdadeiramente infernais, as ruas. A entronização da rosa e os venenos caleidoscópicos que a envolvem, embora por muito tempo tenha permanecido um segredo, fora o motivo principal para o eremita baptizar cada passo. Enquanto quieto, os olhares postulavam-no sábio, enquanto o próprio acreditava ver um beco, daí ter interrompido a marcha. Os ubíquos problemas de interpretação. Etiquetar com um nome confere-nos segurança. Um dos mais antigos e duradouros estratagemas do homem. Aproveitando a distância galopante entre o cinismo e romantismo da coisa, a cidade cresce. Cada interstício é local de negócio ou de futura miséria. Os locais de passagem, observou-o o capitalismo, constituíam um peso morto. Necessitavam de ser abolidos.

Vendo-se a chegar ao fim do rosário das tácticas, o sedutor começa por sublinhar os elementos que havia já aludido, dando uma ênfase bizarra, lenta e estudada a cada centímetro do corpo da presa, como se esperasse ressuscitar a magia arcaica das palavras. Não houve época de ouro. Se oxidou, se hoje vemos os tempos áureos de outra forma, não é ouro. Quando muito, idades de pechisbeque que se revezam e que, envergonhadas, hábito eterno, se apropriam do estatuto do ouro. Isto não acontece somente por razões económicas. O Homem adora ser enganado; vai até ao fim do mundo se for preciso de molde a escutar uma nova mentira. O betão oferece ao homem novas possibilidades de esborrachar a cabeça. Uma das grandes conquistas da humanidade. Imaginem o que era, no princípio dos princípios, o homem chegar a casa, após uma caçada que não deu em nada, e querer dá vazão à sua fúria tendo ao seu dispor uma parede de palha para disparar murros, pontapés e cabeçadas. Legamos, querendo ou não querendo, rastos. Seremos procurados. Não há milagres, apenas crimes pelos quais somos procurados. O que acontece é que a morte, o amor, Deus e toda a pandilha de palavras com as quais se costuma abalroar a fluência de uma frase, qual ponto final que caísse do céu impondo um silêncio inesperado, fareja-nos e acabará por nos encontrar. Preparemo-nos sem esperanças no desfecho favorável. É uma corrida de perdigueiros. Somos uma peça de caça miúda. O que difere de homem para homem é a ordem dos perdigueiros que nos abocanham. Lembrem-se de Actéon, se precisarem da muleta do mito. Evitem inchar o peito, não há caça grossa entre nós. A filosofia, a religião, a ciência e a arte são artifícios para nos iludirmos do facto de sermos caça miúda.
A estupidez, que julgámos morta, pois fomos alvo da seta do Cupido, ressuscita todas as manhãs pelo próprio pé, sem auxílio de deuses, estudada que está a morte.

Se estacamos ao sermos seduzidos por uma ideia, logo somos emboscados por uma matilha que ajusta o tom, inicia alto e vai minguando, como se o afinasse, qual grupo de conspiradores amadores. Outros, que talvez ainda caibam neste texto, cedendo ao perfume acre da libertinagem, de goelas e braguilhas abertas para o que der e vier, interpelados por freiras postiças, as quais recrutadas na espuma dos dias. Pessoas há, e nem são das mais raras, que não têm a mínima hesitação em caracterizar um Homem dos pés à cabeça, do rés-do-chão à mansarda, com um olhar, vício de consumista, de quem está habituado a ter a vista desimpedida no armazém, capaz de abarcar tudo num trago de pupila. A nós, estrangeiros, que nos desentendemos em todas as línguas, devemos regatear com o coração o valor de todos os cheiros. Exumam para imortalizar quem nunca esteve vivo. Não vou atrás de tudo, o mundo é uma bola, mas eu nunca fui um cão. Sou tão-somente um vagabundo a sorrir na rua dos apetites, sem que me consigam raptar os olhos.

 

As ruas e o estrangeiro


Roberto Gamito

30.06.22

Faltam-nos o vigor e a vertigem. A gaja pôs-me o peito em frangalhos, grita o bêbedo. Seríamos poupados à aflição se, para encetar a prosa barriguda, não tivéssemos de passar por cima desse cadáver hesitante com o pranto afinado, o qual, se não fosse a cruz da bebida, não saberia afastar a morte, o vampiro-mor.
De lá para cá fomos sofrendo, segundo após segundo, cada um segundo a sua escola, engaiolando os dias em pipas de lágrimas e hoje a dor perdeu os seus matizes. Há séculos que andamos a fermentar espinhos dentro dos olhos e pronunciar tautologias como "ira cega".
Cumprido o jejum intelectual, ai que eu me atiro às prateleiras e à Moby Dick, todavia comecemos humildes, pela sardinha miúda, vão ver, ó cabrões camuflados em simpatias e cacofonias, se um dia a língua vira gume ponho-vos a fama e a estatura nas ruas da amargura, ponho-vos a soro de frases motivacionais. Ah, meus filhos da puta, ainda há-de nascer um poema inescápavel após o qual serão incapazes de prosseguir a vida como seres falantes.
Humanizem-me, diz o milionário ao seu cardume de gurus pessoais, estou a pagar-vos por isso, meus merdas. Foda-se, injectem-me empatia no rabo ou nos lábios, meus contorcionistas à beira da guilhotina.
A mim, ninguém me há-de conspurcar o nome, comenta o santo.
Merda para os pássaros, para as rosas e para essas coisas miúdas que atafulham o poema de quotidianidade. Só me estorvam. Trabalho melhor sozinho. Ou com Polifemo a mirar-me as costas. Venha de lá esse pedregulho ou essa fome.
À luz dos nossos dias mais esclarecidos e menos frondosos de atalhos, dou-me conta que o Homem é uma pedreira de mármore ambulante. Volta e meia, ouço uma sinfonia de explosões vinda de dentro de mim e recordo-me de Carrara. Lá onde eu perdi os dedos e a fé, eis o posfácio do dinamite.
É preciso ter cuidadinho, ter olho neste mundo construído às três pancadas e recordar a frase de Salomão: "Não há segredo onde reina a bebida." Merda, melhor dizendo, a frase de São Jerónimo: "Que o diabo, nosso inimigo, não te apanhe desocupado."
Tenho mobilado os meus passos a papéis e rascunhos, cada passo é um fojo mascarado por cima do qual os poemas abortados fazem as vezes da folharada.
Andamos todos a fingir que fazemos algo — o que é isto senão fingimento posto em texto? — para que o Diabo não nos passe cartão. Será que o Diabo cai nesse ardil? Que Deus guarde a nossa ingenuidade por muitos séculos.
O personagem, o bêbedo ou um homem sem qualidades, desesperou numa língua rasa, gaguejou uns eufemismos quilométricos, todavia nada ousou dizer que já não se soubesse, somente em quadras, já perto da cova, pôde, enfim, sofrer sem o estorvo do ego.

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Roberto Gamito

24.06.22

Mesmo a língua, esta língua poética-patética, curvada de metáforas desasadas, é incapaz de mobilar eficientemente o passado. Papalvo gago ou génio emborrachado pelo ênfase, um e outro embrutecidos pela sua superstição nos holofotes. Insipidez de uma ponta à outra da frase. Nisto é que somos admiráveis!

Durante estes últimos anos muito fui surripiado — a minha estatura de garatujador de raiva líquida, a minha reputação de bicho indómito, a minha saúde, a minha vastidão de ideias. Embora haja uma procissão de lâminas a percorrer-me o lombo como quem espezinha uvas, permaneço devorador de deuses e gigantes. Milagrosamente, lá me consegui perdoar pelos passos atrapalhados da jornada.
O passo seguinte poetiza ou despoetiza o passo anterior? 

Decerto não inventei a noite; mas popularizei-a, elevei-a a hino das entrelinhas. 

Amor e paixão, esses deuses hoje ilegíveis, de gostos macabros, pois esperam retirar dos vivos a morte sem que nada de mal aconteça, vasculham gulosamente na miríade de mãos erigidas graças aos cacos da cruz.

O fossador profissional das entrelinhas acolherá novas possibilidades, mundos que hão-de brotar de supetão da sua míope interpretação, quiçá novos começos, haja inocência para os receber. 

Dirigiu-se esparsamente à multidão qual nódoa de sangue e palestrou durante séculos sobre a origem da cólera humana. Foram tempos memoráveis onde os seres humanos feiravam na tragédia e saíam de lá carregados de crânios. Sofro e distancio-me por motivos filosóficos, dirá o eremita dos novos tempos. 

Irra, que estopada! O seu afinco em sabotar os seus esclarecidos colegas, que teimam em ver no pirilampo uma estrela e em descaroçar os momentos difíceis com frases da moda comandava a sua respiração aflita. 

Toda a minha respiração tornada raciocínio leva-nos, não pela mão, mas pelo cachaço, por estradas limpas e estreitas, ao meu antigo nome. Desta certeza ninguém me escorraça. 

Deus e Homem, insusceptíveis de comparação, zaragateiam numa obra chata e votada ao assobio. Sobra-nos teimar ainda, uma vez mais exumar a hierarquia de cadáveres que nos ensinou a verticalidade. Volvidos estes séculos, “Deus é amor” foi diluído em diluvianas cacofonias. 

Despachadas as mágoas, a vida prossegue monótona, sem cumes nem vales e sem entraves. As pequenas e surdas antipatias grassantes nas redes sociais revelam um animal sem orelhas e sem tacto. 

Hoje sabemos, imperfeitamente, que estamos perdidos. Para desimpedir o caminho neste vale de lágrimas e desatravancar a macambuzice contemporânea, agarremo-nos com unhas e dentes ao cadáver de Deus. Não é uma solução perfeita, porém isto não pode continuar assim. 

Hino das Entrelinhas

 


Roberto Gamito

23.06.22

“Tens graça, muita graça.”
Eram palavras de mau augúrio para aquele simplório, o qual as recebeu como sinal divino, nunca pronunciadas com tal vivacidade; palavras mágicas conducentes a uma vida desgraçada de laracheador profissional regada ora a apupos, ora a aplausos. Planta bizarra, pensará o leitor mais macaco.

Veio para cá, para os arrabaldes das redes sociais, com uma grande reputação de humorista. Mas não se aguentou muito tempo agarrado ao apodo, à decima piada já havia sido despromovido a burro do caralho — e tal não espanta ninguém. Num mundo em que os critérios são voláteis e em que a competição entre franzinos norteia chapadas e diálogos, as pessoas valem tão-somente a sua reputação. A fama é uma longa estrada ensaboada para o desastre. 

Findo o espectáculo despovoado de gargalhadas, o bicho ontem intitulado hilário esmoreceu prematuramente. Realisticamente falando, podemos observar que o homem perdera meio metro de confiança. Supondo que começara com 2 metros — hipótese improvável neste país de pequerruchos talentos —, teria somente mais três tentativas falhadas antes de desaparecer. 

O ponto de viragem sucedeu numa interação com o público. Engodado por um comentário de uma mulher de fartos seios e com um sorriso carregadinho de luxúria, abalançou-se inocentemente para uma deixa achavascada que lhe valeu o silêncio sepulcral da sala. És muito interessante, disse ela entre piadas, guilhotinando o silêncio. Aproveitando o comentário, o humorista lançou-se barbaramente à presa: “É em mim que pensas quando estás sozinha no quarto a tocar uma guitarrada de clitóris? Com que então o desejo armado em ventríloquo dos teus dedos”. Arrepia ver tanta estupidez e tanta falta de timing concentrada numa única frase; a segunda, convenhamos, ainda escapa. Suou adverbiosamente tentando reparar o sobressalto de braguilha, porém o mal estava feito.
A postura alterou-se de chofre. O passeio sem falhas no palco deu lugar a um manquejar próprio de putinho com sapatinhos de croché. 

Tudo se desconjunta ao som do apupo e da crítica inflamada, por mais incisiva que fosse a piada, era incapaz de pôr cobro ao chamejar daquele vasto incêndio. O “sai do palco” gritado a mil e a uma goelas erigira uma pira na qual ele seria consumido até ao esquecimento. 

Apagadas as labaredas, arruinado o palco, silenciada a cólera, cada algoz à paisana voltara à sua vidinha e aos ódios miudinhos.

 

ódio miudinho


Roberto Gamito

21.06.22

Carne!, que bela palavra — melhor só saboreando cada sílaba apoeticamente, que é como quem diz, no prato ou no pão. Deixada à sua própria sorte num universo sem Deus nem acólitos da chicha, foi perdendo envergadura e a pouco e pouco foi relegada para o escaninho dos diálogos. Certamente é esse hábito de procurar a luz (leiam virtude se não quiserem recuar tanto) em sítios  insuspeitos — essa obsessão com a pureza e a genealogia dos actos que nos empobreceu o prato. Caso fosse amigo das saladas, e os meus ídolos mais saudáveis e pródigos em desculpas, e entoasse o canto desafinado, entornando-o sobre os frágeis carnívoros, os quais, banqueteando-se sem vontade nesse rodízio de explicações enobrecedoras, tais como, o meio ambiente isto, os animais aquilo, coisas que lhe sabem ao mesmo, frases sem sal incapazes de espicaçar a gula.

À medida que o palco da carne foi sendo vandalizado e surripiado pelos mongóis das couves, e a responsabilidade se transfigurou numa deidade vingativa e tonitruante, os amantes do churrasco foram estigmatizados, pelo que o acto de nos passearmos de tronco nu com uma bejeca à volta do barbecue pode estar votado à extinção. A indústria da culpa cilindrou mais um inocente: o amante da chicha.
Contudo, os devotos da carne impacientam-se em guetos, provavelmente engendrando uma teoria capaz de ombrear com a das verduras— até hoje sem sucesso. Longa vida à dinastia das saladas. Resta-nos esperar pelo Evangelho da Febra.

Invadir o círculo encantado dos paladinos das verduras e resgatar um pouco de razoabilidade não é tarefa fácil. A cólera catapultada desses seres de paz, assim diz a brochura, é inesperada e inesgotável. Os vegans vociferantes espezinham qualquer um que tenha a má decisão de levar uma entremeada à boca. Como diz o escritor, cada passada é um acto de tomar posse, as solas rangem de impaciência. Os rodízios metamorfosear-se-ão em casas de sopas.
Citando outro ilustre, é necessário uivar com os lobos, acrescento da minha lavra, improvisar a nossa animalidade enquanto palitamos os dentes e damos aos restos a oportunidade de ingressar no estômago. A tensão entre vegans e amantes da carne é, à falta de melhor termo, um afastamento da mensagem cristã. Onde antes havia uma maçã interdita agora há uma entremeada. Assim estamos de regresso à infância: quando os crescidos nos interditavam as vitrines apinhadas nas pastelarias: “isto não, nem aquilo nem nada do que está exposto, os bolos fazem mal à saúde, ou pedes um bagaço ou estás calado”, eis como se trabalha no Baixo Alentejo. 

Cabe-me a mim, enquanto historiador cujo labor é coleccionar os cumes da estupidez humana, citar um momento alto das cabecinhas contemporâneas, as quais atafulham as redes sociais com ecos estropiados. "Não se deve brincar com o veganismo." Hoje, para ganhar o favor dos críticos de pacotilha, devemos evitar fazer algo bonito do domínio do humor e baixar orelhas a tudo e todos. Felizmente, não sou daqui, sou turista neste século arruinado. Quando o pensamento e as ideias evaporam, como inevitavelmente acontece quando o eco se torna rei e senhor, o conhecimento e o pensamento é substituído por uma cultura de pechisbeque. Somos filhos do urinol, mas calma lá: ainda não joguei a toalha ao chão; a arte está morta, mas só descanso quando a ressuscitar, nem que para isso tenha de recorrer ao chapadão. À partida, isso parece difícil, porém é por aí o caminho do inédito. Nestes temas, o falso intelectual convida-nos à crucificação de molde a gerar a sua auto-ilusão, abatidos pelo linchamento, os comediantes são a bateria viva do seu mundo de fantasia. Chega de ver o século do alto, vamos lá ao humor. 

Migremos para este cenário: uma mesa rodeada em princípio por portugueses (1) sob a qual jaz um cão sonolento. Saliente-se um detalhe crucial: são portugueses vegans. Estão a sorrir e a dialogar ao som de dentadas nos vegetais— que selvagens, pensarão os amantes da febra, e com razão. Outro detalhe: o cão foi recentemente adoptado por um dos elementos da mesa, ou seja, não está ciente dos costumes dos sacerdotes dos legumes. Entretanto, cai uma cena da mesa. O cão desperta da sua vigia sonolenta, entusiasma-se e de seguida descobre que é só um bocado de repolho. Foda-se, que vida de cão (2), cogita o patudo (3), para isso tinham-me deixado na rua. Suspeito que, após a viver este inferno, que é ouvir uma coisa a cair da mesa vezes sem conta e dar-se conta que são legumes, há cães a apanhar depressões profundas.
Eu não merecia isto, cogita o canídeo, pensava que éramos os melhores amigos. Sejamos humanos, comamos animais — tantos animais quanto pudermos — para cumprir o propósito de fazer os nossos cães felizes. 

Como se isto não bastasse, os alimentos estão a perder sabor. O zénite deste desconsolo é comer um belo bife divorciado do seu sabor num prato sem alegria e harmonia no tocante às cores. Há designers que têm AVC só de olhar para a combinação de cores de certos pratos. 

Tal desarmonia no prato revela um profundo ódio ao glutão, o qual é incapaz de ignorar o ideal de beleza. Mandamos vir um prato cujo intuito é nos recordar o Nascimento de Vénus de Botticelli e apresentam-nos uma Guernica. É assim que as depressões aparecem. Mas onde mora o problema, perguntam vocês com a pança a dar horas. 

O mal disto tudo reside nos restaurantes gourmet, melhor dizendo, a tentativa de imitação por parte de restaurantes modestos. O empratamento que é artístico no gourmet é, no estaminé modesto, um terreno no qual foi despejado entulho. Se os olhos também comem, e daí que faça questão de armar a puta numa cabana gourmet e sair de lá com um olho roxo para não envergonhar o ditado, é igualmente verdade que, alguns restaurantes, ganhávamos mais se comêssemos de olhos vendados. O empregado de mesa chega-nos com uma tragédia no centro do prato e pensamos: "este prato não é resposta aos meus problemas de auto-estima". Quero comida capaz de transformar o mais ferrenho sedentário numa lebre turista. Regressemos aos fanáticos das sopas. Nunca viajei entre colheradas no caldo verde; todavia já me senti um Fernão de Magalhães num rodízio de carne. Os habitantes deste século dotados de horror ao naco, cuja labuta é injectar vergonha nos carnívoros, não podem descartar este lado: a jornada. Quando ferro o dente no naco, sinto-me a passear nos versos da Odisseia de Homero enquanto trinco e arroto poeticamente: “Pénelope, já vou, deixa-me só comer mais uma dose de picanha”. 

Apontemos o nosso cérebro enfezado para o restaurante gourmet. O que é aquilo? Eis a pergunta que fazemos diante de um quadro de Hieronymus Bosch ou de uma pratada sofisticada. Consintam que seja possuído pelo senhor Eça de Queiroz. Eis-me preparado para descrever o prato: no centro do prato jaz um objecto não identificado, que às vezes não é carne nem é peixe, e outras ambas, coberto de várias camadas de sofisticação e barroquismos, a saber: molhangas compósitas, caramba, nunca é um molho que caiba numa palavra, do seu nome não podemos esperar menos que um Homem Sem Qualidades de Musil; o cadáver incógnito é polvilhado por ervas que, não contentes com o seu nome original, são rebaptizadas como se fossem um nobre. Não é suficiente nomear a erva, é preciso acrescentar os mil apelidos, o seu nome em latim, a sua origem, a hora em que foi colhida. Calma, eu vim para comer, não sou médico de família, não me atravanque a cabeça com as suas dores. O prato parece uma mulher enfarpelada para ir a um casamento — enverga um penteado só para aquele dia. 

Nunca fui a um restaurante gourmet por vontade própria, sou gordo e tenho outras necessidades, mas há um pormenor que merece ser abordado. 

Eu, como outros indivíduos mais desconfiados, tenho medo que as ervas me firam as tripas. Como tal, caso me apanhe nessa situação, irei encetar uma operação delicada de modo a remover essa bagunça daquilo que, a meu ver, é comestível — uma migalha. Começo a suar e digo: “bem, vamos lá avançar para uma cirurgia delicada.” Objectivo: remover com segurança a chicha desses escombros barrocos.

Se nos tirarem a carne, tirar-nos-ão o lado social. Falo por mim, só socializo porque vou comer carne. Não me vão arrancar do sofá se o jantar for alcaparras e alcachofras. Resido neste corpo vai para três décadas, a contragosto, as rendas estão caríssimas, e não posso escapar às obrigações que a gula me impõe. Não ignoro que vivemos numa era em que a maçã é fluída, é carne, peixe e o mais. Se fosse hoje, Eva teria sido expulsa aquando da primeira trinca na entremeada. Disse-te para comeres a puta da maçã, Eva, grita Deus, era a única coisa que podias comer e tu não me deste ouvidos. Eu como aquilo que me faz salivar, retruca a Eva. Então come-me, brame o autor desta crónica.

 

  1. Reza a lenda que os nobres britânicos, fartos da caça à raposa, arranjaram um método de caçar portugueses. Punham uma mesa farta de acepipes no mato e era vê-los, aos tugas, a sair aos pinotes dos arbustos. 
  2. Isto não é ficção, é a tradução dos seus latidos. Tirei um workshop de fabulista na Golegã e encontro-me certificado para entender profissionalmente qualquer bicho doméstico. O próximo passo será entender os selvagens para que, de uma vez por todas, perceba a razão pela qual os bichos buzinam assim que o sinal verde do semáforo cai. 

  3. A primeira vez — e deus queira a última — que escrevo patudo. 

 

comam carne


Roberto Gamito

15.04.22

Apraz-me saber que existo como um ponto que nunca conhecerá o Big Bang, sem cara nem humanidade, no olho aéreo da objectiva. O ponto atravessa a rua. Comportamento ambíguo: pode tratar-se de um cão, de um gato ou de um animal vertical. O bicho entra no carro com vista a conduzi-lo. Pode ser um urso treinado para o efeito, há vídeos e memes que atestam a possibilidade deste cenário. Pelo sim, pelo não, disparar, capturar a imagem. Eis-nos engaiolados num cárcere de píxeis.
À margem do inferno quotidiano dos vivos, há quem entre galões e bolachas decida, plantado num deserto mais ou menos metafórico, o destino dos fantoches. O Homem dos Robertos, dotado com a sua mão de mil dedos, paira sobre o nevoeiro.
Protagonista ou espectador do diálogo? Perante um muito tentador apetite de engrossar o caldo do ruído com as patacoadas mais em voga, o homem contemporâneo, filho de um sem-número de ecos, pergunta a si próprio: para quê isto tudo? Não são os canalhas que vivem melhor? Moral grega, elogio ao senhor; moral cristã, elogio ao desgraçado. Depenado pela economia, com uma mão à frente e outra atrás, qual coreografia de TikTok, o homem sorri: é feliz quem não precisa de nada.
Do outro lado da barricada em chamas, o padre aconselha: não deves desperdiçar os teus talentos em cobiçar essa constelação de putéfias. E o amor?, pergunta o homem. O padre, corrompendo o dito de Santo Agostinho, retruca: só sei o que é o amor quando não mo perguntam.
Virei costas a Deus, giro numa dança de lâminas para que Ele nunca Se aproxime aproveitando um ângulo morto, incendiei a vida eterna e agarrei-me com unhas e dentes à vida terrena. Como escreveu o filósofo bigodudo, há que querer que esta vida, e não outra, se eternize.
Deus está morto, eis o que vemos quando olhamos para o momumental cadáver. Sem o oxigénio da crença, o grande cachalote encalhado e desinchado de importância numa margem lá para os lados do passado. Uma boca de proporções bíblicas da qual saem pequenos projectos de demónios, quais parasitas que abandonam os restos mortais das baleias à procura de outro hospedeiro. Inspirados em Wittgenstein, perseguindo a ideia segundo a qual, para se poder falar do mundo é necessário sair dele e contemplá-lo como um todo, serão mais tarde aclamados biógrafos do Númen. Jonas bem tentou explicar a situação à sombra da aboboreira, mas o Altíssimo não passou cartão.
Tornando o Eterno Retorno mais mastigável, essa ideia que passa de mão em mão desde os tempos de Zenão, Arash Arjomandi aconselha-nos: só deve realizar os actos que gostassem de ser autor repetidas (talvez infinitas) vezes. Por conseguinte, mato-me a cada verso, sou cuspe de carne vomitado do grande cetáceo encalhado. Sou faúlha possessa abrindo crateras modestas na folha.
Do alto sou um ponto a abater. O acto de observação obnubila a observação. Abatido o humorista, sobram-nos as palavras de Bergson: não há forma, já que a forma é imóvel e a realidade é movimento. O que é real é a alteração contínua da forma.
Ao matar a comédia, abate-se equivocamente o inocente e é-nos contada a última piada: "esta tecnologia é um testemunho neutro, livre das imperfeições e distorções da memória humana."
Haverá sempre um homem atrás da câmara: resta saber se está vivo ou morto.
 

O Destino dos fantoches, Roberto Gamito


Roberto Gamito

10.04.22

Riscamos o fósforo pela enésima vez, mas a humidade humilde de uma gota de água protege-o, adiando o fim. A cabeça incólume não é destino que se queira. De que vale sobreviver ao fogo se é ele que nos efectiva?

Dentro de nós um inferno em miniatura, projectos de demónios, esboços de quedas, raivas postas em discurso e o catecismo do fracasso arrancando-nos os sonhos como quem arranca asas a insectos. De ilusão em ilusão, tentamos em vão simular as asas perdidas.

Caem meteoritos que nada sabem sobre os nossos desejos, pedimos-lhes tudo e mais alguma coisa até ficarmos afónicos, todavia o mundo não é hospitaleiro no tocante às nossas vontades.

Quando a melancolia irrompe, a mão, que não tem limites nem remédio, agiganta-se — eis a farsa. Cresce até à loucura rumo à morte de molde a pormenorizar o falhanço. Haverá alegria para quem, na folha, viu nos dedos cabeças de fósforo e tentou incendiar o seu cosmos posto por extenso? Sobrará talento para quem venceu provisoriamente a morte? Com que palavras regressou desse combate?

Vida contrabandeada por gritos
ululante comédia desmantelada
tragédia que todos acorrem para ver.

Nem o truque barato do suspiro nos salva face à cratera nos nomes outrora salvíficos. Não me parece que o poeta extraia grande minério do acto de escrever, de orbitar em terrenos resvaladiços, qual pirilampo ébrio: em nenhuma das suas órbitas encontrará redenção. Homem, o animal mais fantástico deste circo — a cabeça apinhada de problemas é um número inesgotável e em constante aperfeiçoamento. Nunca faltará público para o homem sem qualidades.

As vidas improvisadas no balcão, comentadas lado a lado com o entrechoque dos copos sempre por encher. Condenados a rabujar para todo o sempre, afugentámos o amor, a felicidade e o mais com o condão de aliviar o fardo. Ao rés do precipício, os homens encenam os antigos mitos de Actéon, Sísifo e Tântalo.

Confesso que me faltam os dias que desaproveitei a ser outro. Almejei ser clandestino bobo ao rés das goelas de Deus. Os corpos caídos numa formação que alguns dirão um enigma. Seja como for, as vozes sobrevivem num refrão animalesco. Choraram, amaram, beberam e bailaram e eu fiz de conta que não havia entendido nada. Como resgatar o passado do poço da memória sem o desmembrar no resgate?

O homem, eterno peixe fora de água, ocultando o estrebuchar em danças mais ou menos artísticas, sucumbe ao engodo das luzes dos holofotes. De uma maneira ou de outra, sucumbiremos à primeira promessa armada em messias. Minúsculos seres fantasiando estaturas ao pé de megafones. A festa termina. O coração fica a sós com o teu nome. Os que fugiram ao amor sabem do que falo.

Cada verso é uma despedida cifrada, digo adeus à miríade de homens que fui sendo. A vida é um funeral onde enterramos, à vez, as nossas metamorfoses. Salivo o fogo larapiado ao inferno. A folha, ninho partilhado por facas e aves canoras, é palco onde ensaio o recomeço. Nada nos prepara para o início.

Como reaprender a respirar se o amor semeou nós de uma ponta à outra do nosso corpo? Diz-me se ainda sou o clarão noturno que se apossa do teu corpo quando te recordas do meu nome. Ovaciono com prontidão os cães que me abocanham, mas o corpo não acompanha o gesto.

Só existo quando fico do lado de fora do pensamento. Que querem que vos diga? Escorraçar-me das ideias não é um trabalho isento de perigo. E um mundo pequenino vai-me brotando das falangetas
linhas que mais parecem caminhos arruinados, juncados de cadáveres de Ulisses. Só posso falar do que não vi.

Mas para quê insistir nesta prosa regateada no mercado do eclipse, quando a morte nos morde os calcanhares sem parança?


Riscamos o fósforo pela enésima vez, Roberto Gamito


Roberto Gamito

08.04.22

Fazendo fé nas conclusões de travo alimentício da consultora Nielsen, a qual monitoriza as compras de três mil lares portugueses, e futuramente as compras de três mil hostels, o consumo de frutas e legumes diminuiu nas famílias com filhos, privilegiando a aquisição dos produtos de conveniência, a saber: refrigerantes, conservas e take-away, que são, para usar a expressão de Clara Viana, do Público, facilitadores do dia-a-dia. Aqui principiamos a divergir ligeiramente. Embora reconheça que alguns dos produtos nos tornem a vida mais fácil, cito como exemplo uma lata de atum, a qual é uma espécie de MacGyver que desempecilha a refeição em situações que de outra forma seriam impossíveis de resolver para uma pessoa cujo lema da vida é “mexer-me o menos possível”. Se a vida melhorou drasticamente após termos conhecido a lata de atum? Não nos precipitemos na resposta. É uma relação longa, começa na universidade ou até antes e acompanhar-nos-á, suspeito, o resto da vida. Logo terá todas as características de uma relação duradoira, tanto as boas como as más. Creio ser despiciendo sublinhar que a aura romântica que paira sobre as conservas rapidamente desaparece. Falo por mim, sempre que desfruto desse singelo pitéu que consta no menu do desenrascanço, sou arrastado aos solavancos por uma imaginação contrariada rumo a um cenário de guerra em que estou a fruir da minha última refeição. E eis que choro profusamente. Não adivinharia, nem nos meus mais célebres pesadelos, que a minha vida seria essa. Acabar os meus dias a comer atum num casebre abandonado enquanto espero pela morte e ouço Maria Leal.

Há, continuando a pastorear os olhos no artigo, motivo pelo qual encetei esta prosa suculenta, um aumento dos produtos exímios em insuflar a pança, tais como: chocolates, batatas fritas, bolachas que existem para, momentaneamente, tapar o buraquinho existencial. O número de suicídios seria mais elevado se não houvesse estes paliativos. Nunca tive, que me lembre, ideias suicidas enquanto estou a estraçalhar uma tablete de chocolate. Depois de a comer é outra conversa, mas é uma questão de comprar a maior tablete possível. Teorizando um nadinha, posso assegurar que, se comprarem uma tablete de chocolate infinita, nunca mais pensarão em coisas tristes.

Que vida a criança teria se, além do típico conselho paternal “não fumes, não bebas, não te drogues” fosse aconselhado a enveredar pela via marginal logo desaconselhável da fruta. A criança não teria alegria nenhuma para continuar a viver neste mundo empestado de regras. E sabem como são as crianças. Pode acontecer, não digo que em cem mil catraios não haja um que goste de fruta, que se delicie em abocanhar citrinos e assim, mas, debaixo da mira do olhar desdenhoso e inquisitório dos seus ranhosos colegas, opta por recalcar o seu amor pelos legumes e pela fruta. Moro no Algarve, onde há citrinos aos pontapés, e do que me lembro dos tempos de escola, descartando as memórias das pessoas boas e das professoras boas, supondo que são coisas diferentes, não me lembro de muitos episódios em que o Dário ou o Alexandre pudessem descascar clementinas sem serem importunados. Supondo que a geração actual de putos é superior à minha nesse aspecto, sim, estou disponível para realizar esse salto de fé, que não importunam os outros, pois têm assuntos mais sérios a tratar, como estar concentradamente alienados ao smartphone, ou a realizar directos para o Instagram, levanta-se outra questão. A questão da socialização. A fruta não promove a socialização. Ninguém se aproxima de um puto e diz: Orienta-me aí um gomo de tangerina. Ninguém. Nós queremos relacionar-nos com os outros e a fruta e os legumes não constituem grandes catalisadores. Pelo contrário: são inibidores. Daí não constituir espanto para mim que os putos enveredem pelos Kit Kats e pelo tabaco. É o que levamos da vida. Histórias. Histórias com outras pessoas. De que me serve morrer com um corpo a abarrotar de vitaminas se ninguém quer meter conversa comigo? Isolei-me do mundo por via de ter criado uma barreira de clementinas, bananas e maçãs, pensará o miúdo que seguiu uma vida saudável. Viverá dentro de um casulo de fruta e um dia brotará, de dentro do casulo, uma borboleta bisonha da espécie Carmen Miranda.

E a mãe que diz “comprei estes abacates a pensar no meu filho” é uma mãe que não ama a sua cria. Ai eu faço-te lembrar um abacate?, pensará o filho quando confrontado com esse pensamento. Mãe, não me conheces. Eu sou um ser doce, dirá o garoto. Daqui em diante quero que te lembres de mim quando passares pela secção das gomas, concluirá o puto.

Ou então os pais detestam os filhos e estão a tentar matá-los seguindo os trâmites legais, a única forma socialmente aceite de matar um petiz: não lhe providenciar comida saudável. Não me oponho, só quero saber se é preciso aquecer o biberão de coca-cola.

A fruta não é amiga das crianças, Roberto Gamito


Roberto Gamito

08.02.22

O gemido, aliado a um nome, pode conduzir-nos às alturas. Humoristicamente falando, estamos diante de um foguetão caseiro. Expandindo a cena cientificamente, teríamos, num hangar algures no meio do frio, cachos de homens a vistoriar a trajectória da paixão. Em correndo bem, aplaudiriam, de calças em baixo, mais uma missão bem-sucedida.

O Deus original tem, nas suas paredes, não escaravelhos ou borboletas, mas deuses menores alfinetados: arrumados de acordo com a sua rareza. Ao lado destes, fraudes e deuses por nascer.
Ele sorri ao ver o padrão de criação-destruição.

O pormenor esfalfa-nos. É preferível extenuarmo-nos a profetizar uma grande obra. Precisamos de nos demorar um pouco mais, não deixar o rosto por pintar. É por meio do pormenor que as formas são resgatadas do nevoeiro.

Entopem a acção com o evangelho da inércia. Alguém tem de construir, a meio de uma carnificina, uma loja na qual se venda silêncio. É aqui que se compram sementes de esperança? Sim, responde o lojista, mas cale-se.

Atacar eufemisticamente o outro é cobardia, não confundam com educação. Atacar um desgraçado vulnerável em turba não é humano, é animalesco. Existir é estar preparado para a pequenez.

No império de Narciso, vários ângulos foram banidos, só o melhor interessa. Por conseguinte, ensaia-se a espontaneidade vezes sem conta. O pior ângulo do outro também nos interessa, caso nos favoreça. Fotografamos os extremos, esquecemos o miolo.

Impingimos legendas a certos episódios dos quais conhecemos apenas fragmentos. Embrulhe-me essa catástrofe nesse jornal da semana passada, vou servi-lo às minhas vizinhas como se fosse peixe fresco. Vai ser de comer e chorar por mais.

Postular o itinerário do olhar é infantil ou digno de ditador.
O livro de auto-ajuda é uma história de catraio adaptada aos ouvidos adultos. Um certo homem embrulhou uma doença numa prosa sem arestas e não disse coisa com coisa. A manobra publicitária de enxertar o final feliz numa catástrofe é uma das grandes invenções da Humanidade, talvez até superior à roda.

A poesia chorona, que grita em vez de cantar, é incapaz de entrar no Homem pelas suas brechas. É recebida com “giro” e despede-se de nós sem deixar legado.

Até a respiração se pode transformar num monstro, numa coisa que incomoda. Gota a gota criamos o dragão, como nos afiançam os manuais de tortura chinesa. Deus ter-se-á aborrecido quando se deu conta que o Homem pode ser enlouquecido de infinitas maneiras.

Escrever sobre a superfície é pôr por extenso o nosso medo. É o simpático método de liquidar a humanidade: como não quero que o mundo me bata a porta, escrevo e em linhas simulo cercos e cadafalsos.

O homem contemporâneo não existe verdadeiramente, está demasiado preocupado em ser filmado segundo um ângulo favorecedor.

Deitado, o homem-estátua aproxima-se perigosamente do morto. Por conseguinte, defender a verticalidade é o seu verdadeiro ofício. Ao contrário dos demais, permanece de pé e não faz alarde da façanha. É um homem fora do seu tempo.

Pôr a morte a um palmo das pessoas e pedir-lhes que digam, por amor de Deus, algo de admirável. Eis o romancista-carrasco.

O nome, um resto que se agiganta até conquistar a capital da memória. O pensamento, a gaiola barroca do animal. Vida, erro solúvel no álcool.

Vivemos como na Idade Média: rezamos para que não nos matem injustamente. O poeta é aquilo que Deus faz ao Homem quando quer ser surpreendido. A questão que faz a arte andar: alguma vez conseguimos surpreendê-Lo?

Até o mais simpático dos homens tem no seu âmago um monstro.
O coração foi vandalizado por um nome e ainda não recuperou. Um dos mistérios do amor. A cidade interior despede-se da sua Idade de Ouro.

A confusão é a vingança nas mãos de um bárbaro aprendiz.

Todos os versos são declarações de guerra, todas as rosas e pássaros envenenados. Se saíres do domínio das convenções, cometerás um atentado ou serás, de súbito, pai de um novo movimento artístico.

No império dos míopes, tudo é e não é ao mesmo tempo. Os enciclopedistas erraram logo à partida: o inventário pressupõe estabilidade. De que vale classificar o animal se ele é um bicho em constante mutação? A mão produz arte, tal como a lâmina. E o seu avesso, tal como a lâmina.

Encaixotámos os escaravelhos e as borboletas, esquecemos o passado de entomólogo, e hoje penduramos frases breves nas paredes. O escaravelho era para nós, a frase para os outros: eis uma mudança decisiva.

Em certos períodos da obra, cada verso do poeta é uma caixa onde é guardado o paraíso ou o inferno. Uma biblioteca inteira não chega para explicar um único olhar. Arranjar marcadores de molde a irmos lendo aos poucos os olhares dos outros.

O silêncio é-nos estranho e vazio porque para investigá-lo é preciso não estar ansioso. Pertencemos a um século que é incapaz de encontrar seja o que for no silêncio.

Só nos entende quem está familiarizado com o sofrimento. O sofrimento como afinação do entendimento. A alegria como viveiro de mal-entendidos.

Para onde corre o medo se imaginar no meu corpo milhares de portas abertas? Para onde olha o Narciso se o espelho for proibido?

A pequenez é varrida para baixo do tapete, juntamente com os deuses, a nossa verdadeira dimensão causa-nos uma certa claustrofobia. Muda de assunto, por favor, não cortes o efeito do ópio.

Como a vida é bela, se vista num poema.

Evangelho do Kamikaze

 


Roberto Gamito

07.02.22

O Homem contemporâneo (indivíduo em teoria informado, ponderado, perdoem-me o gracejo, hábil na metamorfose) vê-se, sem surpresa, capturado pelas artimanhas da ganância humana. Que haja jornalistas ou ensaístas a abraçar a imbecilidade de que o Homem é um ser a caminho da bondade é algo com o qual nunca hei-de compactuar. Os períodos de paz são tão-somente um respirar fundo colectivo antes do abismo. Mudamos, quando muito, o aspecto das nossas patifarias, mas no fundo permanecemos iguais, bárbaros até ao tutano. Levantemos o malhete com o qual o juiz profere sentenças e fechemos, de uma vez por todas, o assunto.

Um século novo é sempre um século novo: se não consentirmos a sedução da mentira de que nos serve avançar no tempo? A crueldade é a única coisa que muda ao longo dos séculos: subtiliza-se, torna-se labiríntica. Ao tornarmos a salvação burocrática, a crueldade ganhou ares de invencível. Com a agravante de que, ao subtilizar-se, a crueldade torna-se crónica. Um detalhe: presentemente o algoz não se identifica como algoz mas como amigo. Essa é a beleza deste século.

As religiões determinavam — e ainda determinam em algumas coordenadas — o certo e o errado, não segundo a razão e o senso comum mas segundo um rol de dogmas decididos por homens de indumentárias imaculadas que dizem interpretar correctamente as palavras e a vontade da Luz. Com ou sem Deus, este é o guião: arranjar um manual de normas de molde a facilitar as manobras da casta superior. Perdoem-me o salto: os bancos são viveiros de carrascos engravatados. Escandaliza-me a forma como agrilhoam pessoas a empréstimos intermináveis. Choca-me que tentem impingir-nos que são de confiança quando, durante décadas, não só permitiram o endividamento, como o encorajaram e o fomentaram com um sem-número de créditos. A forma como nos deixamos engodar cegamente só prova que o Dinheiro é mesmo o novo Deus. Além disso, há uma relação de poder assimétrica entre o banco e o enfermo — o cliente. O banco é um rico transformado em instituição: é forte com os fracos e fraco com os fortes.
É vítima ou carrasco consoante o clima económico. Ei-lo actor versátil deste teatro em chamas.

Esvaziadas as carteiras, o cliente transforma-se em ratazana e é despejado. Tanto faz expulsar do seu lar uma velhota de 90 anos que aguarda a última molécula de oxigénio, como uma família com cinco catraios aos guinchos. O pontapé no cu não discrimina pobres. Esvaziados de homens, os sítios deterioram-se, transformam-se em ginásios onde se treina o vandalismo, e são desmantelados de cima a baixo até só restar as paredes. Ou então tornam-se locais de ocupas e sem-abrigo. E se estivermos a pintar erradamente os bancos como maus da fita? E se eles não passam, afinal, de filantropos que querem o nosso bem?

De facto, a família que foi despejada pelo banco por não pagar as prestações, pode regressar como sem-abrigo. Representa uma poupança assinalável para o agregado familiar, incentiva o contacto com outras realidades — é como viajar sem sair do bairro. Não haver electricidade dá oportunidade aos cinco catraios de explorar o mundo antes do advento das redes sociais — o que é sempre salutar. Como é possível enganarmo-nos tanto? Os bancos vêem-nos como um peso e limitam-se a vandalizar-nos as carteiras — errado! São nossos amigos, podemos confiar sem medo.

Em Defesa dos Bancos, Roberto Gamito

 

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