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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

07.07.21

António Careca levou a cabo uma proeza alto lá com ela. Segundo reza as gordas do jornal, escorraçou com um pontapé bem metido nas nalgas o Caído-Mor, o Senhor Satã, o qual replicou degrau a degrau a sua célebre queda. Escapou por um triz ao elogio do vulgo, o visado acanhava — sempre acanhou — os bajuladores. Os demónios menores caíram-lhe em cima como lobos esfomeados. Em vez de o matar, desfecho que o aliviaria, obrigaram-no, então, a vestir-se com um oleado verde e amarelo, isolando-o cromaticamente do resto do mundo. As redes sociais, blindadas que estão ao pensamento, não souberam como reagir a tal acontecimento. Assim enfarpelado, o homem cumpriu o seu destino de fazer-nos rir.

É uma criatura submissa, entre o homem e o cão, pacata e inofensiva, cuja arte lhe chega, no máximo, para coçar os tomates em dias de palestra. Ao que parece, é insuficiente se o fito for fundar uma vanguarda.

A modéstia impede-me de revelar os maiores cumes entre os estúpidos. Todavia uma coisa vos digo, a competição nunca esteve tão renhida. Não é fácil deixar um legado neste campo.

O árbitro de comportamentos interrompia momentos tensos como se a vida dos outros fosse um filme dirigido por ele. Movido por um fervor religioso, o figurão eclesiástico das redes comunicava às pessoas como deviam viver a sua vida. Ninguém diz nada, esse juiz de meia-tigela é o orgulho do Homem, a menina dos olhos do século XXI. Todos fingem concordar, perpetuando assim a farsa. Mais burros não ficamos, pensavam eles.

O seu nome vem à baila de vez em quando, fazendo o soalho estalar com o sapateado da sua grandeza, é um nome demasiado grande para ser menosprezado pelo círculo de medíocres calejados. Corre o boato que a conversa só é conversa quando o seu nome é chamado ao barulho.

Homens sazonalmente verticais tentam passar por escritores. Estão a braços com uma língua que não é a deles, espremem-na até à última gota, mal dá para um copo, quanto mais para uma obra.

À míngua de espectáculos e demandas dignas de figurar em currículos de heróis, ocupam os dias a apadrinhar guilhotinas. As redes sociais são o lar, como alguém há-de postular um dia, de algozes enfezados. Incapazes de ver sangue, arranjaram um ardil destinado a provocar a morte à distância.

Oh, K., receio bem que o senhor seja demasiado hilariante para este século. Amanhã falamos, primeiro é necessário seduzir o coração do castelo.

À excepção do linchamento digital, somos burocratas até ao tutano. Burocratizamos o coração, o sexo e o mais. A picha e a cona traumatizados, acoitados em cima da pilha de papéis. E que alívio é abrirmos a porta à morte e saltar pela janela do quinto andar.
Os suicidas dariam a vida para poder ver as feições da morte ao perceber a fífia do Homem.
Os génios do século XXI ocupam um lugar muito importante na História, e é extremamente árdua a tarefa de os descrever — são papagaios uns dos outros.

Mais uma corrente literária, mais uma ninhada de papagaios.
À medida que envelhecem, os Homens vêem com mais nitidez o discurso do seu reflexo. Olha como estás acabado, meu animal esfrangalhado, comenta o reflexo alojado no espelho.

Recuso-me a ser ludibriado por uma fatia de nada, por mais apetitosa que se me afigure. Logo que os víveres começarem a ser desmentidos pelos sábios, os suicídios vão subir em flecha.

Esquece a verticalidade, se quiseres prosperar no teu ofício, e é por estas dicas que os aspirantes a homenzinhos de valor vendem a alma ao diabo, agacha-te e reza a tudo o que não te for familiar. Pudesse eu ao menos usar um faca nos dentes — sucessora da rosa no tango —, a fim de fazer boa figura na dança das cadeiras. Regicídio, deicídio, não importa. Fui contratado pelo destino para trabalhar, que é como quem diz, colher cabeças dos arbustos penumbrosos.

Não há ninguém capaz de puxar fogo ao século? Estes anos apinhados de escritores de prosa desdentada é incapaz de deixar marca. Tanta carne à espera de ser mordida.

Se apreciares o meu poema, sou menina de te abrir as pernas. Manjar silábico, digno de um não-sei-das-quantas. A cavalo dado não se lhe olha o dente e ficamos assim, cada um com o seu quinhão. A tão desejada aprovação, emprestar a rata por tuta-e-meia, dar minutos de voo ao vergalho, o costume, réchauffés.

Se pudesse fazer aquilo que quero, e o meu caminho fosse exequível, não restariam deuses nem demónios para contar a História. No entanto, é útil editar o pensamento antes de o verbalizar, enfatizá-lo com prosa hipócrita, elevar o paralítico das artes aos píncaros, tudo comportamentos com provas dadas, os quais fazem com que nós sejamos populares quando rodeados de uma matilha a salivar de aprovação. Para brilhar à mesa não é preciso suar o miolo, basta dizer aquilo que os demais ambicionam ouvir.

Quando cumpridas as várias salvas de elogios, aí sim, podem começar a pavonear-se. A vossa grandeza fictícia entrará sem atrito nessa atmosfera carregada de empáfia. Hipnotizados, os anões julgar-se-ão gigantes. Inimigos, nem vos passa pela cabeça a verdadeira estatura do Homem.

E eis que prossegue o artista nas andas da publicidade, papando elogios qual parasita, saracoteando-se com o pedigree dos iluminados. Atrás dele, uma comitiva de carraças, em cima, uma ou outra pulga.

Mas está tudo mal para ti? Nada disso, sou como uma criança que brinca na praia de pilinha ao léu. Tudo me alegra, tudo capta a minha atenção.

Ninhada de papagaios, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.06.21

Foi deplorável ver como as frases mais medrosas se escapuliram à socapa do texto com a chegada dos censores.
Desistiram da pugna, enfiaram-se em pardieiros sem luz nem norte para beberem as suas cervejas inspiradas no sabor do mijo.
Quanto às oportunistas, mais expeditas que as medrosas, partiram, feitas sanguessugas, em busca do seu cu de ouro.

Aquele que admira coisas ficticiamente altas é um estúpido a abater. Eis a razão pela qual me aventurei rumo a mares jamais vindimados, com o mais barrigudo dos respeitos, pondo o oportunista-contorcionista no topo da minha lista, obrigando a vetusta caça grossa a recuar para o papel de figurante.

Enoja-me o hábito de lisonjear e rastejar de todos aqueles que ao pé de um novo holofote de metamorfoseiam em mosquitos. Se, ao resmungarmos numa língua vera a falta de coisa para o coração trincar, aparecesse logo alguém disposto a uma conversa estufada com batatinhas a murro. Em todo o caso, a estatura que o mundo teimava em atribuir-nos, deu-nos muitos e bons loucos.

Éramos sete ou nenhumas pessoas, e acabava aí as semelhanças, a cavaquear sem açaimes com a musa capturada. Como é, filha, vais contribuir para a demanda ou temos de continuar a gritar?

Na ausência de Deus, qualquer candeeiro Lhe faz as vezes. O oportunista apaparica-o com os melhores acepipes que o tempo pode comprar, com vista a uma vida melhor. O lado humano, as células da verticalidade, acotovelam-se no meio das metásteses da servidão até o seu atrofiamento ser completamente irreversível. Se a vida é uma máquina de gerar precipícios, o oportunismo é uma máquina de produzir quadrúpedes sem coração.

Oportunista-contorcionsita, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.06.21

Tertúlia de Mentirosos com Catarina Matos.

Tertúlia de Mentirosos Catarina Matos

Catarina Matos. Humorista, cultora da one-liner, cheerleader da vida.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: o medo de falar de mais, o medo do ridículo, projectos na gaveta, o mundo encantado do plágio, o produtor de conteúdo e o repetidor, as metamorfoses das redes sociais, a conversa ideal, Steve Martin, síndrome do impostor, a vertigem da velocidade, os subterrâneos da comunicação, guardar resíduos radioactivos, magia e ilusionismo, gerir uma noite de comédia.

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.





Roberto Gamito

28.05.21

Chorão polivalente
Uma carpideira da nova escola. Megafone das dores alheias. Consegue, qual adepto ferrenho, ir buscar dores à década de 60 e relatá-la detalhadamente como se fosse hoje. Ao contrário das carpideiras primevas, este ágil chorão é capaz de chorar, qual ser ubíquo, inúmeras mortes em simultâneo. Se gritar fosse um emprego, seria bilionário. Um prodígio no tocante a transformar uma coisa boa numa coisa má. Um alquimista às avessas. Um anti-Midas cujo dom é transfigurar aquilo em que toca — mesmo ouro — em merda. Não há registos de que esta pessoa consiga ser feliz.

Fã ecléctico
Não há nada que esta criatura não elogie. Minto, precisa de ter pelo menos 10 mil seguidores para ser digno de louvor. Compreensível, a História ensinou-nos, mais que uma vez, que não há génios sem seguidores. O filho mais talentoso do lambe-cus. Aperfeiçoou a arte dos seus ancestrais até ao limiar da perfeição. Divide a língua num sem-número de elogios. Para ele, a contradição é uma miragem; a crítica, dispensável.
O sonho dele é passar quinze dias com as celebridades mais famosas do mundo a tirar selfies. Numa palavra, um vampiro paciente.

Plagiador plagiado
Um dos animais mais espectaculares que podemos encontrar nesta fauna. Episodicamente, escreve algo vagamente original. Um em dez mil tweets é da sua autoria. Copia desenfreadamente anónimos e famosos. Tem a lata de, ao acabar de escrever uma piada em 2021, acusar o comediante de o ter plagiado em 1986.
Desligado da realidade; só usa a razão em dias de festa.
Em dias de bebedeira é capaz de garatujar algo como isto: “dou muito valor à originalidade”. Em suma, um filho da puta com obra feita.

Duchamp tardio
Artista excepcionalmente contemporâneo, o qual tira tudo de contexto, a saber: piadas, frases, imagens, suspiros e silêncios, pichas e conas, se for o caso.
Ironicamente, prefere a sanita ao urinol.

Comediante frustrado
Fel em forma de pessoa. Alguém que é capaz de pedir um mês de férias ao patrão para poder estar concentrado em destilar ódio nas redes sociais dos humoristas que singraram. Guardião do humor. Há um rumor segundo o qual ele guardou num cofre a verdadeira definição de comédia. Porta-voz da ideia de que não há comédia em Portugal. Em dias mais inspirados, brinda-nos com piadas de merda que, segundo o seu critério, são geniais. Hitler, o qual foi um pintor frustrado, não lhe chega aos calcanhares no que respeita à cólera que borbulha nas tripas. Em havendo hipótese, destruía o sistema solar sem pensar duas vezes.

Agelasta
Nunca foi visto a rir. Não acha graça a nada, excepto em ver um humorista a ser linchado nas redes sociais.
Para ele, o humor devia ser abolido, a pior invenção da humanidade. Quem se ri é, no mínimo, mentecapto. Para este ser sapiente, Cervantes é apenas um coxo, Sterne um fanfarrão, Beckett, absurdo, Pirandello, um desnorteado. Faz questão, qual bot, de comentar que não acha graça a cada piada que os comediantes lançam.
Há ainda a casta mais intrépida — leia-se patética — de agelastas que não se inibe de dizer: “é sempre a mesma coisa, não há inovação”. Uma espécie de deus omnisciente entediado. Em parlapié de taberneiro, um chato do caralho.

Herdeiros da Ana Malhoa
Ana Malhoa, para quem eu mando um abraço, é provavelmente uma das figuras mais marcantes do século. Foi a primeira a juntar numa frase três idiomas, a saber: português, espanhol e inglês. Se quiserem, uma espécie de Nabokov, mas com uma peida magistral.
Presentemente, poetas e pessoas comuns usam essa estratégia para cativar as turbas, quer estejamos no twitter ou num sarau de poesia. Hoje em dia é praticamente impossível andar no twitter e ver uma frase com três linhas sem meia dúzia de termos em estrangeiro. Faltará pouco para começar a haver represálias para os portugueses que decidem escrever apenas um português.

Relações públicas de corpos desnudos
Para começar, há duas facções. Aqueles que se escondem atrás de corpos alheios, e os que funcionam como promotores de corpos alheios.
Os primeiros são uma espécie de curadores de nalgas e mamaçal, os segundos, não menos importantes, comentam em termos excepcionalmente elogiosos, com vista a pingar alguma pachachinha. Não há provas que este comportamento se traduza em mais cona ao final do mês.

Feminista postiço
Por norma, um machista 2.0 adaptado aos tempos modernos. Em teoria, consegue ser mais feminista que a mais radical das feministas, na prática, acabará por disseminar dick pics não consentidas pelos seus contactos assim que houver a mínima oportunidade. Uma forma sofisticada de sacar cona. Até hoje não se sabe se este modus operandi se traduz em resultados. Seja como for, as feministas parecem sentir-se propensas a desculpar um machista 2.0. A prova de que ninguém se importa realmente com a verdade; o que queremos, como escreveu o outro, é uma mentira que nos favoreça.

Indignado profissional
Consegue irritar-se com tudo, desde o muito pequeno ao muito grande. Consegue encontrar ligações onde criativos e cientistas são incapazes. É hábil em detectar uma constelação de problemas nas migalhas que povoam a roupa de outra pessoa. Uma máquina de gerar problemas onde não existem. Um escapista da nova geração. É incapaz de lidar com os seus próprios fantasmas, contudo tem soluções perfeitas para todos os problemas do mundo.

Paladino do óbvio
Estes tempos macacos do politicamente correcto trouxeram-nos uma figura inesperada: o paladino do óbvio. Como tem medo de ofender os demais, fica-se pelo óbvio. Para homenagear Nelson Rodrigues, são legatários do óbvio ululante. Dos fenómenos mais degradantes deste século é assistir a um debate onde só se trocam obviedades. Ao que parece, a profecia sobre a morte do pensamento não andava muito longe da verdade.

Refugo do Instagram
Gajas boas e gajos bons, mas não suficientemente bons para conseguirem singrar na rede social da fantasia. Exibem nalguedo e mamas com uma frequência assinalável, para gáudio dos famintos.

12 personagens do twitter, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.05.21

Mais um episódio do podcast tertúlia de mentirosos, desta feita com Dário Guerreiro aka Môce dum Cabréste.

Dário Guerreiro Tertúlia de mentirosos

 

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: pernas roliças, viajar para sítios confortáveis, Dário Guerreiro numa selva pejada de canibais, Segundo Podcast, o medo do silêncio, a dinâmica da aprovação, a relação com o ‘hate das redes’, problemas de interpretação, o zapping nas redes, análise à expressão “não consigo estar parado sem fazer nada”, impingir séries aos outros, Taskmaster, O que é isto de fazer um podcast, stand-up comedy em tempos de pandemia. 

Podem ouvir aqui ou em qualquer outra plataforma de podcast:

 


Roberto Gamito

12.03.21

A fazer fé nas linhas de Swift, pai do humor negro, autor de As Viagens de Gulliver, a sabedoria é uma galinha cujo cacarejo devemos valorizar e ter em consideração porque é acompanhado por um ovo. Não seria inútil analisar esta frase inteligentemente, porém, como o autor destas sílabas não se sente confiante ao abordar as coisas pela via da razão, vamos ater-nos, caros adeptos da escaramuça virtual, acólitos do fuzué das redes sociais, a uma abordagem mais humilde, mais em conta para uma criatura dotada de cérebro assustadiço, pois aí, na estupidez, sinto-me a jogar em casa. Quanto a mim, o ovo é fruto da repetição; tal impede-a de ser o que é, é o rasgo em direcção ao desconhecido. Esticando mais a corda da divagação, é o ovo que interrompe o Eterno Retorno doméstico. E aqui entra o ofício de paciência. Por vezes, e mais do que aquelas que conseguimos enumerar, na nossa vidinha monótona somos confrontados com o cacarejo, o eco, se preferirem, e isso causa-nos comichão na alma e brotoeja no cérebro; não obstante as nossas crenças, só queremos que tudo acabe o mais depressa possível. Todavia, se formos razoavelmente pacientes, a espera pode revelar-se frutífera. Abandonada a minha vetusta teoria de que a repetição é um tributo a um papagaio ancestral, o eco é, bem vistas as coisas, uma galinha invisível que, no seu dialecto repetitivo, anuncia ao mundo que vai pôr o ovo. Sem paciência, podemos cometer o equívoco de achar que há apenas o cacarejo. É crucial esperar o aparecimento do ovo, a semente da novidade, a qual está carregada de colesterol. No entanto, para que ninguém pense, nem nós nem o mundo, (e eu incluo-me no grupo pois não me tenho em grande conta) que a paciência é um ofício utópico, inalcancável às criaturas deste século, as quais foram hipnotizadas pela velocidade galopante, fui persuadido por uma lebre, uma vez que o pássaro incumbido de passar segredos e confortar-me nos momentos menos bons estava de folga, a trabalhar arduamente numa dissertação húmida e seríssima sobre essa figura singular que, sem dizer nada, diz tudo. Segue-se a explicação: o mundo é de tal maneira implacável que até para a cama temos de levar máscaras, liquidando, de uma vez por todas, aquela ideia de Woody Allen de que no sexo as pessoas revelam-se sem máscaras. Sem rodeios e sem aparato humorístico, a galinha e consequente ovo a que me refiro é a Diana Cu de Melancia.

Como não somos labregos nenhuns, apesar de visionarmos a boa da pornografia com a assiduidade de um atleta olímpico de topo, que é como quem diz, todos os dias são dias de treino, compete-nos uma análise cuidada, uma espécie de preliminar, coisa que agrada as fêmeas embora desagrade os impacientes. Enfim, somos cinéfilos premium no tocante ao refustedo, temos poses predilectas, sabemos calibrar o coração carente com o gemido da actriz, somos criteriosos com as cenas, e cada vez mais com a qualidade de imagem do vídeo. No mínimo, exigimos ver pipi e mamas baloiçantes em HD. Em suma, não oferecemos o nosso tesão a qualquer uma. Com a exigência a aumentar de dia para dia, o acto de bater a sarapitola aproxima-se, a passos largos, do amor. Os mais radicais, nos quais me incluo quando quero disparatar e andar à porrada, vão ainda mais longe. Garantem que o homem, espectador da arte da fodanga, é hoje mais exigente na escolha da vídeo, e por consequência da actriz pornográfica que o protagoniza, do que na escolha da mulher dita real que, em correndo bem, realizado o ritual do engate, lançado o engodo que enfeitiçará a mulher no sentido de passar a ideia de que o homem tem a minhoca certa, a qual será uma ajuda monumental, uma espécie de cajado apto a auxiliá-la no sinuoso caminho da felicidade. 

Sejamos sinceros, tal não constitui novidade nenhuma, e desconfio que as mulheres também se identificarão com isto. Provavelmente foi uma doença que apanhámos a ver Netflix, ou melhor dizendo, um vício que apanhámos ao desperdiçar horas a ver thumbnails. Ficámos absurdamente exigentes com a sétima arte. O problema é que estouramos o tempo no superficial e ficamos sem tempo para ir mais fundo. Evidentemente, há segundos sentidos a rondar a frase anterior. 

Na vida real, uma pessoa chega a uma certa idade e está por tudo, senta-se numa esplanada e assim que o primeiro peixe cai no balde damos a pescaria por terminada. A coisa muda de figura quando o intuito é premiar o pénis com arte. Aí temos de ser rigorosos. No mundo real, podemos abster-nos de escrutinar a cona, visto que pretendemos dar minutos de voo ao besugo, a fim de que as asas não enferrujem, agora no mundo da pornografia, no qual nos tornámos peritos, devemos querer o melhor. Aliás, enquanto homem, parceiro de uma cobra zarolha, acrescentando que as cobras são surdas, enfim, somos parceiros de uma deficiente, devo ser capaz, enquanto seu cuidador, de lhe oferecer boas experiências. Concluindo, não devemos escolher a actriz pornográfica que providenciará uma viagem ao nosso esperma de ânimo leve.

Finda a consideração acerca de como eu vejo aquela sétima arte para a qual nunca faltará público, estou disposto a favorecer esta crónica a partir de uma observação saudável, de pendor nutricionista. Vamos analisar a melancia. É um fruto com alto teor em água; segundo a Wikipédia, esse baluarte da credibilidade, cerca de 92%. Esta informação é útil, perguntará o leitor mais impertinente. Caro porém estúpido leitor, só sei responder a esta pergunta com um convicto sim. A água é o pilar da vida. Se formos a ver bem, a melancia é o quê? Água com pevides. A água é o que permite a existência de vida neste planeta. Não seria pouco científico da minha parte se me atrevesse a dizer algo como: o cu da Diana é o que permite a vida no Twitter. Cientificamente falando, é uma afirmação inatacável. Indo mais longe, passar minutos a apreciar o cu de melancia da Diana é uma forma de hidratar-me, aconselhável por todos os nutricionistas dignos desse nome. Aliás, sugiro que, uma vez que a escassez de água é um problema cada vez mais sério, que as pessoas deixem de beber água e passem a levar na carteira uma foto tipo passe do cu da Diana. E assim, imprevistamente, resolvi um dos maiores problemas que o Homem actual enfrenta. Com isto, ultrapassei a Greta na lista de pessoas que se interessam pelo futuro do planeta. Tudo graças à Diana Cu de Melancia. 

Desculpem se vos expandi os horizontes, se dei pasto para que o astrónomo que há em vocês pusesse a hipótese: Será que há cus de melancia em Marte? 

Isto é o máximo que estou autorizado a dizer sobre este tópico tão ingrato que é a vida; não era meu objectivo incitar uma controvérsia na comunidade pensante, mas a verdade é que a vida precisa de água, oxigénio e bons cus para se instalar num planeta. O resto são lérias para entreter meninos.

Até aqui tratamos, como é fácil de ver, de cacarejos. Chegou a altura de abordar o ovo. 

Diana Cu de Melancia informou os incautos, no twitter, sobre as potencialidades do sémen. Primeiro que tudo, alegra-me. Os homens, por muito estabelecidos que estejam nos seus negócios, estão sempre a recrutar relações públicas para falarem bem do esperma. É um orgulho ter a Diana como paladino da gosma láctea. Façamos o que fizermos, os elogios nunca serão suficientes. É a confirmação de que as minhas erecções e consequentes ejaculações foram dedicadas à pessoa certa. Doravante vou bater no palhaço com um sorriso nos lábios. 

De seguida, rematou com a frase “Há por aí voluntários para me hidratar?” A minha primeira reacção foi responder: Querida, patroa do meu tesão, é claro que há; aliás, o que não faltam por aí são candidatos para esse lugar apetecível; não digas isso em voz alta, ainda acabas com o desemprego em Portugal. Todavia, numa segunda leitura, própria de pessoa crescida, vi que estava a ser usado. Está bem que, quando estou a apaziguar o besugo, uso-te como alvo do meu tesão, mas isso não te dá o direito de te aproveitares de mim. Já estás armada em capitalista, contribuindo para a precariedade que grassa no nosso país. Querida, pensei que tínhamos uma relação diferente, mais profunda, mas no fundo só me queres escravizar o caralho, pôr o pénis a laborar de graça. Assim não nos entendemos. Magoas-me seriamente; o pénis tem sentimentos. Hoje vou varejar o pessegueiro com os olhos marejados de lágrimas.

 

Diana Cu de Melancia

 


Roberto Gamito

23.02.21

A internet é um sugadouro em permanente actividade. Um vampiro insaciável, se preferirem. Há muitos Homens prontos a estoirar o seu tesouro com ela — essa puta entre putas. Indignação, trends, coscuvilhices e boatos são mel para os ouvidos do Homem do século XXI. Com efeito, perder um episódio dessa magna novela é perder o comboio, é não ter tema de conversa na hora seguinte. É sentirmo-nos postos de parte do curso natural — tumultuário — dos acontecimentos das redes sociais.

Heróis e sacripantas, uns e outros déspotas em formação, confessam nas redes onde o seu tempo é capturado, com ou sem açoites, uma biografia entregue ao tédio. As estroinices do bicho Homem ficam deslindadas. Toda a gente é suspeita. Sevandijas de todos os calibres pululam onde ficcionamos uma vida excepcional. Fazem-se retratos robot para adiantar serviço, adiantamo-nos ao crime. Em suma, integramos uma procissão de doidivanas inveterados. Não há hierarquia que nos separe em altura ou em qualidade; estamos todos à beira da loucura.

Submissos à gravidade que nos aniquila os sonhos um por um, cuspimos profusamente a nossa história para cima dos demais, sem nunca esquecer os detalhes e os ais. O outro, para a maioria, pouco conta. O outro é um bibelot na equação chamada diálogo. Ébrio de amores por mencionar o óbvio ululante, pouco sóbrio para a vida e para a síntese, que mais se pode esperar de uma criatura de miolo esfarrapado? Eco amiúde vertical, eis o que somos.

Eis o que define este tempo: falar, continuar a falar, sem ter nada para dizer. A frase anterior é exemplo disso. Uma atitude de tal calibre é difícil de entender seja em que época for. E todavia não há ninguém que grite: “Alto e pára o baile, que assim não pode ser!”

Volvidas umas horas após nos termos exaurido por inteiro numa discussão nas redes sociais, damo-nos conta que, além de labregos, fomos estúpidos a ponto de não equacionar o desperdício de tempo. De resto, não deixo de pelo menos sorrir e menear a cabeça perante tal espectáculo de imbecilidade. Com uma agilidade e fantasia assombrosas, a língua de quem se derrama nas redes sociais, para além da expressividade e do conteúdo psicológico, é o retrato deste século de sobras.

 

Internet, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

22.02.21

Não haverá obstáculos morais, legais ou de outra natureza quando o assunto é vistoriar com fins pedagógicos uma mulher bem posicionada no espectro da beleza e analisar o comportamento alheio para fins humorísticos. A mulher bonita em vias de se descascar nunca causou engulhos a nenhum ser vivo pensante.
Os cientistas do engajamento anunciaram a morte ao culto do sexo e do corpo demasiado cedo. Se há coisa que permanece rijo é o culto do sexo,  perdoem-se a laracha.
Há dias escutei, perplexo, uma figura de proa da internet a sair-se como uma frase do género: a política, na internet, é um tema muito mais atraente que o sexo e seus derivados. As coisas que se dizem hoje em dia para manter a suposta aura de superioridade. Ou seja: quem nunca fornicou enquanto dissertava sobre política internacional ainda fode como um bárbaro. Quem não se masturba a olhar para uma folha de Excel é um selvagem.

Ontem, na twitch, a casa dos directos e do improviso, sucedeu mais um episódio da telenovela conteúdo. Uma moça com os seus vinte e muitos ou trinta e poucos pavoneava-se num jacuzzi de um motel enquanto ensaiava uma bebedeira com uma zurrapa qualquer, que também podia ser um champanhe de renome, enquanto se queixava da atmosfera tóxica da plataforma, ao mesmo tempo que era abençoada por uma saraivada de insultos no chat. Para terem uma ideia do que sucedeu em matéria de intensidade. Se os moderadores forem pagos ao ban, creio que podemos estar diante das pessoas mais ricas de Portugal. Mais um dia na twitch, dirá aquele que vagabundeia sem ideia de ficar pelos canais sugeridos pela plataforma. Numa plataforma que censura uma lista infinda de palavras independentemente do contexto, passando a ideia que o plano a longo prazo é transformar os streamers numa de três coisas: mimos, máquinas de gritinhos ou caixas de música de dizer obviedades, é de estranhar ver mulheres que passam horas a gerir o vestido, sem dizer uma única palavra, friso, sem dizer uma única palavra, descendo e subindo a roupa coreografando a tusa de um rebanho de piças adolescentes com ânsias de serem espicaçadas. A província encantada onde o pau feito se cruza com o gaming. Ainda há coisas bem feitas nestes arrabaldes da internet.

Que isto já não nos pareça espantoso, nem sequer digno de menção, evidencia o torpor psíquico que nos deixa apardalados face às transformações ousadas e inéditas de uma criatura calorenta numa plataforma que, para alguns, era rodeada de um halo de pureza. Guardem as explicações e as desculpas, o mundo é um sítio estranho, repleto de idiotas, e não me parece que vá melhorar tão cedo.

Mais do mesmo, sendo que o mesmo atingiu um cume.
Mas se nada de novo aconteceu o que motivou o tamanho fervilhar de indignações e consequente chorrilho de insultos? Essas causas foram, e continuam a ser, inescrutáveis a todos. O mais que posso é aventar uma hipótese grosseira, a qual, com boa vontade, servir-nos-á como ponto de partida para o entendimento do que é estar nas redes sociais por alturas da pandemia.

Podia afirmar, sem exagero, que a causa do tumulto foi o número de pessoas a assistir à live em questão— número astronómico para quem está habituado àquelas lides. O padrão está bem oleado nas redes sociais. Não gostamos, ficamos frustrados, de seguida insultamos e, se isso não for suficiente para diminuir o alvo, organizamos matilhas cuja incumbência é reportar a pessoa com vista ao banimento. Neste ambiente de vale tudo onde a hipocrisia mutante se adapta a um ritmo vertiginoso, e onde os frustrados se organizam de molde a mandar abater tudo o que mexe e onde saltamos de desculpa em desculpa para não irmos ao fundo, onde traçar a linha?

Seja como for, este é o século em que a superficialidade — o vácuo — pode prosperar sem obstáculos de maior. O espírito crítico há muito foi exorcizado pela velocidade destes anos bárbaros. E uma frase fora do contexto, como é apanágio por estes dias: As novas ideias para mudar o mundo já nasceram velhas e cansadas.

 

O peão da twitch, roberto gamito

 


Roberto Gamito

27.01.21

O activista de sofá é, por assim dizer, um santo canonizado pelas redes sociais. A sua maior obra é uma compilação de tweets num tom estúpido-bélico em torno de um trend qualquer que bateu forte em 2019, graças ao qual é hoje figura de proa na arena da sarrafusca verbal. Onde o comum dos mortais vê uma indignação, o activista de sofá vê uma vaca de tetas avantajadas a precisar de ser ordenhada.

Se lhe pedem ajuda para algo, declara-se, jurando pela alma do filho que não tem, indisponível, alegando falta de tempo por estar, alegadamente, envolvido numa constelação de causas.
Nunca toma a dianteira numa acção. Afadiga-se com paleio importado, coisas que leu de viés com olhos remelentos e hoje, sem resquício de vergonha, assume-se como uma sumidade em mil e um assuntos. O Leonardo da Vinci das causas. Sou um Homem, nada do que é humano me é estranho, diria, se conhecesse Terêncio, escravo tornado comediante.
Amigalhaço da verdade, segundo o próprio. Embora compincha da paz, resvala sempre para o lado negro da força. Sempre que pode, deseja a morte a um humorista por este, veja-se bem a ousadia do bobo, ter escrito uma piada.
Citando Terêncio mais uma vez, a verdade gera o ódio.
À falta de melhor designação, contentemo-nos com esta: são os alunos mais prolixos da escola do ressentimento.

Se fazem um boa acção, amiúde por descuido, proclamam a façanha a alto e bom som. Habitualmente, pronunciam a palavra empatia dez mil vezes por dia, qual mantra.
Narcisos competentes, fanáticos do umbigocentrismo; dos outros não fazem nem ideia. Paladinos da literalidade; para eles, a metáfora não passa de um mito, a ironia, um empecilho, a comédia, um alvo a abater. Repudiam generalizações, a menos que lhes favoreçam as narrativas. Lêem os melhores autores, mas só quando estes batem a caçoleta, no resto dos dias devoram memes requentados e não reconhecem escritores, ensaístas e poetas. A sua ração literária é à base de legendas saloias que acompanham as mamalhudas no Instagram. São meninos para transformar qualquer diálogo numa província inabitável. Nas suas discursatas, fazem das vítimas gato-sapato se estas têm a intrepidez de os contradizer. No twitter, atiram comentários para o ar num tom dramático e vão colhendo fiéis para as suas fileiras. Dura pouco, dado que para o narciso o outro é apenas um entrave para a ego insultado.


Os desnorteados tiram notas para, chegada a altura, enlouquecerem como deve ser.

 

Activista de Sofá

 


Roberto Gamito

19.12.20

Frequentemente, dado que somos exímios a desperdiçar tempo, iniciamos já suados a concretização de uma tarefa que há muito devia estar feita — uma crónica, por exemplo —, e encetamos a alucinação xamânica durante a qual nos deixamos possuir, à vez e sem rebuço, por um cardápio avantajado de demónios. Somos ingénuos a ponto de acreditarmos que o bombardeamento de estímulos nos conduzirá até aos altos cumes da inspiração.

À beira do desastre, que é como quem diz, o melhor já passou, orlamos o precipício e suas redondezas em passo de vadio à cata de tetas susceptíveis de nos nutrirem, sejam elas oriundas do mundo real ou do mundo virtual. Tempos houve em que esta questiúncula decisiva nem sequer existia. O mundo virtual, antes ínfimo e risível, estava longe de ser um rival à altura do mundo palpável. Entrementes, o século que nos saiu na rifa deu um coice, catapultando-nos para formas inéditas de nos relacionarmos connosco e com os outros. Não vos minto se postular que o tempo dedicado ao mundo virtual cresce espantosamente e o mundo real é cada vez mais um mundo de recurso, ao qual recorremos para coisas monótonas, pouco dignas de figurar no panteão das redes virtuais, a saber: carregar os telemóveis e viver a vida sem a pirotecnia da artificialidade.
O mundo real, sem adornos, não gera engajamento.
Eis o quadro pintado até então: o mundo real de joelhos diante da ficção.

Será isto a consequência de um ego que procura avidamente nas redes sociais aquilo que o mundo real lhe nega? A melhor imagem de si mesmo. Ou é algo mais primitivo? Será que o Homem sente ter esgotado as histórias do mundo real e hoje procura noutras paragens, qual navegador da nova escola, género pirata de sofá, uma história que o faça sair de si mesmo?

Ficaram apenas as cinzas de velhas pontes. Quão loucos teríamos de ser para principiar um puzzle com as sobras do velho mundo?

O mundo real é cruel, amesquinha-nos e apouca-nos sem parança. Não se acanha aquando do inventário das limitações e defeitos. Este pormo-nos de joelhos, esta rebelião escoada pelos dias, sem quebramos a nossa pose de mimo, da qual não sairão herdeiros, não dá sequer para o primeiro verso de uma elegia. Será que não conseguimos melhor que isto?

Como nota elucidativa dos nossos propósitos para esta crónica apraz-me dizer que, infelizmente, a última pergunta ficará sem resposta.

Um qualquer olhar estrangeiro capaz de resgatar o coração da sua vida em suspenso, como que uma instrução que devolvesse a vida e suas maravilhas à carne corrompida pelos dias ficcionais. Eis possivelmente uma escapatória.

 

Mundo virtual, Roberto Gamito

 

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