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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.01.22

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Tertúlia de Mentirosos com Rui Cruz

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Censura diluída?, segurança e pedantismo, pedantismo lisboeta, piada e o twitter, o mundo flutuante da arte, o poder do estatuto, Mozart e o comentário no YouTube, a miopia do génio, o circo do ego, o rescaldo do roast, produtores de conteúdo precários, o mundo da Twitch, Humor, Homem e narcisismo, comédia sem surpresa, Dave Chappelle, comediantes de textos e comediantes de aparato, Zelig e Woody Allen, Riso de Mozart, artista infeliz, escrever crónicas, o mundo dos podcasts, Adam Sandler 100% FRESH, solo Como Todos Fazem, o próximo solo, sociedade da estatística.

(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.


Roberto Gamito

20.01.22

Escrever prende-se com a necessidade de arejar a mão. Conspurcamo-la com tarefas úteis e vagamente lucrativas e esquecemo-nos de a treinar num itinerário de apeadeiros vãos onde nada se concretiza. Embora não rejeite o apetite da turba pela carreira que há-de levá-la aos píncaros, Deus queira que sim, que o mundo não está para pobres, enamoro-me mais facilmente pelo sujeito agarrado ao trabalho inútil.

A história empenha-se unicamente em mudar o rosto e o nome da mesma luta. Durante milénios são separados os carrascos e as vítimas, sendo que, em certos períodos festivos, durante os quais o sangue é elevado a deidade, há uma troca de cadeiras.
Aquilo que o espírito engendra é um rol de qualificações novas; de tempos a tempos o Homem rebaptiza cada migalha do mundo, procurando nos novos apodos um novo começo. E tudo se repete.

Mudamos o nome do mal como mudamos os lençóis da cama. Como imaginar a vida dos outros, quando a nossa parece o centro do universo, cuja força gravitacional atrai todos os átomos do Cosmos? Coro de patetas, grupelhos de anestesiados, bolhas de estúpidos e nós, à parte e com as ideias e as palavras certas, os Esclarecidos. O acaso nunca nos apanhará desprevenidos.

Ao virarmos a cabeça, encontramos uma criatura agarrada aos livros e ao caderno a fervilhar de versos, vemo-lo mergulhar em apneia na folha num mundo injustificável, numa pilha de linhas eufónicas e de desejos cifrados, os quais comunicam quando muito sub-repticiamente com o mundo. De pronto, catalogamo-lo: mais um louco, mergulha mas não pesca peixe algum.
Se somos o centro do universo, como alegam os mais fanáticos narcisistas, se a nossa convicção é prima da verdade absoluta, como tolerar esse exercício fútil da escrita, como deixar passar a paixão posta em discurso dos escribas destituídos de faraó, como consentir que desgraçados semeiem os primeiros grãos de uma utopia numa folha povoada de emendas?

Enquanto o nosso miolo ingénuo e o nosso coração aprendiz se encontrarem hipnotizados por teses umbigocêntricas e nos deleitarmos no universo do nosso próprio reflexo, prosperarão palavras embusteiras como empatia e Outro, vogarão ao sabor do acaso ou da agenda — episódio revelador do nosso falhanço enquanto transmissores de humanidade, o qual, uma vez dissecado na folha, se revelará a atitude mais antiga de sempre.

Viver é um verbo intransmissível porém em parte comunicável.

apetite pelo inutil, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.01.22

Quando, em tantas estradas e precipícios despovoados de metáforas, os nossos corações fizeram as vezes dos olhos e se recusaram a fitar o horizonte, estavam a preservar, através da sua cegueira, a carne atormentada. As nossas lágrimas desperdiçam tempo connosco. Apesar da dor, habitual freguesa da nossa cabeça, tudo se mantém decadente. A recusa de dar livre curso ao grito animalesco, o qual nos libertaria do fardo de décadas, leva-nos pela mão até à província do tédio. Nessas terras interditas ao homem contemporâneo há duas e apenas duas ocupações: crescer ou morrer.

Um vive como se fosse eterno, varre a morte para debaixo do tapete; o outro pensa constantemente no fim e vive a vida de suspiro em suspiro.

A impossibilidade de dizer algo acertado alimenta em nós o gosto pelas coisas barrocas e faz com que nos devotemos a arranjar legendas para todos os quadros. A nossa cabeça tornada exposição movediça apinhada de quadros mutantes. Aquele que não conhece o tédio ignora o seu nome. Prisioneiros estúpidos da pirotecnia do espectáculo, hipnotizados pelo som e pela fúria da cor mansa, fundamos cidades entre nós e o nosso reflexo.

Aquele que levou a cabo o exorcismo pelo seu próprio pé, sem auxílio de terceiros, sejam eles de origem terrena ou divina, aquele que não se entregou à empreitada da angústia e sentiu, no seu estômago, a biblioteca do mal, no interior da qual personagens de alto coturno engrossavam a definição de morte, que nunca saboreou uma falésia com os olhos apagados de esperança, que nunca soletrou a sua própria extinção num poema de Georg Trakl, nem provou os arpões de um deus enraivecido no lombo, jamais se curará de si. Ao passo que aquele, engodado a princípio pela morte, acostumado à disciplina de povoar de gente a folha assombrada e ao dispêndio inútil porém apaixonado de energia, mestre no capítulo de fazer tudo para ninguém, aproximar-se-á do fim sem gaguejar e logrará pôr a morte para trás das costas. Sem luzes e sem as ilusões das palavras fortes, afastados os véus, guilhotinados os deuses, dizimados os demónios, estaremos nós em condições de habitar, finalmente, o nosso nome?

empreitada da angústia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.01.22

Na mesma linha, o autor x e o autor y, empacotados como clássicos, vindos da província estrangeira da literatura, comunicam em torno da mesma ideia puída, guiados por uma mão tempestuosa. A loucura de pregar o óbvio nunca me seduziu. A velocidade com que diploma fanáticos enfurece-me: é um precipício almofadado, sem arestas cortantes, que não nos impede de cair. A morte talvez nos pudesse ensinar alguma coisa. O grito não é uma escola. Se a ideia é passar um século aos gritos ao menos inscrevam-se em aulas de canto. Esta repetitiva porque breve arte de seduzir os humanos com bagatelas é o último esforço para que haja refrães universais. Mas para quê? Para nos curarmos de que doença?

Só alguém vertical sem seguidores à vista, dado que à sua volta vivem um sem-número de círculos de lume que impedem a crença de se aproximar, pode ofender um século impunemente. Como argumentar com um homem que escolheu para si o papel de Diabo? Como refutar um homem que arde sem ambicionar o depois? Como dinamitar um homem cuja língua foi apadrinhada pela Morte?

É um bárbaro canoro, eis a conclusão precipitada, um homem que aprendeu a ziguezaguear o labirinto da farsa com o Minotauro. Todo o progresso vai no sentido de civilizar a agonia. Nas palavras certeiras de Cioran, a vida cria-se no delírio e desfaz-se no tédio. Nestes anos em que a alegria me visitou como quem visita um familiar no lar, isto é, esporadicamente e sem se demorar, o tédio buscou inspiração na minha ausência de afazeres pirotécnicos. O Homem — o maiúsculo e o minúsculo — apinha os minutos de espectáculos para que o tédio não singre. Temos medo daquilo que o tédio poderia dizer de nós. E se nos legendasse de cadáveres, não adiados mas pontuais? E se a vida não passasse de uma farsa gerada pelo delírio? Conversarmos sem parança, não consentimos que o silêncio se espreguice entre as deixas de um diálogo atabalhoado. O tédio revelar-nos-ia sem vernizes, monstros sem dentes nem garras. De facto, tentamos enganar a fome com alimentos de faz de conta. O coração definha, o cérebro definha, a alma definha: injectamos a luz de um falso Deus em cada átomo, todavia permanecemos vazios. Seduzidos pelos holofotes que criam anjos e demónios por geração espontânea, somos cachalotes derretidos nas margens surreais de um século farto e decadente.

Numa hora em que ninguém desconfia, a ideia funambulesca percorre os fios altos e abandonados do cérebro. Não há público, nem a salvação proporcionada pelo aplauso.
Uma viagem fabulosa entre ídolos caídos, deuses de gatas, constelações de sonhos feitos em papa. Não há parede à altura deste quadro.

O sucesso e o fracasso são-me indiferentes. Tudo depende da dimensão do fio. Um fio infinito, mesmo para o mais virtuoso funâmbulo, significa partir em direcção à morte.

O fanatismo do óbvio e a obsessão pelo útil são-me estranhas. Desesperado por instinto, elíptico por vocação, triunfo sobre o desfile de carcaças que fui sendo. Novas fogueiras, porventura sublimadas, prosperam à sombra de novos dogmas.

Banalização da banalização

 


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.01.22

De qualquer perspectiva imparcial, tenha ou não existido com poderes dignos de figurar nos filmes da Marvel, Jesus é reconhecido por crentes e incréus como tipo porreiro. Jesus, como mensageiro do amor, tornou-se uma figura excepcionalmente popular e hoje é o ponta-de-lança da religião com mais adeptos.

Versátil, pronto a curar leprosos e erigir pequenos e grandes Lázaros de ataúdes, Cristo foi amealhando simpatias graças à cinética dos alegados milagres. Nos bastidores desses episódios — e isso fá-lo palpavelmente humano — foi enceleirando detractores mais ou menos subtis.

Para citar Lotário di Segni, isto é, o Papa Inocêncio III, todos os seres humanos são Job. É uma bela ponte entre o filho de Deus e o Homem. Dou-me conta da ousadia. Discorremos sobre Jesus, como se não houvesse séculos a separar-nos. Eis-me retratista do quase impossível.

Ingressarmos nas questões de Deus constitui um laboratório no qual, a partir de uma vaga inquietude, se destilam várias espécies de gritos. Para lá de todos os precipícios, encontra-se uma vontade primitiva de dar nome a essa luz que não cessa.
A meio da queda, com o auxílio in extremis do Altíssimo, o Homem adquire asas que o afastam, por momentos, da morte. Até quando?, questiona o mais impaciente.

Segundo o crente pacificado com o silêncio, encontrarmo-nos com Deus é um relaxamento face à ideia de morte. Para lá de toda a trivialidade, para lá de todas as cacofonias que enformam o nosso parlapié de futuro defunto, há uma migalha com ânsias de germinar, hábil em iluminar o nosso humilde caminho.

Em jeito de súmula, o Homem aproxima-se de Deus porque procura domesticar o que lhe foge. O problema não reside em acreditar ou não acreditar, mas sim na consequência nefasta do narcisismo galopante. Nas palavras de Peter Sloterdijk, ao deixar de pôr Deus acima de todas as coisas, o Homem ingénuo ou ganancioso, semelhantemente a Satã, escolhe-se a si mesmo como o seu objecto de eleição. E eis a queda.

Abandonemos a esfera da queda, quase não exige esforço desmontar a pose ficticiamente vertical do homem contemporâneo. Depois de Deus, a verticalidade é uma fabricação suspeita, engendrada por hipócritas que se pavoneiam em frente a uma turba de ingénuos.

Detenhamo-nos por um momento em histórias paralelas, uma das quais engendradas por Judeus. Há uma história apócrifa — que é como quem diz, rumor — segundo a qual Jesus é filho de um soldado chamado Pantera — belo nome —, resultando daí que Maria era uma espécie de prostituta disponível nas pausas dos eventos bélicos.

Só há duas formas de estar na vida, dois estilos diametralmente opostos: 1) passar por tudo, 2) prescindir de tudo.

O jejum do coração e do cérebro, quanto a mim, não me parece escolha saudável. Afastarmo-nos cinicamente das coisas não me parece a coreografia certa — é antes uma arma romba da sapiência contemporânea. O cínico olímpico cai na esparrela de florear a seguinte ideia: tudo é outra coisa, tudo o que vejo é pretexto para outra coisa. Têm predilecção por polemizar tudo aquilo que tocam. Afadigam-se na teorização da jornada e do cerco. Fazem de tudo para não dar um passo em frente. O cinismo, de facto, é porta-voz da ruína interior. Entronizam-se venenos a fim de dar consistência ao nosso desnorte, eis a criatividade pós-queda.

A palavra, doença ou terapia tartamudeada por outro, encontra-se hoje numa situação frágil. Tanto pode repelir como aproximar dois estrangeiros. Gaguejada não pode constituir promessa alguma, ao passo que se vier categórica é-nos suspeita.

A paixão, o amor, amizade, por assim dizer, nessas províncias de difícil acesso ao homem contemporâneo, carecem de itinerários fixos. Falar é importante, abrirmos o coração é indispensável, pôr o miolo em canção é necessário. Tudo isto para andar às voltas do dito Agostiniano: “A recompensa da confissão é que quem diz a verdade chega à verdade.” Longe do domínio senhorial do umbigo, habitar essa verdade é passar a dor a limpo, purificá-la e fazer as pazes com o passado.

Mas estaremos nós a pensar bem? Deixarmo-nos inundar pelas palavras de Deus conduzir-nos-á a um sítio melhor? A tensão intelectual associada à resposta começa a desaparecer, dado que não pode ser articulada em palavras. Mas regressemos a Jesus, será ele um representante imaculado do Amor?

Com efeito, Jesus foi alvo, ao longo das eras, de sucessivos retoques enaltecedores claramente tendenciosos. Fizemo-lo crescer em luz com os restos da realidade e exagerámo-lo como quem não tem escapatória senão a hipérbole.

Jesus. (João 2:4)
“O que tem isso que ver contigo, mulher?”, deixa com a qual cortou a palavra à Mãe, Maria, nas bodas de Caná.
Não me parece que tenha ficado muito bem na fotografia.

De um ponto de vista embriagador, uma das questões mais decisivas, presente no livro de Lucas. Outra vez Jesus:
“Julgais que vim para estabelecer a paz na terra?”

E por último, não me recordo o livro:
“Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo.”
Dá ideia de que o amor ficou para segundo plano.

Neste ponto, a distância temporal é mãe de todas as interpretações. O Homem lá foi tentando suavizar a postura de Jesus com contratextos, porém a dúvida persiste. Em todo o caso, há sempre a hipótese de nos tornarmos outro. Com ou sem auxílio divino, a metamorfose continua alcançável.
“Em toda a parte se encontra um Jordão.”

Deus dissecado pelo depois, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.01.22

Como o pensamento é próprio de tempos antigos, qualquer Homem que o use de forma voluntária transgride a ordem de uma taberna: desviriliza-se, que é como quem diz, abandona os tomatinhos, abdica do seu estatuto de palhaço versátil e perde a oportunidade de gritar sem ter razão. Um desperdício para quem, como eu, assiste regalado às escaramuças verbais típicas desses locais.

Não é comum tropeçar numa ideia digna de nota aquando de uma visita a uma taberna, assim como não procuro um Homem sábio no século XXI, tal demanda levar-me-ia aos cumes da depressão. O século XXI tornou-se, perdoem-me a franqueza, um pomar de palermas. De resto, tais palavras têm um sentido sensivelmente impreciso, e se estou a pôr toda a humanidade no mesmo saco é porque desejo atirá-la ao rio amarrado a uma rocha. Mas esta hipótese — que tantas alegrias me traria — parece-me bastante frágil. Parecendo que não, faço parte — friso-o a contragosto — da humanidade. Tanta história de homens adoptados por animais nos livros de todas as eras e eu continuo rodeado de Homens. Será que não há por aí uma família de javalis que me queira como filho? Sou corpulento, feio e sei espatifar hortas: eis o meu currículo.

Saltando para outra divisão da memória, recordo-me da infância e dos marmelos. Pela altura do verão, era comum ver-me a correr nas estradas de gravilha do interior do Baixo Alentejo. Volta e meia ia ao chão chorar um bocado. Caía puto e levantava-me mártir dos joelhos esfolados. O marmelo estava omnipresente nas mesas das pessoas da aldeia. Na minha cabeça de petiz, engendrava tratados sobre o marmelo. Devia existir uma espécie de lei que obrigava as pessoas a ter marmelos nas fruteiras, caso contrário iam presas. Além disso havia o pau de marmeleiro, o qual parecia ter um grande apreço pelas nádegas dos putinhos. Ou portas-te bem ou levas com a vara de marmeleiro nas nalgas, berrava a minha avó.

Careço de estudos para pôr por extenso as mutações necessariamente lentas e complexas do marmelo. Como é que passou de um lugar de prestígio para o anonimato em poucas décadas é algo que me escapa. Talvez o zénite do marmelo tenha morrido com os velhos, os vassalos carinhosos do marmeleiro. Em seu lugar foram plantadas outras árvores, a saber: laranjeiras e limoeiros.

E temos ainda a marmelada. De facto, o marmelo está connosco nos bons e nos maus momentos. É difícil ser mais laudatório sobre este fruto. Vale a pena determo-nos neste ponto: as crianças actuais não passam cartão ao marmelo. Olham, gulosos e de olhos esbugalhados, para bananas, maçãs, pêras, clementinas e poucas são as que pedem à mãe: “Progenitora, descasca-me aí um marmelo”. Mas não é exclusivo dos putinhos, os adultos afastaram-se igualmente do marmelo sem dizer adeus. Onde andam as mães que faziam marmelada caseira? Já para não falar da contribuição para o vocabulário da paixão. Que outro fruto pode ombrear com o marmelo no campeonato da marmelada? Nenhum, digo eu amargamente. Creio que sou o último paladino do marmelo.

 

Paladino do Marmelo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.01.22

Platão era detrator da maquilhagem e da poesia. Unindo os pontos de forma humorística, tudo leva a crer que o menino Platão era contra tudo o que embelezasse a língua e o corpo e só investia numa relação se a mulher se apresentasse nua e, em vez de falar, grunhisse, dado que a palavra maquilha o pensamento humano.

Segundo o pupilo de Sócrates, a beleza é simples, pura, sem misturas, estranha à perversão das cores e a todas as vaidades humanas. E ainda Platão: “procurar embelezar-se através do vestuário é uma prática malfazeja, hipócrita, baixa, servil”.
“Qualquer trapinho te fica bem” é um elogio que pode ir beber a Platão. Olha que há destinos.
Platão, gigante entre os gigantes, sumidade na filosofia ocidental, passou ao lado de uma grande carreira de crítico de, termo da altura, modas bárbaras. Imaginá-lo hoje nas caixas de comentários das fotos de influencers dá-me uma barrigada de boa disposição.

Imaginemo-lo nos dias de hoje a comentar as típicas fotos de influencer no Instagram.

Influencer publica uma foto toda maquilhada.
Platão: Excelsa mulher de peito farto, trata-se de um simulacro perverso que deve ser rejeitado o quanto antes. Tanto as cores como as formas do rosto foram manipuladas pela maquilhagem. Fico à espera de uma foto em que surja sem pós milagrosos nas trombas.

Influencer publica uma foto de soutien.
Platão: Curioso, explorou habilmente a fraqueza da percepção masculina, criando ilusões e revitalizando o rei das terras baixas. Não sei como consegue dormir à noite quando sabe que engana a vista dos ingénuos e perturba o espírito de tão frágeis homens. Faça um favor à humanidade e não especule o tamanho das tetas.

Influencer publica uma foto com grande ênfase no nalguedo.
Platão: Procurar enfatizar as nádegas, tão ao gosto do selvagem, ainda por cima com filtro de Instagram, é uma prática degradante. Acaso o faça, faça-o sem artifícios. Um rabo sem auxílios da maquilhagem e da tecnologia. Um rabo como o seu não necessita disso, é como a luz no seu zénite capaz de fertilizar e encher a cabeça do homem de ideias fecundas. Como sabe, não sou leigo em matéria de rabos. Não me querendo gabar, mas cá vai alho: sou o pontífice máximo do assunto. Não é o homem que escreve estas linhas, mas um estudioso neutro do cu.

Influencer publica uma foto com as tetas de fora.
Platão: Apesar do inegável prestígio do mamaçal, ocultar os mamilos é uma prática condenável, porque priva a mama do seu epicentro. O olho masculino, carente de um ponto de referência, vê-se perdido ao abarcar tamanho decote. A forma como põe os braços, de molde a que as tetas pareçam maiores, apesar de visualmente estimulante para o animal faminto, é altamente desaconselhável. As mamas merecem a verdade.

Influencer publica uma foto em que surge com o cabelo louro.
Platão: Ao contrário de Afrodite que se banhou no rio Escamandro a fim de tingir o cabelo de louro, resultando o título da mais bela das deusas atribuído por Páris, em si não surtiu qualquer efeito: continua feia como uma bota gasta. Não fosse dotada de um rabo olímpico e estaria condenada ao anonimato. Faça o favor de modificar a sua postura na próxima fotografia.

Influencer publica uma foto de jardineiras.
Platão: Apague a foto, essa farpela está a ferir-me as vistas. Os seus adoradores não merecem tão excruciante experiência. Admita o seu erro. Para compensar, contento-me com uma nude na caixa de mensagens. Deleitar-me-ia a descrever minuciosamente as delicadas nuances amiúde ocultadas pelas suas tristes farpelas.
A roupa, minha cara musa, trata-se de uma excentricidade tardia.
E a conversa segue na caixa de mensagens do Instagram.
Influencer: Meu bandalho, és igual aos outros, só me queres ver nua.
Platão: Tenciono ver o teu corpo desnudo, porém, ao contrário dos outros, procuro igualmente a verdade. Seria uma alegria para mim encontrar a verdade no teu corpo ao léu.
Influencer: Não vou cair na tua cantiga.
Platão: Cantigas? Poesia? Isso é que não, vou bloquear-te. Mas primeiro manda a nude.

Platão e a Influencer

 


Roberto Gamito

04.01.22

Definir o que vale ou não a pena é uma tarefa difícil. O coração, armado em autor, tem sempre grandes dificuldades em propor definições pertinentes, sólidas e contidas; na verdade, chafurda com grande aparato num sem-número de linhas amadoramente poéticas sem nos trazer a luz da certeza. Upa, degrau inesperado. Atlas fornicou a Noite e teve três ninfas, as Hespérides. Detenhamo-nos neste episódio. O poeta, principalmente o maldito, fode a bom fornicar a mãe, a Noite. Ou pelo menos tenta. Que criatura esquisita: Poeta-fornicador-da-Noite-armado-em-Édipo-filho-de-Atlas-carregador-do-seu-cosmos. Que frutuoso intercâmbio de nuances!

Primeiro era o vermelho, de seguida o branco e o preto. A primeira tríade de cores. Só mais tarde chegaram o amarelo e o verde. E só depois o azul, eis o que nos ensina Michel Pastoureau.

É útil recordar que houve um tempo em que o vermelho era pau para toda a obra: era amor, morte, vida e o mais que vocês conseguirem pensar. Outro acrescento: em tempos muito recuados, os frutos de polpa eram designados de maçã. Tentemos viajar até esses tempos. Duas personagens passeiam num pomar.

— Belo pomar que aqui tens. Que fruto é este?
— Maçã.
— E aquele?
— Maçã.
— E aquele lá ao fundo?
— Maçã.
— Tudo maçãs? Estás a mangar comigo.
— Tudo maçãs, meu amigo.
— São todas diferentes, estás burro?!
— Amigo, não há mais palavras para designar fruta polpuda. Por ora é tudo corrido a maçãs.
— Ao menos chamavas-lhes prosa de Roberto.

Pensar em maçãs é o mesmo que pensar em Héracles e o seu décimo primeiro trabalho no Jardim das Hespérides. Em jeito de súmula, Hera, a célebre deusa rabugenta, deu-lhe um trabalhinho que era capturar as maçãs de ouro. Ora, Héracles (ou Hércules, se preferirem a versão romana) é um tipo sem sorte nenhuma. É uma espécie de trabalhador precário. Vem com a ideia de cumprir uma tarefa pequenita e cai-lhe tudo em cima. São os colegas que não vêm, são as tarefas que se agigantam e, na maioria dos casos, não compensa e o salário continua magro. Isto ainda vai ser o meu fim, pensa Héracles e o trabalhador português.

Desdobremos o décimo primeiro trabalho de Héracles nos seus diversos episódios. A luta contra o monstro Anteu, uma rixa rija com um dragão dotado de cem cabeças, uma pugna contra os pigmeus, a libertação de Prometeu e, como se isso não bastasse, ainda ajudou Atlas a suportar a abóbada celeste. Segundo uma fonte próxima, as costas de Héracles nunca mais foram as mesmas — é o que dá carregar o peso do mundo sem aquecer primeiro.

Ao cumprir esta demanda prenhe de perigos, finalmente alcançou as maçãs de ouro. Trá-las a Eristeu, que ignora o que fazer com elas e as abandona. Belo trabalho! Um pouco abananado, Herácles dá as maçãs a Atena, de molde a agradecer-lhe a ajuda que lhe prestou em várias ocasiões. Atena, rata até ao tutano, não quer arranjar problemas com Hera, a possuída, e manda devolver as maçãs de ouro ao Jardim das Hespérides, lugar do qual nunca deveriam ter saído. Sim senhor, sujeito a morrer pelos frutos dourados e tudo isso para nada — para voltar à casa de partida. Humano, demasiado humano. E já agora: apanhar frutos não é um acto reversível. Assim que são apanhados, não há forma de os voltar a pôr na árvore. Essas maçãs douradas deviam ser mesmo boas para terem tantos guarda-costas.
A Hera que me perdoe, mas fiquei com vontade de comer uma.

o décimo primeiro trabalho de Herácles

 


Roberto Gamito

03.01.22

Não há dúvida — do meu ponto de vista míope, pelo menos — de que, se não queremos ser nomeados palermas profissionais, necessitamos de romper ocasionalmente o casulo do pensamento demasiado simplista de que a “comédia é para fazer rir”. Eu próprio, actor sem as deixas decoradas deste teatro destrambelhado chamado século XXI, defendo teimosamente a tradição do riso na comédia. Sem a possibilidade de deformar o rosto com a gargalhada, a comédia perde a verticalidade e resvala em águas estagnadas.

Permitam-me que vos inaugure a cabeça com este pensamento. Poderá a comédia sobreviver se cair nas mãos do inimigo, de um não-comediante? A comédia, partindo de pressuposto que é arte, é flexível, é metal fundente de futuras lâminas e, uma vez por outra, sai fora do molde. Enquanto arrefece e não arrefece, a comédia vai passando por uma miríade de formas. Apesar do triunfo das convenções, de tempos a tempos renovadas, a comédia, tal como a arte, é um ir além do molde. Sem esquecer o molde — caso contrário perdemos o pé e endoidecemos num cosmos vazio de referências.

No outro lado do espectro, no escaninho da luz onde os demónios exercitam a lábia, situa-se a triste turba enfadonha que se abalança para a ideia de que a comédia é para fazer pensar. Instalemo-nos nesta frase durante um minuto enquanto o tinto não vem. Desculpem a seriedade. E chamo a atenção para não ser acusado de cultivar o tédio dogmatizador, arte tão em voga nesta fatia de tempo que nos coube, quando há instantes me apresentava como vago detractor.

Há algo de fascinantemente patético em pedir ao humorista que faça o público pensar. Não é de modo algum estranho ao ritual da piada, todavia é uma consequência. Mas não haverá criaturas mais habilitadas para atiçar o pensamento em tão disponíveis cabecinhas? Um filósofo, um escritor, um pintor, um poeta ou um velhote sentado num banquinho a fazer tempo para o almoço? Por que diabo se pede a um humorista que nos espicace o miolo? Acaso pedimos a um pedreiro que seja capaz de levar a cabo cirurgias?

No decorrer desta orgia entediante — ó século que dás à luz tão macabros oxímoros —, mesclam-se ideias labregamente traduzidas, ecos mais em voga e de supetão dá-se corda a este carrossel de intenções que visam pôr o umbigo em destaque. As cabeças, vocacionadas para o vácuo, relevam-se numa estupidez despida de véus. Isto emprestou às nossas conversas pontos de vista inéditos rapidamente politizados. Faltará pouco para os desgraçados separem as côdeas segundo o quadrante político.
O “pensamento” (não fiques, leitor, desconcertado com as aspas; temos de tratar os “bois” pelos nomes — bandido, a fazer pouco disto tudo!) conseguiu elevar o banal ao estatuto de deidade.

Um fiasco completo. O novo deus não tem mãos no milagre e tudo permanece por reconstruir.

Este novo pensamento tornou-se um fenómeno avassalador na sua incapacidade de gerar novos mundos. A sua fragilidade, retirada do parênteses da timidez para o grito, ali ou acolá, entoada qual hino ríspido por um coro de papalvos, é o pilar de uma nova religião. Apesar do esforço de pensadores, escritores e poetas — partindo do pressuposto que não estamos a falar de figuras míticas —, o espaço entre o génio e o palerma está cada vez mais pequeno, os mil e um lugares do pódio interpenetram-se e acasalam, e hoje somos incapazes de destrinçar o último do primeiro. Eis as maravilhas de um mundo fluído, um abraço para o senhor Zygmunt Bauman. Seja como for, há sempre alguém que recebe de braços abertos o pecado de se submeter a uma comédia cujo fito é fazer rir. Era despachá-los com uma saraivada de chumbo — isso admite-se?!

Apesar das aparências de triunfo — muitas vezes os acólitos do pensamento enfezado confundem migalhas com medalhas de ouro —, todos crêem, de algum modo, numa nova espécie de Deus. O que principiou por ser um afastamento em relação ao riso rumo ao pensamento revela-se, sem surpresa (e por conseguinte sem comédia) um encontro com o fanatismo.
A purificação dos elementos é sempre indicativo de que o fanatismo está a ganhar seguidores.

O resultado é pobre, demasiado pobre. Não deveríamos nunca perder de vista a verdade: o pensamento que nega o riso, a ironia que o desmancha e o refaz, é um embusteiro. A vaniloquência pirotécnica seduz-nos graças ao aparato e ao barulho, porém, findo o breve fogo-de-artíficio, artimanha que passou ao lado de Actéon feito veado, percebemos que a noite permanece noite e fomos mais uma vez incapazes de a povoar com as estrelas da comédia ou da arte. Um pontinho de luz — uma gargalhada — de cada vez, de molde a tornar o mundo mais habitável.

Mais valia permanecer calado. Seria mais delicado da minha parte se não perturbasse as poucas entronizações que nos restam neste reino de mosquitos, o qual foi instalado pela mediocridade faraónica nestas venenosas águas estagnadas.

Laboro em arte o meu sangue para minar o apogeu dos meus parasitas.

vaniloquência piroténica, Roberto Gamito

 

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