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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

24.08.21

Ao contrário de todas as expectativas, a vida brotou neste planeta antigamente estéril. Tudo terá começado como um projecto modesto, uma tentativa sem grandes perspectivas, um daqueles cursos que se faz para não estar parado, um passatempo entre trabalhos sérios, a fim de ver no que dá. Ainda hoje ignoramos se pelas mãos do Acaso, se pelas mãos de Deus. Encetou-se a experiência com umas bactérias, uns fungos, de seguida uns líquenes. A vida ia ganhando confiança em si mesmo e ia testando formas inéditas, intrincando-se, criando alianças, simbioses. Não havia razão para a competição. Socalco a socalco, o mundo foi povoado pelo milagre. Depois surgiram as plantas, que prontamente se aliaram aos seus pais, os fungos. Do mar vieram os primeiros povoadores da terra. Aventuram-se para além do mundo conhecido. Talvez um parente da iguana das Galápagos. É incrível como a vida pôde florescer num mundo tão rude. Nada estava a favor da vida: mesmo assim ela prosperou. Viver é uma prova de resistência. Foi-o desde o princípio. A vida singrou aonde não a esperavam. Não será essa vida, uma vida que rompe do deserto sem cunhas, o sinónimo de amor?

Na Tanzânia, nas árvores, os colobos, uns macacos com uma pelagem preta e branca, recentemente tiveram de se adaptar a uma realidade nova. De tanto viver suspenso entre a terra e o céu, esse apeadeiro tenso como a corda de um funâmbulo, observa-se o mundo de maneira diferente. Recordo-me do barão trepador, de Italo Calvino. Quem fica muito tempo nas alturas tem uma vista privilegiada e tudo lhe parece pequeno. Nos últimos anos, as antigas árvores, a antiga floresta, foi dando lugar a plantações de chá. Vê-los no meio do chá a fitar os homens absortos na colheita, eles, os colobos, que nunca viram os homens, é de partir o coração. Não percebem o que lhes aconteceu — claro, corremos sempre o risco de humanizar e o colobo terá direito, como é óbvio, à sua singular e inescrutável interpretação da sua nova situação. A forma como o colobo grita indicia a autoridade que tem sobre o território. O grito deste singular macaco foi-se subtilizando até aos nossos dias: hoje chama-se poder.

O colobo é um macaco do mundo antigo, e a floresta onde viveu já não é útil aos homens. Em breve, tudo o que natureza dá, lenta e ineficazmente, será visto como um empecilho. Em breve, os animais selvagens não terão mais para onde ir a não ser migrar para o território inóspito da culpa humana. Não adianta avançar ou recuar, fugir ou enfrentar, todos os caminhos vão dar à extinção. Afortunadamente, os colobos ignoram que estão entre a espada e a parede, e podem fruir daquela imagem de uma nova espécie de macacos, os homens, a colher chá num sítio onde até há pouco tempo havia árvores com dezenas de metros.

Na Amazónia, recensearam-se, até ao momento, 16 mil espécies de árvores. A biodiversidade na maior floresta do planeta é um hino no qual concorrem todas as cores e sons. Certamente um dos maiores orgulhos do Criador, seja ele quem for. Sem as árvores, as cataratas de Iguaçu, no Brasil, não existiriam. Um dos mais grandiosos espectáculos produzidos pela natureza: há milhares, se não milhões de anos que a peça não sai de cena. Sem as cataratas de Iguaçu, deixará de haver o andorinhão-velho, uma ave que nidifica nas cataratas para se proteger dos predadores. Permitam-me que cite uma frase que vi num documentário sobre florestas: “a água como a vida nunca pára a meio caminho”. Se a água parar, a vida pára com ela, eis uma ideia que podemos retirar.
Mas abrandemos um pouco, respiremos fundo, tentemos uma última vez reatar a nossa relação com a natureza, não falar com os espíritos de todas as coisas, rios, árvores, e animais, como um antigo xamã, mas olhar para tudo o que se passa à nossa volta: como um pequeno orangotango.

Terá sido provavelmente a mudança mais drástica da história da vida. Deixou a água e voltou-se para o céu. Primeiro veio o sonho, depois um plano seguido esforçadamente ao longo de milhões de anos de evolução. Entretanto, tiveram que se tornar mais ágeis e mais leves. As primeiras aves contentaram-se com o facto de serem desajeitadas, de avançar aos pulos. A confiança foi crescendo ao longo de milhões de anos até que alguns deram o salto determinante — o voo. Voar dava acesso a povoar o novo mundo. Esta é a história dos pássaros. Muito parecida com a dos homens, parece-me.

Abandonemos por instantes o andorinhão-velho, e voltemos o holofote do nosso desassossego em direcção às flores. Foram elas, e não os poetas ou homens inspirados pela paixão, que inventaram a sedução. Precisavam urgentemente de prosperar. As flores queriam atrair todo o tipo de bichos: os que voam, os que rastejam, ou os que andam. Em suma: manipular os polinizadores para atingir os seus fins. Vistas dessa ideia, as flores já não parecem tão santas. À medida que os olhos dos animais se aperfeiçoaram, as flores viram-no, e o viram aqui pode ou não levar aspas, arriscaram tudo e jogaram o trunfo: a sedução. Um mundo até então quase monocromático deu lugar a um festival de cores e cheiros. Ei-las, as flores, as pioneiras na sedução.

Na caverna Chauvet-Pont d’ara, no sul da França, podemos observar pinturas rupestres com mais de 30 mil anos. Naquela altura o homem não se desenhava a si próprio, desenhava os outros seres vivos. Parece abissal a diferença entre a arte primitiva, vamos utilizar este termo não ignorando o perigo que acarreta neste caso, e a nossa, em que tudo gira à volta do nosso ego, do eu narcótico em que o outro, a aparecer, surge desfocado. Era o início dos inícios. O homem tinha todas as perguntas e nenhuma das respostas. Talvez não tenhamos avançado muito mais, embora a nossa arrogância venha em nosso socorro a fim de o desmentir. O homem primitivo colmatou os vazios com a arte, a cultura, os rudimentos da religião. À falta de verdade, e não sabendo lidar com o vazio, o homem teve uma ideia luminosa, talvez a maior de sempre: inventar histórias. A ficção para fazer as vezes do silêncio da resposta que teima em não aparecer.

Antigamente, o homem negociava tudo com os espíritos. A relação para com a natureza era de dívida. De lá para cá, a relação do homem com a vida transformou-se profundamente. E provavelmente irreversivelmente. A relação passou de mística, para económica. Já não há tempo para negociar com espíritos a próxima presa, a próxima refeição. O novo Deus, o dinheiro, quer tudo cada vez mais rápido, cada vez mais rentável. E o diálogo atrasa.

Um terço da superfície mundial foi consagrado à agricultura e não é preciso ser catastrofista profissional para prognosticar que o cenário vai piorar. As florestas tropicais estão a desaparecer a um ritmo alucinante. O progresso queima tudo à sua passagem. Por toda a África, a floresta do Congo é um bom exemplo disso, a área destinada à vida selvagem decresce. O que sobra é mantido a muito custo. Reservas diminutas mantidas graças à caça que, garantem-nos, visa regular o número de animais até este atingir o ideal, sendo que o ideal é uma palavra larga que alberga todos os interesses. São espécies que estão presas por arames, dependendo inteiramente dos caprichos dos turistas.

A cada dia que passa, nascem 400 mil humanos e morrem 160 mil. Todos os dias são mais 240 mil bocas para alimentar na Terra. Estas são as contas que Deus faz na toalha do restaurante antes de nos dizer o preço da vida. Ninguém quer, à partida, queimar a floresta— porém também ninguém deseja ter fome. Entre a conversão da floresta em terreno agrícola e a fome passeiam-se todos os interesses. Nós vivemos uma mentira. Ao pé desta, Deus, que até pode existir, é uma brincadeira inócua de criança. A economia cresce atrás de um crescimento perpétuo. Uma ideia suicida.
Nenhum sistema fechado pode crescer indefinidamente, assevera-nos a ciência. É só uma questão de tempo até dar buraco. O dinheiro chicoteia-nos com a ordem: mais depressa, mais lucro. Tudo o que não é susceptível de ser convertido em dinheiro é um empecilho. O diálogo é um estorvo. Lutamos sem esperanças de sairmos vitoriosos contra o que criamos. A sede de dinheiro. Queremos mais, queremos sempre mais. E já nem nos importa como.

Coloquemos de lado a Amazónia por momentos. O corno de rinoceronte vale mais que ouro. No mercado negro, cada quilograma vale cerca de 50 000 euros. Quanto mais rinocerontes matar, mais o caçador ilegal ganhará. Ao torná-lo mais raro, mais posso pedir pelo corno, cogitará o caçador ilegal. Do ponto de vista do caçador ilegal, a proximidade da extinção de um animal é o melhor que lhe pode acontecer. Especula sem escrúpulos sobre a vida. Avancemos agora para Chittagong, no Bangladesh. Chittagong parece um pesadelo. Corrijo: Chittagong é um pesadelo. A meu ver, parece-me os bastidores do progresso, sendo que a peça já foi a palco e foi um fracasso. Chittagong é um dos maiores estaleiros de demolição de navios do mundo. Homens franzinos de mãos nuas empurram com cordas pedaços de um colosso em fim de vida. Não se paga quase nada a estes homens. E eles, muitas vezes, pagam com a vida. Quando vejo imagens sobre Chittagong tenho a sensação perturbadora de presenciar não apenas o lado obscuro do progresso, uma realidade local e distante da nossa, mas um vislumbre vívido do nosso futuro enquanto espécie.

Finalmente, o assunto que me levou a escrever esta crónica. Os fogos na floresta amazónica. Por muito que doa, não podemos desviar o olhar, é a altura de a espécie se mostrar adulta, não nos podemos habituar nunca a este tipo de catástrofe. Bolsonaro que, tal como Trump, se imunizou ao escândalo, disse que enviaria quarenta homens para combater o fogo. Uma anedota. Contudo, às vezes basta um Homem para apagar o fogo. Mas um Homem raro. Um que esteja disposto a dar a vida pela liberdade. Talvez não seja descabido relembrar um naco de prosa de autoria de Timothy Snyder, o qual pode ser encontrado no seu livro Sobre a Tirania:
“Repelir os factos é repelir a liberdade. Se nada é verdadeiro, então ninguém poderá lançar críticas ao poder, pois não existe fundamento algum que possa servir esse propósito. Se nada é verdade, então tudo é espectáculo.”

23 de Agosto de 2019

 

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Roberto Gamito

24.08.21

O modo como eu pensava distanciava-te de mim. Eu reflectia, tu ias para o twitter mandar graúdas postas de pescada.

Lembras-te de tudo o que levou à discórdia? Faço questão de to recordar: "o problema começa em terra idade". Segundo o teu parecer científico, estaria a atiçar canibais reformados. 

Não gostas de piça, pelo menos não mostraste apreço pela minha. Suportavas a chuva de inéditos de aspirantes a escritores que te chegava às mãos, porém o que te arreliou foi uma mera pila humilde posta em retrato. Apesar das flores, das palavras bonitas rapinadas aos poetas ou aos manjericos, conversávamos como predador e presa. Éramos dois estranhos com uma montanha de dias partilhados. 

Na vida, o que mais me ocupa, cogitava o escritor de pendor erótico, eram os problemas que não conseguia descortinar de pau em riste e que podem parecer disparatados: em que estilo escrever "enterrava-te educadamente o defunto". Confesso que o grande escriba de escrita fodilhona nunca hesita entre cona e pipi. Desafortunadamente, ainda não alcancei esse estado. 

Eu vivia dentro de um fato de ponto de interrogação: vivia em plena dúvida. O meu fado era acabar todas as frases em tom de questão.

Nada me parecia suficientemente polpudo, fluído, ágil, alquímico; nada era suficientemente luminoso nem carnudo. Era tudo a mesma merda, o mesmo prato de uma cantina desleixada. 

Não te menosprezes, homem. O tom da tua voz e os teus vocábulos de pacotilha humedecem-me a cona. Ignoro o que fazer com essa informação, ripostou o homem. Faz um poema. Ou, em faltando-te o jeito, contenta-te em estar calado.

O velhote pediu à mulher uns cobres para algo prosaico, a saber: uns contos para umas putas. No fim de contas, o velho ambicionava um episódio que lhe rasgasse, por uma vez que fosse, o marasmo em que a sua vida se havia tornado. E eis que a puta chega, de pernas destrancadas, como fada do lirismo caquético. Ela e ele revezavam-se num diálogo cansado. Seja como for, velho e puta não estavam na cama para arrecadar um Óscar. Estavam ali para desempoeirar o vetusto piçalho — e isso não é coisa de somenos.

Somos um compêndio de entradas, comentou a rameira, tal qual uma enciclopédia. Abra-me ao acaso e tente perceber-me.

Ausências, loucuras, acessos de ira. Estou farta desta vida, gritou a mulher de Deus. Atribuis tudo aos deveres da tua profissão. E eu? Quando é que vais ter tempo para mim? A merda do universo é mais importante para ti do que eu? 

Que eu não me chame Cabrão, e tu não te chames Puta, ainda hoje me parece inverosímil. De seguida, comeram-se como num filme. 

Vivemos como se a guilhotinha estivesse em vias de cair, impondo ao miolo sacrifícios até que rebenta. Já estou farto de pensar. Por vezes escapulíamo-nos pelas portas das traseiras da diversão e corríamos para empreender rituais báquicos no mato. 

Percebi que o homem se havia metamorfoseado: era feliz, ficou poeta; era comunicativo, tornou-se gárgula; era sábio, passou a frequentar o twitter. Já não recebia carinhos ao pôr-do-sol, logo quando o coração está mais receptivo a apanhar vitamina.

O velho entra sem bago nos aposentos da prostituta.
— O que estás aqui a fazer?
— Estou só a respirar. Gosto de olhar para mamas depois de jantar, ajuda-me a fazer a digestão.
— Se assim é, 20 paus, estas mamas não laboram de graça.

Elogiei-lhe os cabelos, os olhos e por fim as tetas.  

O velho e a rameira

 

 


Roberto Gamito

23.08.21

A felicidade não põe comida na mesa. A diversão não põe comida na mesa. Os passatempos não põem comida na mesa. Em breve nem o trabalho porá comida na mesa, disse a empregada de mesa.  

Escrever quando se está apaixonado devia ser considerado batota. Basta olhar para a amada e o resto escreve-se sozinho. Espero que criminalizem esses pulhas enamorados o quanto antes.

Guerras por todo o lado, miséria ao pontapé, pessoas no chão, deuses escaqueirados por marretinhas; o grito como língua oficial do século. O bêbedo pensa para si: "já tive ressacas piores". 

Vamos acabar, disse a mulher. Calma, é tudo muito pouco razoável, tudo muito definitivo. Não estás aberta a negociações?, ripostou o homem. Vamos dar uso à tua veia diplomática, querida. Não, soletrou impecavelmente a mulher.

As Primaveras são mais curtas onde pululam namorados. Fujam desses pardieiros se não quiserem morrer novos.

O velho, gasto como um instrumento musical abandonado, repete sempre a mesma deixa. Toques no tema que tocares, sai sempre a mesma nota. Uma nota das gordas para pagar os serviços à puta.

Sexo a rodos, banquetes opulentos e serviços públicos sem falhas, comentou o homem ao anjo caído. Por que motivo regressaste, questionou o anjo. Aquilo não era para mim, sou muito conservador, e além disso adoro reclamar quando estou nas filas.

Enfiei com ganas aquilo que tinha a fim de inventar mais uns centímetros ao pau. Pela cara dela, acho que não surtiu efeito.

Pensamento? Se calhar, o melhor era matarmo-nos a todos e tirar isso da cabeça.

Mulher avassaladora na cama. O escritor não voltou a escrever desde que a começou a comer. Segundo se conta, ela suga-lhe a vida pela verga. Abençoada fodilhona, o mundo está pejado de obras medíocres. 

A mulher era demoníaca na cama. Quando se vinha, o homem fazia o sinal da cruz.

Progresso? O mais certo é tirararem-nos os brinquedos e mandarem-nos para casa de barriga infeliz.  

Armindo foi preso por praticar preços criminosos numa mercearia biológica. Havia quem, presssionado a levar uma vida saudável, comprasse repolhos a prestações. 

O humorista fez uma piada e a suas palavras tiveram efeito no mundo real. Então não é um mágico, é um feiticeiro. Seja como for, fogueira com ele.

Não tomo a vacina porque ouvi dizer que houve uma pessoa que bateu as botas ao tomá-la. Meu amigo, se alguém morrer enquanto dá uma berlaitada, será que também vai deixar de fornicar? 

A crónica não põe comida na mesa

 


Roberto Gamito

08.08.21

Uma pá, uma equipa de resgate e vários braços cruzados. Minutos antes de falecer, o biólogo agarrou-se às suas mais preciosas recordações.
Tal como os humanos e os ratos, os felinos prosperam em todas as paisagens, dos lugares mais remotos e quase inexplorados (caramba, o Homem não pára quieto!), do gelo ao calor da savana, dos Himalaias às camas mais atreitas ao rebuliço.

A mentira de perna curta e a verdade de perna longa andam lado a lado.
Enfunado na sedução, o homem, feito gato pescador, está em vias de colonizar as zonas húmidas. As mãos foram mantidas longe da água, na qual o peixe se acoita, mas isso está prestes a mudar.

Um bálsamo servido em vagas, o equilíbrio das carnes escoltado pelo suor cantado, o calor migratório saltando de boca em boca como salmões em contramão. O sarau onde a poesia foi trocada pelo gemido.

O homem simulou o Paraíso o melhor que pôde. Mal fechou aos olhos, o mundo virou-lhe as costas. Estamos livres? Sabemos um pouco mais que ontem? A meu ver, estamos acorrentados como cães à árvore do conhecimento.

Gato Pescador, Roberto Gamito

 



 


Roberto Gamito

05.08.21

Desço ao fundo de mim — ao verdadeiro inferno — com a esperança de não encontrar ninguém conhecido. Em todo o caso, estou completamente às escuras quanto ao regresso.
A poesia está morta, afiançam-nos; surpreende-me que continuem a malhar no vento ou naquilo que, em dias inspirados, designam fantasmas.

Não havendo outra anestesia, recorro aos dias transmudados em carcaças que fui enceleirando no decurso dos meus passos. A mão avança cautelosamente pelo corpo pejado de cicatrizes, qual agrimensor obscurecido pela tarefa de inventariar as fronteiras da barbárie.

Ao contrário de outros dias, o grito alheio endireitou-me a prosa. Após a metamorfose luciferina, o diabo entrou em mim com um mandato de detenção. Digo-lhe que Deus não está dentro de nós, mas ele não acredita.

Vigio o meu coração à cata de falhas na sua sinfonia. Baptizo cada uma delas de olhos fechados. Foi o que deu andar a brincar aos apaixonados.

Fico a pensar no precipício acidental que a minha vida se tornou. A esperança pode ter os dias contados. O quadro está à mercê de legendas enaltecedoras.

Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava dramaticamente na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções. O cachalote colossal encalhado na margem da memória. Já haviam dado ordem no sentido de desempacotar a civilização alojada na sua carcaça. Puta que pariu esta refeição, eis as últimas palavras do cachalote. Lego aos exegetas a labuta de pôr em discurso os meandros da refeição resgatada.

O mundo não tarda será outra coisa, assim como o inferno — o melhor é não descurar as lições de voo. Se tivesse que adivinhar, diria que nunca houve nem haverá profetas.

Leitor, veja pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. O inferno não é para mim, pensa o leitor ao desistir do texto, prefiro sítios mais frescos.

Ia ser excessivo mais um pouquinho. Pôs a vida mais alta, tirou a mão mais venenosa da aljava e fez pontaria ao coração das Parcas. Pusera a coragem em romance e a determinação voltara a notar-se no olhar.

O bando de burros tapara por fim o sol. Isto e aquilo e podia continuar por aí fora, comentou o chefe das aves orelhudas.

Isto é sobre o quê? O amor é sobre o quê? Dúvidas com muita luz à mistura. Um único dia tomara conta da minha memória. Uma migalha selvagem com a mania das grandezas. Não estou perdido, não sei de onde parti, nem tão-pouco sei como aqui cheguei. Atire a rosa-dos-ventos — o meu queijo — para a fogueira, disse o corvo, vai ver que tudo fica mais fácil.

o amor é sobre o quê?, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.08.21

O escritor começara a sentir o peso da metamorfose. Um homem — em especial um homem com ouvido apto a escutar a selvajaria — daria em leitor se fosse obrigado a mergulhar diariamente na obra deste animal.

Suponhamos, por outro lado, que a salvação não anda longe — que é alcançável por um qualquer caminho por deslindar, esteja o Ulisses ébrio ou sóbrio.

O urso enfarpelado de homem ruminava: “Se eles me descobrem a careca, estou condenado”. Qual dos mundos me coube em sorte? Esta casa de apostas ocupa permanentemente a cabeça do juiz.

Não tenciono expulsar as borboletas do mundo, pô-las a orbitar à volta de um passado desfalcado, com um suspiro feito vendaval. Tento não adicionar cacos ao há muito partido.

Olhe para isto, diz o poeta à musa, novelos de linhas e não há meio de o poema vir à tona. Não simpatizo com essa atitude de derrotado, retruca a musa enfadada. Vou pregar e seduzir para outra freguesia.

Sabia o nome de todos os vulcões deste mundo e do outro. O que poderia transformar um homem tão amigo da alegria numa criatura em queda, de pronto devorada pela lava? Uma rugosidade assídua no tecido do quotidiano é suficiente.

O Diabo presidia a uma coreografia de cem mil piroclastos desejosos de entrar na História. Cabeças, casas, sonhos perfurados pelos piparotes caprichosos do Caído.

O Inferno. O mundo despertou para este assunto. Mas por que razão alongar-me no lugar-comum?

E a catedral arruinada? Rastejamos, adulamos e fazemos vénias. De joelhos, poeta. Nem a verticalidade foi poupada.

Dizer o que se pensa é, antes de mais, um exercício vão. Por mais que tentes, as palavras certas nunca te acudirão à língua.
O discurso, um viveiro de mal-entendidos. Recomeço a respirar onde a vida é mais íngreme — o que me aquieta.

A mão paira a um palmo da folha qual pássaro. Nenhuma das possibilidades debandou. Tenho um deserto no lugar do coração e um oásis na gaveta. Aceito que os meus suspiros encalhem nas margens dos nomes pretéritos. Não passo de um biólogo que, a uma distância insegura, se arrisca a documentar a vida selvagem.

Vagabundeio por trilhos que ninguém compreendeu. Barricado na miragem, o milagre esfumou-se mal o calor afrouxou.

Aqui, nestas coordenadas incomunicáveis, não dá para escrever, quanto mais para viver. Cada linha, uma lição de como abortar o voo.

Não estou em condições de ressuscitar cadáveres tremelicantes, nem tão-pouco insuflar cachalotes murchos com a tripulação da esperança.

Por agora, apelidam-nos de loucos. Resta-nos enlouquecer para não trocar as voltas aos cérebros amedrontados. Choca-me que continuem a malhar no cadáver de deus. Por sorte, somos governados pelo acaso. Levantamo-nos bobos, acabamos o dia como reis — aproveitem, não é todos os dias.

Estamos completamente às escuras quanto ao paradeiro do amor.

Suspiro feito Vendaval, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

26.07.21

Burocratizei a trajectória da bala, gritou o poeta no cadafalso.
Lume parasita e exageradamente pago; do outro lado da história, o silêncio magoa no pino da solidão. O século-eunuco ocupa os dias a foder-nos em vastos salões vazios. Laivo de ouro povoado por palavrosas sanguessugas recém-chegadas, vida relatada — ó maravilha das maravilhas! — por abutres. Uma despedida em linha recta.

Não se assuste, menino, eu não vim para ficar, ribomba a tempestade. No entanto, terá de me suportar. No atoleiro onde os pirilampos descobriram o seu âmbar, os Homens tentam, engessados, ensaiar novas danças. O xamã — aquele que vê no escuro — prosseguia com o ritual funéreo, a luz acabara de falecer. O único ser vivo à altura da morte.

Mar revolto, pequenos pinguins vigiados pela fome do leão-marinho, gigante quando comparado com os pequenotes torpedos que na água descobrem o seu voo. As ondas rebentam num festival de espuma selvagem, regurgitando pinguins ao calhas como pevides, uns safam-se com sorte, outros com mestria, enquanto alguns cessam a coreografia na boca do predador. O mar baralha os destinos dos pinguins e cada um tenta a sorte onde o precipício entoa o seu hino. Perdigotos cuspidos pelo mar nunca afónico. O leão-marinho permanece imperturbável no seio das tormentas. Os pinguins pressentem-no: um salto em falso, um capricho oceânico e é o fim.

O pinguim aproxima-se da boca inimiga como que empurrado por uma mão fluida, todavia foge à boca do Golias por um triz. Sem tempo para celebrações, prossegue a fuga em terra com os seus passinhos atabalhoados. O leão-marinho, espicaçado pela sorte do pinguim fêmea (o pinguim macho fica no ninho com a cria) sai das águas com grande pompa cinematográfica e vai no seu encalço, também ele atabalhoado. Tudo fica mais claro. Fora do seu meio, leão-marinho e pinguim, presa e predador, exibem, na sua forma de andar, o lado ridículo disto tudo. Ao rés do pinguim, o leão-marinho tenta abocanhá-lo mas tropeça na rocha. Ao ver o seu pitéu andante afastar-se, desiste e regressa ao mar. A sua reputação de temível predador sofreu um rombo, escreveu o pinguim jornalista. A cria, a qual espera ansiosamente pela refeição trazida pela mãe, nunca saberá o preço a que o peixe está.

Pinguim e o Leão-Marinho, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.07.21

Um homem — e em especial um homem com boas pernas e bom ouvido — daria em presa se fosse obrigado a pôr o garrote na língua.

Pálpebra empoeirada, vaticínio gaguejado. O ramerrame do cérebro amedrontado, a chacota das feras solteironas e desdentadas. Pés bem assentes no deserto, a cabeça em água. Homem nómada, oásis acometido por surtos de amnésia. O fim como palco e guião. Tira a camisa, põe a camisa: vê ao espelho a virilidade arruinada.

A ira decompõe-se em versões mais mastigáveis. O animal é domesticado por uma rede subterrânea de rodapés. O barco vazio, a voz ao leme. A metamorfose do chicote. Quem é que não consegue gostar dele e perdoar-lhe os seus pequenos caprichos?

Entre a espada e a parede, falo com uma e com outra. Hoje, agarrados ao corrimão, simulamos a velhice que nos há-de esvaziar. Caíamos em tentação, amolgadela na auréola. Retomamos, pois, sem mais palavreado, após um aparte de décadas, o assunto que mais nos interessa: o amor.

Aproxima, repele, homem-partícula de carga indecisa. Parte, ajuda a partir, reparte mafiosa ou irmãmente, despede-se sem qualquer palavra nos olhos, de mãos e pés atados. A sedução por parte da lâmina realça o sabor da queda. À lupa, apontaríamos outros pormenores mais sinistros. O pássaro sangra em pleno ar no verso que o obrigou a ir além do voo. Estrela hermética capturada pela mão esquerda. Eclipse tagarela, duelo com os corvos. A literalidade amputa o canhoto e sobram-nos os factos.

A metáfora magoa, faz-nos perder o pé onde ontem o mar era raso.

A Metáfora Magoa

 


Roberto Gamito

22.07.21

Em vez de descobrimos a careca ao dragão, em vez de descortinar os pequenotes que sob as suas vestes se ocultam numa estatura postiça, estamos aqui a choramingar como meninos sem mãe e a tecer louvores a guilhotinas rombas. O precipício cantante. É preciso encontrar a origem do sofrimento e fazê-lo explodir como um universo.

E não caíamos na tentação de ceder diante da novidade, essa nómada bagatela, esse vulgar pirilampo face ao qual os párocos da pose são contorcionistas exageradamente flexíveis. Crio raízes onde os demais fogem. Diante da escoada piroclástica, não sou senão um projecto de estátua a sonhar com o futuro.

Afastemo-nos, também, das definições que nos emperram as asas.
Num tom acima do comum, mas não tão acima que se possa considerar musical, admitiremos, de forma bastante profética, o fim que nos caiu no colo a estrebuchar qual peixe saído das águas. A razão ganha pernas e centra para o coração da área, um passe humanamente aflito em direcção à cabeça da imaginação.

O receio obrigou as mãos a retroceder, encolheu-as até os domínios do microscópico. Uma fera por natureza, um homem por ficção. Entre uma coisa e outra o teatro.

O cardo fazendo as vezes do coração do deus derrotado. Poesia maldita: carbúnculo à prova de hienas. A íntima vergasta depaupera a pluviosidade da língua. Os porcos dos vindouros hão-de refocilar no lamaçal à cata de ângulos mortos, os quais hão-de guarnecer de mediocridade a obra do escritor. Vimos muitos exemplos de como esfrangalhar o Homem, todavia urge continuar à procura de novidades.

Critério fluído, génio maleável, abutre-fabulista dando voz aos animais apinhados de vermes. O encontrão na morte, um deus ébrio sem pretensão à imortalidade. Suplico-vos, cuspam em todos os meus passos para que a argila da jornada nunca cristalize.

Noite cheia de olhos ferinos, uma vaga de panteras abatendo-se sobre a horda de turistas. Entretanto, meteu-se no negócio dos fardos. À porta do seu mundo, o seguinte aviso: vende-se dor para fora.

Carbúnculo à Prova de Hienas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

21.07.21

No entrave entre a língua prefaciadora e o sexo, habitou, selvagem, hoje romantizada, a obra do poeta. Oh, lacaios da faúlha ressentida e restante comitiva de papagaios, mais um incêndio em Alexandria? Caramba, não dão sossego à vossa mediocridade. O interregno entre infernos teorizados — e Deus vos abençoe por isso —, a bala carpindo a emenda póstuma no romance inacabado, revelou-mo a sacerdotisa degolada. Tudo ardis no sentido de insuflar silêncios dolorosos. As pessoas definham, sozinhas ou agrupadas em cachos de eremitas, sob o tecto arruinado da catedral abandonada. Do chão ao tecto vai apenas a ideia de verticalidade. Em todo o caso, trazer o coração à baila numa cantiga de amansar espíritos mais agrestes é-me insuportável. Por estes dias, contento-me a inventariar os vermes da minha carcaça. Quantos mais serão necessários a fim de reclamar a minha morte?

E aqui temos o naufrágio burilado, sem tábuas de salvação nem deuses a quem pedir uma côdea. O sangue seduz os tubarões, dá-lhes currículo, sugere-lhes o círculo da fome — a possibilidade de posfaciar a carne.
Mas, alto lá!, ainda não chegámos à carnificina. As ondas legam melancolia ao último turista, que há-de morrer na praia. Desafortunadamente, não legará postais aos vindouros.

K. está lá em baixo a vigiar o convés atafulhado de fruta apodrecida. Os deuses, velhos solteirões, se preferirem, entregam-se a um oficioso banquete canibalesco. Maquilhagem no gesto, rosto, digamos, a descoberto como manda a moda da época, truques de mágico com o fito de distrair o público do que realmente interessa.

Lâmina e corvo agouram à vez. Cabeça de João Baptista, timoneiro no barco fantasma. Na mesa ao lado, o biógrafo mumifica o faraó entronizado pelos holofotes. Génio escarnecendo do século, barómetro receando pela sua obsolescência. Morte marcada para depois do poema perfeito: eis a maldição do poeta imortal, profetizada pelos cadáveres das musas.

O mofo na métrica, o bolor no verbo, o nome apinhado de arrebiques e a frase parada por falta de peças e talento. O filão do amor à espera de mineiros, mineiros esses abortados pelo século independente.

O shaker das desculpas apresenta-se como cronista do rescaldo. Uma relação falhada emboscada por caminhos jamais percorridos. Lobos postos em passos, lobos quilométricos por cima dos quais podemos alcançar a morte perfeitíssima.

Amputada a folia, o vate destes anos crê dar à luz poesia. Uma ideia sem pernas impedida de sair da folha rumo à cabeça dos leitores desnutridos de luz. Anacrónico exagero. Aconselham-me a abandonar o voo e a substituí-lo por um simulacro. Uma pedra emplumada é suficiente se a ideia for despertar a atenção destes cérebros encalhados no ruído.

Grito que venho em paz, todavia o hálito a guilhotina denuncia-me. Fera de esferovite aplacada pelas carícias e os afagos brincalhões dos indefesos, eis outra legenda deste marasmo.

Lufada de ar fresco na sala de mafiosos. A querela burocratizada pelas boas maneiras. Um apego abrandado pelas notas de rodapé. Uma distância em pulgas de ser dinamitada e nada.

Pequenos homens, fingidores de proezas, adquirem hérnias com migalhas aos ombros. Embrenha-se-nos o cadafalso na carne e na língua. Doravante cada passo em falso será morte certa.

Fera de Esferovite, Roberto Gamito

 

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