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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.01.22

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Tertúlia de Mentirosos com Rui Cruz

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Censura diluída?, segurança e pedantismo, pedantismo lisboeta, piada e o twitter, o mundo flutuante da arte, o poder do estatuto, Mozart e o comentário no YouTube, a miopia do génio, o circo do ego, o rescaldo do roast, produtores de conteúdo precários, o mundo da Twitch, Humor, Homem e narcisismo, comédia sem surpresa, Dave Chappelle, comediantes de textos e comediantes de aparato, Zelig e Woody Allen, Riso de Mozart, artista infeliz, escrever crónicas, o mundo dos podcasts, Adam Sandler 100% FRESH, solo Como Todos Fazem, o próximo solo, sociedade da estatística.

(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.


Roberto Gamito

24.12.21

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Hugo Pinto, Tertúlia de Mentirosos

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
a primeira curta, escolha de actores, transformação de um conto em argumento para uma curta, escola da televisão, realizador Hugo e editor Pinto, relação entre realizador e actores, os efeitos positivos e negativos dos prémios, Viver Todos os Dias Cansa de Pedro Paixão, Humor no cinema português, plataformas de streaming, a pandemia, patrocínios, licença para gravar no exterior, a relação com o guião, viver com as personagens, Joker.

(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

Aqui


Roberto Gamito

21.12.21

Continuando na senda do episódio do ano passado, os melhores livros que li durante 2020, decidi levar a cabo a edição de 2021. Eis uma lista sumária de alguns dos melhores que li durante este ano. Cada livro é acompanhado de um breve comentário. Foi um ano pautado pelos Contos e pelo Ensaio. E muitas releituras, daí que a poesia, o género que é mais querido, não tenha tantos representantes como em anos pretéritos. Ao terminar o episódio, dei-me conta que me esqueci de alguns vultos. Só para citar dois, A Era do Capitalismo da Vigilância de Shoshana Zuboff e Confabulário de Juan José Arreola. 

Túnel de Vento, Roberto Gamito

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.
Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.
De Roberto Gamito e suas vozes.

Espero que gostem do episódio. 

Podem acompanhar o Túnel de vento nas plataformas habituais: Soundcloud, Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts

 

 


Roberto Gamito

28.11.21

Onde há pessoas Há merda

Podcast Onde Há pessoas Há merda

Podcast educadamente obsceno, virtuosamente sacrílego,
gritantemente libidinoso, sensivelmente humorístico, impossivelmente absurdo, assustadoramente parvo, esporadicamente genial sobre as investidas do acaso sobre as duas pessoas que dão alma a este sarau de comédia, a saber: Gonçalo Patrício e Roberto Gamito.

O ouvinte menos familiarizado com o mundo pode eventualmente equivocar-se ao mergulhar nesta tremenda obra, que é como quem diz, o diálogo povoado de pepitas destes dois comediantes. De facto, Onde Há Pessoas há Merda. Rir-se-á quando apoucarmos pessoas e castigará, à boa maneira de Gil Vicente, os costumes. Agradecemos o riso, mas isso não faz de nós amigos. Se aproveitamos o facto de o humor aproximar as pessoas é porque, no fundo, nos facilita o trabalho quando resolvermos mandar tudo pelos ares.

Gonçalo Patrício

Gonçalo Patrício, hoje reformado, foi durante muito tempo olheiro de certas partes femininas. Em tempos idos, era comum vê-lo na selva à cata de novas espécies de tetas. Ao contrário do javardão clássico, fê-lo propulsionado pela sua fome científica. Apesar de retirado, persiste como uma sumidade no assunto e hoje é comum vê-lo em palestras durante as quais tenta doutrinar os jovens sobre os benefícios de visionar um belo par de mamas. Há quem diga que foi expulso da Ordem das Tetas quando, num momento de fraqueza, sussurrou: “belo rabo!” Gonçalo consegue ver humor em tudo, excepto nas papas de sarrabulho. Durante a pandemia fez a tropa na Twitch e lá aprendeu o valor da amizade e do bom dia. As suas maiores referências são George Carlin, Joana Marques e Tiagovski.

Amigo do seu amigo e inimigo do seu inimigo. Nunca ganhou um giveaway e culpa a Pipoca Mais Doce por isso.

Roberto Gamito

Roberto Gamito é mais um repetente da escola da vida. Em tenra idade, foi puxado pela orelha pela mãe após ter profanado uma estátua com mijo. Desafortunadamente, não nasceu numa família de activistas e foi castigado com mil e uma palmadas no rabo.

A farpela de humorista não lhe assenta bem, e sempre que pode anda nu com um gorro na piça. A piça, tal como o velho, não se dá bem no frio. Prefere a verdade ao riso, o pensamento à gargalhada e o bitoque à sopa. Depois do exílio na universidade, regressa a Paris em 1974. Dez anos depois sucede, infelizmente, o seu nascimento.

Viveu na obscuridade e sem um tostão, qual albino de classe baixa, mas a sua obstinação fez com que ele alcançasse um estatuto invejável — o anonimato, pese embora tenha ganho momentâneo destaque com a obra Elogio ao Escroto.
É crente na santa trindade cu, mamas e pipi.

A sua inscrição tumular dirá tudo o que precisamos saber sobre este selvagem: “Mas que merda vem a ser esta?!”

O único podcast de humor português sem Patreon.

Podem ouvi-lo e aqui: 


Roberto Gamito

25.11.21

Enleado nos antigos laços da própria vida, era-lhe negado o voo. Rotas de seda metamorfosearam-se em rotas castradoras. Será que não tinha outra saída senão espernear até à última pinga de fôlego e por conseguinte consumar a asfixia?

Astrónomo amador versado no microcosmos da sua biografia hieroglífica. Passara anos a fio a tentar unir os pontos sem alcançar uma constelação digna de figurar nos manuais menos propensos à mortalidade. Monologava o seu norte numa língua morta. De resto, ficava-se às escuras no respeitante às rotas mais frutíferas da época. Dando cambalhotas entre as ideias mais apoquentadoras, ziguezagueando entre os pilares da lógica, sustentado de ambos os lados pelos demónios mais travessos, tropeçou no cadáver de Deus. A complexa anatomia do primeiro cadáver esquisito. Surrealista desde o princípio, cada homem adicionara uma parcela do seu medo ao cadáver do númen.

Não obstante a escassez de ventos benfazejos, ele atravessava as províncias da estupidez filosofando, com dificuldade, sem amealhar adeptos nem ouvintes, tentando em vão colonizar os espaços especulativos entre duas frases, e saía, não como entrou, erecto e convicto, mas curvado em virtude do fardo das expectativas goradas. Todas as veredas em direcção ao norte haviam sido cortadas. Nem futuro nem depois, tão-somente uma sala de espera em expansão.

Quem explorou as profundezas deste pousio insondável onde nada sucede fora do guião do destino, quem terá tido uma loucura suficientemente grande capaz de medir quantas braçadas é preciso dar no sentido de ir de um lado ao outro da tristeza colectiva?

Prosa cheia de recantos e escaninhos. Era um lamentável sucedâneo de um sábio, dependente de interpretações mais generosas. Era de admirar que, nesse fluído e ameaçado estado de coisas, o nosso personagem ainda fosse capaz de dar um passo em frente sem se desfazer em lágrimas. Terminemos por aqui. Apesar de embriagadora, a atmosfera é limitada por demasiadas ressalvas.

Enleado nos antigos laços

 

 


Roberto Gamito

24.11.21

Em As Leis da Estupidez Humana, livro de Carlo M. Cipolla, historiador, divide a humanidade em quatro grandes grupos:
1) desamparados, 2) inteligentes, 3) bandidos, 4) estúpidos.

Para vos fornecer a atmosfera do livro, o melhor será recorrer a uma bela citação: “A lei insinua que quer nos movimentemos em círculos de gente distinta ou nos refugiemos entre as tribos coleccionadoras de cabeças da Polinésia, quer nos encerremos num mosteiro ou decidamos gastar o resto das nossas vidas na companhia de mulheres belas e lascivas, temos sempre de enfrentar a mesma percentagem de pessoas estúpidas — percentagem essa que irá sempre ultrapassar as nossas expectativas."

Resumindo em linguajar de taberneiro, há estúpidos a dar com um pau. Não obstante as mais generosas estimativas, eles serão sempre mais. A par dos ratos e baratas, o estúpido é a espécie mais bem sucedida de sempre — preparada para viver em qualquer habitat.

A beleza do fenómeno da estupidez, ao contrário de outros fenómenos, é que não está confinado a coordenadas específicas. Não precisamos de nos locomover para zonas remotas do globo com o fito de observar e documentar o comportamento de uma população de estúpidos no Pólo Norte, nos Alpes ou numa qualquer floresta com meia dúzia de árvores. Onde quer que o Homem tenha chegado o estúpido veio atrás — e prosperará sem entraves.

Primeira lei da estupidez humana: existirão sempre mais pessoas estúpidas do que pensamos. É imediatamente observável, quer para falcões, quer para míopes. Haverá sempre o estúpido incontornável, aquele que manifesta a sua estupidez com alarde e sem sombra de dúvidas. Há-os como a fruta: de todas cores, feitios e sabores. Há o estúpido franco-atirador: aquele que aparenta ser inteligente, mas que no fundo apenas está à espera do momento certo para disparar a sua estupidez letal.
O escrutínio detalhado é, amiúde, um viveiro de estúpidos.
Se nos parecem poucos — e caso não frequentem o twitter —, deve-se muito ao facto de a velocidade do nosso século — a qual mescla estupidez e inteligência na mesma cor.

Segunda lei da estupidez humana: a proporção de pessoas estúpidas é invariável em relação à segmentação intelectual, social e geográfica. A segunda lei pode desconcertar os mais ingénuos. De facto, a estupidez não é característica de um determinado grupo. É comum vê-lo em círculos académicos, círculos onde se pavoneiam artistas postiços, em tabernas, em igrejas, redes sociais e por aí vai. Friso para desmontar virtuosos e racistas de um golpe: a estupidez não depende do grupo. Não é por mudarem de uma taberna para uma universidade que o número de estúpidos diminui.

Mas não avancemos mais, necessitamos da definição de estúpido para não cometermos, enfim, parvoíces. Segundo o autor, estúpido é alguém que prejudica os outros sem procurar qualquer ganho para si mesmo — contrastando com o bandido, o qual ganha algo ao prejudicar-nos. No fim de contas, o estúpido, o qual talvez sonhasse ganhar algo com a sua atitude, não é senão um bandido sem talento.

Terceira lei da Estupidez humana.
Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa perdas a outra pessoa ou grupo de pessoas enquanto ela própria não retira nenhum ganho de acção e pode até incorrer em perdas.

Um dos defeitos das pessoas inteligentes, por norma sensatas, é serem incapazes de perceber o comportamento insensato. Grosso modo, o estúpido rege-se por outras leis. O que revela que o inteligente nunca é tão inteligente quanto pensa: é incapaz de compreender a natureza essencial da estupidez.

O grande desafio da estupidez, como comentado belamente por Maxime Rovere em O Que Fazer dos Estúpidos, é sua obstinação e o seu movimento errático. Além disso, a estupidez tem o condão de possuir nas suas fileiras missionários incansáveis no capítulo da conversão. O não-estúpido está sempre a uma discussão de ser convertido, daí o sucesso dessa religião. A estupidez é imprevisível; enquanto biólogo desses animais, o inteligente não consegue criar um padrão entre palavra, acção e reacção. Nenhuma fórmula é capaz de engaiolar todos os estúpidos.

Chegámos à quarta lei da estupidez humana. Resumidamente, o não-estúpido (supondo a sua existência) subestima sempre o poder destrutivo do estúpido. Mais tarde ou mais cedo, a relação com o estúpido revelar-se-á um erro gigante. A quarta lei está intimamente ligada à quinta: "Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso que existe”. Dito de outro modo: a pessoa estúpida é mais perigosa que um bandido.

É o estúpido — figura-mor do nosso século — que destruirá o mundo e não o bandido, este não teria nada a ganhar com isso.

Em jeito de achega final, creio que há um detalhe que passou despercebido ao historiador Carlo M. Cipolla e ao filósofo Maxime Rovere. A ficção e os círculos concêntricos de estúpidos. Ao formarem comitivas de estúpidos, a estupidez consegue ficcionar o ganho. Em tempos idos, a ficção do ganho e o ganho seriam abissalmente diferentes. Porém vivemos num mundo conturbadamente pós-moderno, no qual hierarquias e fronteiras foram dinamitadas. A ficção, qual Genghis Khan em cima do cavalo da desinformação, conquista a pouco e pouco todos os terrenos da realidade. Ao fugir desses factos, os quais tanto o angustiam, o inteligente é convertido.

Bem feitas as contas, o estúpido continua a prejudicar-se e a não ganhar nada. Seja como for, não desprezemos o valor da reputação nos círculos de estúpidos.

 

As cinco leis da estupidez humana

 


Roberto Gamito

20.11.21

— Às vezes ouço passos. Vozes. Carros. Achas que estou a ficar maluco?
— Não, tens a casa mal isolada. Já viste a espessura das tuas paredes? Parecem primas obesas das folhas de papel.
(Respira de alívio.) Ao menos uma boa notícia, estou são do miolo.
— Também não nos precipitemos.
— Sempre fui assim, tímido, agachado como uma mulher aflita, no meio do bosque, a arranhar um refrão aos quatro ventos com o fito de me acalmar.
— Às vezes tenho a impressão de que o mundo encalhou.
— Digo uma coisa e tu nem reages? Então? Trabalha-se ou brinca-se?
— Só estou aqui para tratar da minha carreira. Se a tua deixa não me alavanca, faço de conta que não te ouço e parto para outra.
— Achas que isso contribui para a conversa?
— Um saquinho cheio de nozes, no meio do caminho, um rasto de pólvora e um esquilo atado a uma cadeira minúscula.
— Não faço nada de ti.
— Resumindo, recebera a notícia em má hora, já tinha a cabeça dentro do forno do fogão quando me batem à porta. Adiei o suicídio, um gajo nem em casa está descansado. Contaram-me que a minha mulher havia morrido atropelada por um burro e por uma ambulância. Segundo eles, fora primeiro atropelada por um burro, fenómeno normal quando nos passeamos nas ruas desta vila medieval sem cenouras nos bolsos. Como um mal nunca vem só, quem vinha a guiar a ambulância vinha também a fazer scroll no Instagram — sabes como é a malta nova, não consegue estar dois minutos sem olhar para o cu de uma influencer.
— Nisso estou com os jovens, há que dar valor ao rabo.
— Cala-te, não interrompas o meu monólogo. E atropelou a minha patroa.
— Resumindo, e esquecendo a lógica, a tua patroa foi assassinada pelo cu de uma influencer?
— Preferia que não me fizesses perguntas, ainda me estou a tentar recompor: fiquei proibido de conduzir ambulâncias.
— Mas eras tu que ias a conduzir?
— Não, não era, mas apetece-me contar a história assim.
— Não é um bocado macabro refazeres a história pondo-te no lugar do assassino negligente?
— Tudo por uma boa história.

Teatro ou outra qualquer coisa qualquer, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

19.11.21

Joel Ricardo Santos

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.
 
Joel Ricardo Santos. Humorista.
 
Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Cantor pimba na Suíça, o porquê de Joel Ricardo Santos, a tensão diluída na comédia actual, Joca e o expulsar do palavrão do texto, fazer piadas com terras portuguesas, diferenças entre comediantes de Lisboa e do Norte, “estar associado a”, o jogo perverso do networking, lotaria das percepções, tour Temos de Marcar um café, primeiro espectáculo durante a pandemia, bar de merda, o papel da Vertigem, stand-up em casamentos, selvagens no público e jogo de sensibilidades, ser bom e parecer bom, o humorista e o trabalho, conteúdos para a internet, novo projecto para o YouTube, grupo e choque de visões, actuar em festivais...
 
(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 


Roberto Gamito

15.11.21

— Não somos ninguém.
— Mas estamos mortos ou morreu alguém?
— Em princípio, estamos vivinhos da silva.
— Como é que vamos festejar isto?
—  A vida?! Com humildade e sobriedade. Infelizmente, não há orçamento para personagens como nós.

(Entretanto, os convivas da mesa ao lado foram assaltados pela questão: será que um Silva perde o apelido aquando do seu falecimento? Foi tudo quanto logrei apurar, retomemos o diálogo das nossas personagens.)

— Trabalhamos de graça, é isso? Na pior das hipóteses, seremos obrigados a vagabundear por toda a eternidade neste diálogo. Isso é lá vida para quem não tem vida?
— E se nos arrependêssemos?
— Mas andas metido em negociatas clandestinas ou em assuntos de fazer chorar a mãe mais marmórea?
— Nada disso, o meu currículo de paladino da virtude está imaculado, mais dois anos a dizer que luto por um mundo melhor e sou canonizado.
— Disseram-me que é necessário morrer primeiro. Em tempos também tive esse sonho, todavia estar morto não se me afigura um futuro desejável, principalmente a longo prazo.
— Concordo, é coisa para nos entediar volvidos uns anos.
— E se esquecêssemos a conversa e fizéssemos um esforço para sermos felizes.
— Devias ter ido para poeta.
— Como é que está o teu pénis?
— Está a inchar.
— Deixa lá ver isso.
— O que estás para aí a dizer?

(Na mesa ao lado, ocorria ao mesmo tempo a conversa entre dois guardas medievais.
— Não vais acreditar no que o gajo me disse.
— Ao menos dá-me contexto, não me contes isso a frio.
— Lá estás tu com as tuas manias. Assim como assim cada um interpreta as palavras à sua maneira. É tempo perdido, mas pronto, faço-te a vontade. Disse-lhe: Aqui está o cárcere onde irá passar o resto dos seus dias. O que falta em condições compensa em ratazanas.
— E ele?
— Saiu-se com esta: “que chiqueiro encantador. Parece que encontrei finalmente o sítio ideal para escrever as minhas memórias”.
— E tu?
— Eu questionei-lhe sobre as suas intenções últimas, não vá ele ter ganas de sair de lá e governar um país e ganhar o Nobel da Paz ou coisa que o valha. De desgraças está o mundo cheio.
— É o perigo de estar muito tempo fechado, começamos logo com ideias para mudar o mundo. Ar puro e murros nos queixos é o que eu aconselho a gente dessa laia.)

— Calma, o diagnóstico não demora nada.
— Cá está o monstro.
— Não lhe chamaria monstro, mais pequenote; em cada homem reside um cultor da hipérbole.
— E então? Há salvação para o menino?
— Sim, o inchaço deve-se, creio, ao tesão.
— E isso tem cura?
— Tem e não tem. É um padecimento intermitente. Em todo o caso, posso aconselhar-te formas de aliviares a dor.

(O diálogo prossegue com a pilinha de fora.)

— Agradeço o parecer técnico, mas cala-te um bocadinho, se não for pedir muito. Não suporto palavras, tenho alergia a diálogos.
— Há alturas em que não sei se seria melhor deixar de ser teu amigo e encher esse lombo rechonchudo de porrada.
— Não vejo necessidade de violência. Ok, vou fazer o esforço de continuar a cavaquear contigo. Se ganhar uma hérnia na língua a culpa é tua. Chamar-me amigo é um exagero, amigo, conhecemo-nos há coisa de minutos.
— Finalmente uma pinga de juízo. Posso contar uma piada para amenizar a atmosfera?
— Tem mesmo de ser?
— Estou com apetites.
— Então vá lá, não quero ser eu a cortar-te as asas.
— Conheces a história do velho da aldeia no bordel?
— Não, acho que não.
— Recusou o broche grátis porque a rameira não lhe disse boa noite.
— Diz-me uma coisa: é daquelas piadas para rir ou para fazer pensar?
— Pára com isso, tenta raciocinar uma vez que seja. Pensar não te faria mal.
— Isso é o que tu dizes, não me apanhas na curva, a História está apinhada de suicidas que o foram por pensarem demasiado.
Comigo é pensar o mínimo, e mesmo isso já é de mais.
— Puxa lá pela cabeça!
— Deve ser isso, saí da escola pela simples razão de não esforçar a cachola e agora via-me obrigado a reflectir porque um menino não gosta de mim como sou — burro como um imbecil.
— Excepto a tua pessoa, careço de esperanças na humanidade.
— Caraças, estás mesmo desesperado.
— Deixa estar, o melhor é não te obrigar a ser uma pessoa que não és.
— Desististe de mim? Pronto, o último candidato a salvador foi-se. E agora?
— Assustaste-me, por momentos pensei que ias ter uma ideia.
— Não me atrevo, alcancei uma bela reputação de papalvo e não tenciono desembaraçar-me dela.
— Queres comer uma chapada no focinho?
— Não há mais nada? Não sou exigente, com uma sopa fico bem.
— Ai, perdão, sou demasiado bom para chapadas. Só me desiludes.
— Desilusão? Fá-la durar, que é a última.
— O que queres dizer com isso.
— Sei lá, tu é que és o pensador.
— É engraçado que quanto mais falo contigo, mais parvo fico.
— Fico feliz por ti.
— Como se fosses uma escola ao contrário.
— Tive uma ideia!
— É um escândalo!
— Queres encontrar-te com Deus?
— Não estou para aí virado, até julgo que me faria mal. Quanto mais pessoas conheço, mais infeliz fico. Ou me torno eremita nos próximos tempos ou ainda morro de tristeza.
— Falta-te humildade. Até uma criatura fictícia nos pode ensinar, nos pode enriquecer, nos pode tornar mais conscientes do nosso lugar no mundo.

(No mesmo bar sucedia aquilo que se costuma designar engate. Eis um fragmento dessa interação.
— Fodemos?
— Perdão?!
— Se calhar não me expliquei bem, quero conhecê-la melhor.
— Assim já é outra conversa. Quer impressionar-me com galanteios de taberneiro, para que eu fique viciada nesse pequenote que trás aí escondido atrás da braguilha. É isso, não é?
— Afirmativo, este maroto só me dá trabalhos. Se não fosse pedir muito, pedia-lhe que tomasse conta dele durante quinze dias.
— Está a brincar? Quinze dias? E se me afeiçoo ao bicho? É como tratar de um animal selvagem: acolhemo-lo fragilizado, tratamos dia e noite das suas mazelas e no final custa muito soltá-lo em liberdade.
— Pois, o que é que o coração lhe diz?
— Diz que é o princípio de algo muito bonito.
— Ai a porca!

Regressemos ao diálogo pela porta da arte, recordando que um dos personagens continua com o pirilau de fora.)

— Dizes cada coisa, deves ter sido endrominado por uma daquelas palestras motivacionais. Vou dar à sola. Há o perigo de nos tornamos amigos se prolongarmos a conversa.
— Bem lembrado, não queremos isso.
— Não saio mais parvo desta conversa.
— E eu não saio mais esperto.

Teatro completo, roberto gamito

 


Roberto Gamito

11.11.21

Tertúlia de Mentirosos, Pedro Mata

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.
 
Pedro Mata. Humorista. Paladino da comida triangular.
 
Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
O número máximo de cães que uma pessoa pode passear na rua, passear lagartos, esquimó a passar férias no Algarve, a galinha pode ser o animal preferido da quinta?, a galinha é o animal mais inteligente?, os inimigos chegados no Instagram, piadas sobre redes sociais, incógnitas ocidentais e incógnitas orientais, frases sem autor, e se o Woody Allen aparecesse agora no humor nacional?, e se o Leonardo Da Vinci fizesse stand-up em Portugal?, viajar no tempo para matar ditadores é estapafúrdio, cruzarmo-nos com pessoas à noite, o homem fica mais querido com um cão por perto?, fiambre da perna quieta, ser perseguido por um gato, uma pessoa rica pode fazer tudo, stand-up e a pandemia, testar texto, escrever em palco, a confiança no stand-up, Rui Sinel de Cordes, dar com a cadeira nas costa de um velho, a velha e as conversas intermináveis, o dentista é um galhofeiro?, o dentista e os caguinchas, ideia para um documentário sobre as trabalhadoras do pecado, educadora de infância ou acompanhante de luxo?, o sonho de trabalhar com crianças e a realidade amarga, comida triangular.
 
Não procurem mais, esqueçam os vossos podcasts preferidos, este foi o episódio mais engraçado do ano.
(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 

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