Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

19.01.22

Como recompormo-nos após o saque da juventude — ela que nos ludibriou com o mundo luxuriante todo frutos e nos entregou à idade adulta depenados e com uma verticalidade postiça. Somos abandonados dentro de uma caixa cheia de côdeas. Os sonhos deram origem a migalhas. O inferno é um paraíso quando comparado com a cabeça de um Homem. Tudo o que há foi parido na cabeça de um homem desesperado. Nada e de supetão tudo — um tudo apinhado de unhas, mandíbulas e fome. Cercados de um sem-número de predadores não nos resta nada senão simular no grito uma avalanche, rezando para que os predadores, canibais e necrófagos tombem, uns atrás dos outros, como peças de dominó. Recompormo-nos de um itinerário de faquir: trilho de áscuas, vidros e promessas quebradas. Em habitando a víscera-mor, seja um deus ou uma mulher elevada aos píncaros, o nome sairá escoltado por uma procissão de berros e gemidos e roncos animalescos. Eis as crónicas de um homem sem asas.

Entrementes, envelhecemos. A idade adulta assemelha-se a uma doença à qual tivéssemos sobrevivido em virtude de termos pago um preço elevado, uma perna, um braço, uma porção substancial do cérebro. Não chegamos inteiros à idade adulta. Cada ser humano é uma variação de Proust: dentro de nós engendra-se, ora às escâncaras, ora às ocultas, a composição de Em Busca do Tempo Perdido. O resto da vida é tentar regressar a um passado que aos poucos vão perdendo os contornos. Eis-nos Ulisses rumo a uma mancha situada na província das assimptotas. Dotados de uma réstia de clarividência, damo-nos conta da impossibilidade de regresso. A cidade de onde partimos já não existe, já não existimos na íntegra, somos outros, somos, com efeito, o cadáver esquisito posto em marcha pelas mil e uma mãos surrealistas de que a vida é dotada.

E de um momento para o outro o concreto passa a abstracto. Que terapêutica empregar contra um quadro mental que não passa de um borrão — ele que pode ser tudo e nada simultaneamente —, de que modo nos podemos desembaraçar da doença se nos fundimos com as sequelas. É impossível apagar o legado das chagas sem nos aniquilarmos.

Exceptuando um punhado de desocupados mais versados em voos poéticos e os reis do absurdo e demais bailarinos cujo passatempo é ensaiar as primícias da loucura, todos os espíritos parecem subjugados por uma vocação que não lhes pertence.

Só aqueles que se emanciparam — e para quê, perguntar-me-ão —, uns através do questionamento perpétuo, alcançando o caroço do nada, outros através do bailado da loucura, ao passo que os demais, mais sensatos ou mais loucos que os loucos, resolveram abrir mão de tudo o que é palpável.

A obsessão insípida de ser útil tornou-nos primos dos objectos. Num primeiro encontro, fitamos o outro como quem compara iogurtes. A humanidade, a haver, existe como vestígio na tabela de componentes. Alcançámos estas ideias sentados, numa sala de espera, na qual esperamos um diagnóstico que pode, qual fadinha malvada, mudar o curso da vida num segundo. Sou um, ninguém e cem mil. Estou de acordo em parte, senhor Pirandello, todavia cem mil são abatidos logo que o cancro é propalado pelas trombetas da medicina. Doravante seremos simultaneamente um e ninguém.

Quando, no mundo actual, o trabalhador é tão-somente átomo neste universo decorativo do capital, onde as ficções se encavalitam gerando pirâmides bizarras, as quais podem tombar graças a um suspiro, com efeito, há muito deixou de ser uma mais-valia. Mais rente à verdade, o trabalhador é um empecilho com pernas, feito barata tonta, porém vulnerável como porcelana, o qual pode ser visto, caso sintam necessidade de serem turistas de uma tragédia actual, na coluna mais tristonha da folha de cálculo. Presentemente, somos uma despesa nómada, obrigada a esforçar-se a toque de chicote subtil, mas nunca a transcender-se, para isso é preciso ter posses, o Deus no trono, não esquecer, é o dinheiro. Pedem-nos o infinito, exigem-nos a omnipresença, estar em mais de um sítio ao mesmo tempo, e, inesperadamente, dado que fomos feitos à imagem de um antigo Deus falecido, fazemo-lo. Somos pequenos deuses precários, não há ninguém que preste culto ao trabalhador. Não há fiéis nem aplausos, há crucificações e trabalho no dia seguinte.

Encontramo-nos à mercê deste jogo sinistro, vítimas de um diálogo estéril, vigiado e guionado. O improviso é punido.
Somos uma família, apesar do chicote incansável, apesar dos salários cadavéricos, eis o que diz o aparato do branding no interior da empresa. A economia tornada negócio de família pela comédia mais negra. Se assim é, não me admiraria nada se isto tudo acabasse numa chacina.

Calados, os trabalhadores comunicam a sua dor e a verticalidade murcha com o olhar, é vital perseverar no sorriso, é-nos proibido quebrar a ilusão do cliente: o mundo é belo, recheado de oportunidades, eis o que assevera o punhado açambarcador dos lucros.

Dentro de cada um de nós, há uma guilhotina. Dissimulamos o carrasco numa avalanche de boatos, não matamos o senhor mas figuras virtuais, geramos o milho para pardais ávidos de tagarelice em vez de minar a arquitectura vampiresca do Capital, sobre a qual se apoia a Grande Ficção.

Não é fácil ser iconoclasta, destruir um ídolo não é para todos: dominar a marreta requer muito tempo, é preciso promovê-la ao estatuto de caneta e avançar sobre as estátuas de deuses erigidos pelo dinheiro insuflado pela ganância qual poeta prolixo que rescreve a História da primeira à última linha. Não há meias revoluções. Espártaco que o diga. Parar é morrer.

Mas como virar os seus olhares povoados de iguarias de faz de conta para os cantos mais obscuros onde a patranha não sobrevive? Embeiçados pela promessa de conforto, parece que somos incapazes de nos comovermos quando assistimos de camarote a essa fanfarra cinética que é a extinção da liberdade.

Às carambolas entre os meus jugos, os meus arrependimentos, os meus amores, os meus fracassos, há um pensamento que não se dá por vencido. Teria defendido o Homem se acaso acreditasse nele, cogitam alguns, defendê-lo-ia contra as cruzes agendadas, contra a invasão dos papagaios catequistas e contra a avalanche de mártires por geração espontânea. Nos olhos vazios dos bustos, refiro-me às pessoas, não há pinga de depois.

Entretanto, há alguém que desfigura o quadro dos cabisbaixos, e ousa olhar para cima, saciando-se com um céu a abarrotar de estrelas: Qualquer dia arrasto Roma — uma cidade inteira — pelos cabelos, ato o século à minha carroça e hei-de passear-me com o seu cadáver sem recear ninguém nem tão-pouco a morte. Talvez isso acorde o Homem.

O Espectáculo do Tédio

 


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.11.21

Antes de mais, é admirável, embora pouco, que os arautos da mediocridade sejam os promotores histéricos da arte, da política e de tudo o que mexe. Não podemos chamar estúpido a qualquer pessoa, há critérios pelos quais devemos separar o trigo do joio. Todavia, ao contrário da felicidade e da riqueza, a estupidez está ao alcance de qualquer um. Inspirada no capitalismo, a estupidez segue uma lógica expansionista. Eis a turba de Napoleões com os copos. Belo quadro! Pintem vocês que o meu pincel foi de férias.

Por preguiça, por falta de tempo, também por falta de talento ou de massa cinzenta, ou por um conforto intelectual que reside em atar em vez de desatar, sou obrigado a confessar-vos que careço de ideias capazes de combater a estupidez.
A conversa, o debate, o diálogo, a troca de ideias, a controvérsia são velhas práticas votadas ao abandono, logo não se perde muito se persistirmos nos terrenos na ambiguidade.

A nossa relação com o tempo, sobretudo o tempo morto, tumultuou-se. As pausas são percepcionadas como estorvos e fazemos de tudo para as obliterar. O pensamento desabrocha nas pausas, no tédio. Esses interlúdios entre dois trabalhos chatos onde fantasiamos sítios, monstros e ideias. A lentidão e a espera são uma espécie de adubo destinado a fertilizar a mente. Esse lado verdadeiramente humano aproxima-nos das plantas — precisamos de tempo e luz para crescermos. Sem pausas, a voz que fala é uma voz desafinada. Doravante ficará impossível chegar ao estágio de animal cantante.

Joga-se algo de muito essencial na tentativa de o Homem contemporâneo expurgar o imprevisível. No regime rápido, sem pausas, dá a ideia — melhor dizendo, ficção — de que somos reis e senhores da nossa vida. O mundo afunila-se, perde espessura, em suma, torna-se unidimensional. Só num mundo despojado das suas várias dimensões é possível retirar o factor de imprevisibilidade da equação. Esse mundo, como é fácil de entender, não existe, é um paraíso artificial. Daí que o resultado fique aquém do esperado. Presentemente, o imprevisível, quando surge, torna-se ainda mais dramático, dado que foi dado como animal extinto. A tentação é olhar para o lado, fingir que não existe, puxar da carabina e liquidá-lo.
A propensão para a literalidade, tão própria do Homem do século XXI, é um retrocesso monumental na nossa relação com o mundo. Regressámos ao instinto. A renúncia ao instinto, termo cunhado por Freud, o qual está no princípio de toda a concepção simbólica, já teve o seu momento. Num mundo sem pausas, sem esperas só o instinto pode triunfar. Eis a nova dinastia dos bárbaros.

 

Animal sem pausas

 


Roberto Gamito

07.07.21

António Careca levou a cabo uma proeza alto lá com ela. Segundo reza as gordas do jornal, escorraçou com um pontapé bem metido nas nalgas o Caído-Mor, o Senhor Satã, o qual replicou degrau a degrau a sua célebre queda. Escapou por um triz ao elogio do vulgo, o visado acanhava — sempre acanhou — os bajuladores. Os demónios menores caíram-lhe em cima como lobos esfomeados. Em vez de o matar, desfecho que o aliviaria, obrigaram-no, então, a vestir-se com um oleado verde e amarelo, isolando-o cromaticamente do resto do mundo. As redes sociais, blindadas que estão ao pensamento, não souberam como reagir a tal acontecimento. Assim enfarpelado, o homem cumpriu o seu destino de fazer-nos rir.

É uma criatura submissa, entre o homem e o cão, pacata e inofensiva, cuja arte lhe chega, no máximo, para coçar os tomates em dias de palestra. Ao que parece, é insuficiente se o fito for fundar uma vanguarda.

A modéstia impede-me de revelar os maiores cumes entre os estúpidos. Todavia uma coisa vos digo, a competição nunca esteve tão renhida. Não é fácil deixar um legado neste campo.

O árbitro de comportamentos interrompia momentos tensos como se a vida dos outros fosse um filme dirigido por ele. Movido por um fervor religioso, o figurão eclesiástico das redes comunicava às pessoas como deviam viver a sua vida. Ninguém diz nada, esse juiz de meia-tigela é o orgulho do Homem, a menina dos olhos do século XXI. Todos fingem concordar, perpetuando assim a farsa. Mais burros não ficamos, pensavam eles.

O seu nome vem à baila de vez em quando, fazendo o soalho estalar com o sapateado da sua grandeza, é um nome demasiado grande para ser menosprezado pelo círculo de medíocres calejados. Corre o boato que a conversa só é conversa quando o seu nome é chamado ao barulho.

Homens sazonalmente verticais tentam passar por escritores. Estão a braços com uma língua que não é a deles, espremem-na até à última gota, mal dá para um copo, quanto mais para uma obra.

À míngua de espectáculos e demandas dignas de figurar em currículos de heróis, ocupam os dias a apadrinhar guilhotinas. As redes sociais são o lar, como alguém há-de postular um dia, de algozes enfezados. Incapazes de ver sangue, arranjaram um ardil destinado a provocar a morte à distância.

Oh, K., receio bem que o senhor seja demasiado hilariante para este século. Amanhã falamos, primeiro é necessário seduzir o coração do castelo.

À excepção do linchamento digital, somos burocratas até ao tutano. Burocratizamos o coração, o sexo e o mais. A picha e a cona traumatizados, acoitados em cima da pilha de papéis. E que alívio é abrirmos a porta à morte e saltar pela janela do quinto andar.
Os suicidas dariam a vida para poder ver as feições da morte ao perceber a fífia do Homem.
Os génios do século XXI ocupam um lugar muito importante na História, e é extremamente árdua a tarefa de os descrever — são papagaios uns dos outros.

Mais uma corrente literária, mais uma ninhada de papagaios.
À medida que envelhecem, os Homens vêem com mais nitidez o discurso do seu reflexo. Olha como estás acabado, meu animal esfrangalhado, comenta o reflexo alojado no espelho.

Recuso-me a ser ludibriado por uma fatia de nada, por mais apetitosa que se me afigure. Logo que os víveres começarem a ser desmentidos pelos sábios, os suicídios vão subir em flecha.

Esquece a verticalidade, se quiseres prosperar no teu ofício, e é por estas dicas que os aspirantes a homenzinhos de valor vendem a alma ao diabo, agacha-te e reza a tudo o que não te for familiar. Pudesse eu ao menos usar um faca nos dentes — sucessora da rosa no tango —, a fim de fazer boa figura na dança das cadeiras. Regicídio, deicídio, não importa. Fui contratado pelo destino para trabalhar, que é como quem diz, colher cabeças dos arbustos penumbrosos.

Não há ninguém capaz de puxar fogo ao século? Estes anos apinhados de escritores de prosa desdentada é incapaz de deixar marca. Tanta carne à espera de ser mordida.

Se apreciares o meu poema, sou menina de te abrir as pernas. Manjar silábico, digno de um não-sei-das-quantas. A cavalo dado não se lhe olha o dente e ficamos assim, cada um com o seu quinhão. A tão desejada aprovação, emprestar a rata por tuta-e-meia, dar minutos de voo ao vergalho, o costume, réchauffés.

Se pudesse fazer aquilo que quero, e o meu caminho fosse exequível, não restariam deuses nem demónios para contar a História. No entanto, é útil editar o pensamento antes de o verbalizar, enfatizá-lo com prosa hipócrita, elevar o paralítico das artes aos píncaros, tudo comportamentos com provas dadas, os quais fazem com que nós sejamos populares quando rodeados de uma matilha a salivar de aprovação. Para brilhar à mesa não é preciso suar o miolo, basta dizer aquilo que os demais ambicionam ouvir.

Quando cumpridas as várias salvas de elogios, aí sim, podem começar a pavonear-se. A vossa grandeza fictícia entrará sem atrito nessa atmosfera carregada de empáfia. Hipnotizados, os anões julgar-se-ão gigantes. Inimigos, nem vos passa pela cabeça a verdadeira estatura do Homem.

E eis que prossegue o artista nas andas da publicidade, papando elogios qual parasita, saracoteando-se com o pedigree dos iluminados. Atrás dele, uma comitiva de carraças, em cima, uma ou outra pulga.

Mas está tudo mal para ti? Nada disso, sou como uma criança que brinca na praia de pilinha ao léu. Tudo me alegra, tudo capta a minha atenção.

Ninhada de papagaios, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.03.21

Esperam lucrar com os meus suspiros
o canto retrocede na ave empalhada
menos fricção e esforço, animal agrilhoado
selvajaria dúctil disposta em prateleiras
reflexo distorcido, casa de espelhos,
espectáculo de feira popular, livre-arbítrio
embalsamado, para carteiras abastadas.
Pretendem atordoar-nos com uma saraivada
de promessas, tornar a gaiola tão omnipresente quanto possível.

O voo de laboratório, apetite sussurrado por terceiros,
musas amordaçadas, cadáveres de outros tempos ordenhados,
cadáveres mais ou menos esquisitos, mais ou menos prolixos
enquanto, livremente, se dá o saque do Eu.

Apesar destes versos de apreensão
nada musicais a ilustrar uma época sem arte
as conclusões sobre as sobras foram brandas.
Subestimámos a pilhagem, despimo-nos e rendemo-nos
aos juízos ubíquos. Despedimo-nos do pensamento
para nunca mais regressar, quais Ulisses desmemoriados.
Em todo o caso, não há Ninguém à nossa espera
aqui ou em parte alguma.

Personagem esfarrapado e aos trambolhões
oriundo de uma História com mil e uma versões.

Nascemos com o pescoço picotado
as guilhotinas tombam na região certa
ó esbraguilhado alvo inerme
ao passo que fotografias celebram os gritos adiados
elevando a miséria ao pedestal da arte

um emaranhado de equívocos aziagos, uma constelação de nós
e sangue cifram o sofrimento. Por fora, seres tão felizes
quanto fictícios, manejados com mestria pelo titereiro.

Babam-se no literal com perucas de gigantes
são incapazes de sair da hipnose engrandecedora
eis os Homens do século XXI.

Surdos, calcorreamos um trilho juncado de sonhos e promessas quebradas, qual faquir deste século a cair aos bocados, tudo estala como a quitina dos insectos outrora alados. Graças às miragens, já ninguém morre sozinho agarrado à sua dor.


Que fiz eu realmente para usar tantas máscaras?
Anestesiámos a nosso coração com narrativas enobrecedoras,
o último grito da fantasia — sem perceber o fim em vista.

Estou contente ou envergonhado por sorrir sem vontade?

Segundo Sartre, a voz nasce do risco: quer para nos perdermos, quer para ganharmos o direito de falar na primeira pessoa.

 

A Voz e o Risco, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.02.21

A internet é um sugadouro em permanente actividade. Um vampiro insaciável, se preferirem. Há muitos Homens prontos a estoirar o seu tesouro com ela — essa puta entre putas. Indignação, trends, coscuvilhices e boatos são mel para os ouvidos do Homem do século XXI. Com efeito, perder um episódio dessa magna novela é perder o comboio, é não ter tema de conversa na hora seguinte. É sentirmo-nos postos de parte do curso natural — tumultuário — dos acontecimentos das redes sociais.

Heróis e sacripantas, uns e outros déspotas em formação, confessam nas redes onde o seu tempo é capturado, com ou sem açoites, uma biografia entregue ao tédio. As estroinices do bicho Homem ficam deslindadas. Toda a gente é suspeita. Sevandijas de todos os calibres pululam onde ficcionamos uma vida excepcional. Fazem-se retratos robot para adiantar serviço, adiantamo-nos ao crime. Em suma, integramos uma procissão de doidivanas inveterados. Não há hierarquia que nos separe em altura ou em qualidade; estamos todos à beira da loucura.

Submissos à gravidade que nos aniquila os sonhos um por um, cuspimos profusamente a nossa história para cima dos demais, sem nunca esquecer os detalhes e os ais. O outro, para a maioria, pouco conta. O outro é um bibelot na equação chamada diálogo. Ébrio de amores por mencionar o óbvio ululante, pouco sóbrio para a vida e para a síntese, que mais se pode esperar de uma criatura de miolo esfarrapado? Eco amiúde vertical, eis o que somos.

Eis o que define este tempo: falar, continuar a falar, sem ter nada para dizer. A frase anterior é exemplo disso. Uma atitude de tal calibre é difícil de entender seja em que época for. E todavia não há ninguém que grite: “Alto e pára o baile, que assim não pode ser!”

Volvidas umas horas após nos termos exaurido por inteiro numa discussão nas redes sociais, damo-nos conta que, além de labregos, fomos estúpidos a ponto de não equacionar o desperdício de tempo. De resto, não deixo de pelo menos sorrir e menear a cabeça perante tal espectáculo de imbecilidade. Com uma agilidade e fantasia assombrosas, a língua de quem se derrama nas redes sociais, para além da expressividade e do conteúdo psicológico, é o retrato deste século de sobras.

 

Internet, Roberto Gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Sigam-me

Partilhem o blog