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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.02.22

A vida, a obra inacabada de Deus.
Raramente descortinamos o trajecto das suas ideias, a forma como mais tarde as há-de articular num edifício cantante. Apesar de independentes, semelhantemente a versos crescidos, são blocos de uma arquitectura monumental. Um novo século não faz nada senão inaugurar novas travessias para o inferno.

Escrever é tão inútil como semear gotas de água na neve. Na cidade dos suicidas, os nomes das ruas eram escritos a sangue. Percorremo-las cabisbaixos, sem olhar para cima, não vá o nosso olhar cruzar-se com mais um pássaro implume.

Pouco ou nada se escreveu sobre a hierarquia dos bobos. Sabemos que, tal como os homens, há pelo menos três categorias: grandes, pequenos e médios. Em todo o caso, é despiciendo pensar em tal, como se houvesse hierarquias no grito, castas entre as migalhas.

Os monstros vão ao encontro dos grandes caçadores, e não o contrário. Na embriaguez da escrita, o teu nome espraiou-se qual nódoa até preencher o poema. Esta prosa é o efeito de uma miríade de naufrágios, muitas braçadas dadas em vão rumo a um lugar nenhum. Na margem deste texto, o homem desbrava territórios virgens nos quais até agora só pululava o pesadelo.

O desejo de novidade apressa o pó, o qual cai em cima dos recém-chegados mal façam as apresentações. Fruto de diversas intermitências, semáforo nómada que oscila entre o aceso e o apagado. A última frase é a legenda de um quadro que nunca chegou a vir à tona da tela branca.

No quadro ao lado, o homem nada tranquilamente no mar de cadáveres que foi sendo, as várias versões testadas durante a vida, as abortadas, as imaginadas, todas as possibilidades postas em cadáver repousam sem expressão quais peixes envenenados. E todavia ele nada.

O século XXI é pródigo a gerar deuses de passagem. Nem para os deuses temos tempo. O verdadeiro método de prestigiar um deus é: imaginá-lo num combate com o poeta maldito. Abrir uma casa de apostas, esperar pelo desenlace e escrever a crónica dessa pugna.

Já ninguém sabe escrever um poema que nos afaste da ideia de suicídio. Eis o capital na arte de larachear: surpreender o abismo com o outro tipo de queda. Substituir o grito pelo riso — eis o papel do humor. Seja como for, a tragédia mantém-se intacta. Toda a actividade artística mais não é do que a tentativa gorada de fugir à morte. Ante tais descrições, apetece-nos incendiar o museu. Não há nada nele que nos ensine a rota da salvação. E há quem chame isto templo.

Recuemos para terrenos mais respiráveis. Mamas e cus, e eu armado em Aldous Huxley, vendo nelas e neles substâncias estupefacientes capazes de ampliar a visão e abrir, de chofre, as portas da percepção.

Aquele livro, aquele filme, aquele poeta, aquela citação, aquela jarra, aquele quadro, aquela pessoa, aquele animal — precisas de ver tudo isto, dizemos nós ao primeiro coitado que cair nas malhas da nossa conversa, garanto-te que a vida vai tomar um rumo se seguires à risca esta receita. A hipertrofia das recomendações asfixia os textos, os homens, as obras e o mais. Urge consumir o outro sem auxílio de legendas. Seja como for, o outro permanecer-nos-á inacessível.

O mais profundo sonho do artista: exorcizar o mal do passado, de tal modo que as memórias ressurjam com novo fôlego e nos ensinem, de uma vez por todas, a sair da pedra graças a um novo estremecimento. O drama barroco de esculpir cidades em migalhas.

Somos um animal que se confunde com a paisagem, a simpatia ou hipocrisia como meio de camuflagem, não obstante, barragem onde se acumula a cólera, essa deusa fluída.

O ser humano actual espera ansiosamente pelo segundo que, com ardil, a palavra se irá soltar da sua boca de molde a elevá-lo aos píncaros. O homem contemporâneo é na verdade medieval: só consegue pensar em termos de magia.

O tédio é a fronteira que separa o presente do futuro, isto se trocarmos a cabeça do artista por um prisma e registarmos a decomposição da luz branca. Acordava sempre com a mesma frase na cabeça: sou contemporâneo de um sem-número de tragédias. Dá a ideia que o século XXI é a zona de passagem das tropas do XX para o XXII.

Após a morte de Deus, ficámos muito pobres de experiências redentoras. Armamo-nos em ventríloquos deste e daquele, tentamos endireitar em conversa a vida deste e daquele, porém não é a mesma coisa. Deus foi o maior ventríloquo de todos os tempos, ficaram os bonecos.

Recuar ao passado, mesmo se for com o objectivo de resgatar quadros esquecidos, não poderá ser entendido como profanação?
Se assim for, a memória é a musa cujo papel é recordar-nos do nosso fado de larápio. Entretanto, confraternizo com os deuses que hão-de vir no mundo entre a intenção e a concretização.

O problema foi o progressivo endeusamento do norte, futuro, se detestarem rosas. Se nos dissessem que o futuro é, a par de Deus, a maior ficção inventada pelo Homem, não teríamos forma de desmentir e teríamos de arranjar forma de prosperar no aqui e no agora, neste reino de cacos.

Tornei-me áugure e arúspice, do voo e das tripas tirei as minhas lições. Apesar da febre da higienização, o Homem não consegue disfarçar o nojo que sente diante do espelho, o que temos é um século inteiro a cheirar a mofo.

Não me contento com o som e com a fúria, pretendo — reconheço a ousadia — inspirar-me no jazz onde o ruído se emancipa. Emancipar o sangue, cortar-lhe o vínculo que o ligava à obra de Homero. Afastar o sangue do cerco e da jornada. Tentar uma nova via para o canto. Mas que sei eu disto tudo? Não passo de um papagaio numa câmara anecoica a falar-vos sobre os Ecos do Homem.

Deuses de Passagem, Roberto Gamito


Roberto Gamito

18.02.22

Partilho da crença de que a maneira de falar nos fornece um belo retrato do miolo. Não obstante a qualidade da tradução, há que evidenciá-lo, passar as carambolas a limpo, verter o metal fundente da cachola para a língua é um processo no mínimo imperfeito. Seja como for, fornece-nos uma imagem segura do que se passa cá dentro. Do outro lado da barricada, perdoem-me a minúcia, mas não é descabido analisar este pormenor, a grandiloquência com tiques teatrais pode igualmente facultar-nos a mesma imagem. A preguiça intelectual, a qual se pavoneia papagueando as bacoradas mais em voga, dispensando o pensamento (jogada inesperadamente inteligente, dado que o cérebro é um electrodoméstico que consome demasiada energia) não é mais nem menos danosa que o barroquismo armado ao pingarelho associado às migalhas. Cumpre-se sempre uma de duas profecias: 1) o Homem aproxima-se da figura do poeta, encontra as palavras certas, embora a verdade lhe faça caralhadas do alto da torre de marfim, profecia de Agostinho da Silva, melhor dizendo, vai às cordas do humanamente possível de maneira a dizer o máximo com o mínimo de palavras; 2) o pensamento transforma-se em coisa de museu, profecia de Byung-Chul Han, e todo o discurso se torna parente de um refrão de música brasileira, daqueles apinhados de palavras desconexas e onomatopeias.

No entanto, como nada pode ser esclarecido com dois ou três palpites de taberneiro, necessitamos de afinar o modelo do mundo de tempos a tempos. Há factores que contribuem para o barroquismo ou para o vácuo, sendo o mais proeminente o cansaço. Quantas e quantas vezes já me aconteceu estar de tal maneira esporrado de miolo — no Baixo Alentejo esporrado significa também cansado até dizer chega, não conheço outro termo que lhe chegue aos calcanhares — e pôr os pés pelas mãos, armar-me em contorcionista quando de mim esperavam um tenor calejado. O cansaço só me faz passar vergonhas. Quanto a vocês não sei, mas a mim o cansaço retira-me habilitações literárias. Houve dias em que, graças ao cansaço, não tinha mais que a quarta classe. É preferível largar os livros e os estudos e dormir mais uma hora. De que me vale palmilhar a Biblioteca de Alexandria se depois estou demasiado afadigado para falar e pensar sobre as minhas descobertas? Proponho mais descanso e menos livros.

Como já foi dito por pessoas interessantes e humoristas, se um político ou aspirante a tal usa o refrão nauseante “portugueses e portuguesas”, sei, de fonte segura, que é um embusteiro amiúde fanfarrão e um caguinchas ignorante da gramática. Se escreve “amig@s”, além de estúpido, é também merecedor de um carnaval de chapadas no focinho. Apreciações da minha lavra, evidentemente, há quem se erice se não semearmos um ‘x’ ou um ‘@‘ em palavras que já nos deram tantas alegrias. No fundo, somos iguais: gatos assanhados a disfarçar o cio, uns e outros a ensaiar danças contemporâneas às tantas da noite.

O discurso dos hóspedes deste século leva-me a acalentar, quando muito, um resíduo de esperança. Tal como todas as grandes parvoíces, é um processo imparável. Uma batalha perdida.
O que tenho vindo a observar, à distância, postura não muito sapiente da minha parte, dado que sou míope, porém não me quero envolver com a malta deste século, ou seja, observo estes anos do último miradouro do século XX, são várias tendências deprimentes: o pedantismo postiço, a inclinação para o cadáver esquisito por parte de surrealistas desprovidos de imaginação, a afectação espontânea, os trejeitos de genialidade, esta última tão bem descrita por Javier Marías.

De cada vez que ouço ou leio um influencer armado em escritor, que os há aos magotes, e parece não haver crítico capaz de desparasitar as prateleiras dessa praga, a falar sobre poesia, tenho vontade de me alistar no Daesh. A fanfarronice misturada com o não faço puto de ideia do que é a poesia levam-me aos arames. É com cada fanfarronada que os génios até dançam samba no caixão. Resultado: uma subjectividade típica de ignorante barbudo. Detenhamo-nos neste aparte: até a barba foi desprestigiada por estes dias. Quem diria que um dia teríamos esta espécie improvável: o barbudo analfabeto, que é como quem diz, o hipster. Resumidamente, o hipster tenta compensar a sua falta de cultura com bigodes e patilhas disparatadas.

Observemos, qual biólogo, a ninhada deste século: o activista ecléctico, o esquerdista teatral, os filhos do Trump, isto é, os poetas da baboseira, o humorista assustadiço, o artista marreco, o pensador sem cabeça, o espalha-brasas polivalente (antes de importarmos a palavra bully era este o termo utilizado), o apóstolo enfurecido da empatia, o paladino do óbvio, o cientista do palpável, o negacionista, o pseudo-intelectual, o pseudo-gigante, estúpidos de todos os sabores e o liliputiano em bicos de pés. Peguemos com jeitinho no pseudo-intelectual e atiremos o resto pelo penhasco. São os que açambarcam com afectação típica de actriz de novela qualquer termo inglês como se fosse a pedra filosofal, como se antes de eles descobrirem o vocábulo na língua do novo deus, o denominado por ele jamais tivesse existido onde quer que fosse. Teríamos de citar Eça de Queirós de manhã à noite a fim de perceber os novos voos do provincianismo que sempre nos caracterizou. O apego doentio pelo francês passou para o inglês. No português é que ninguém lhe pega. Há a crença de que, se enxertarmos a nossa frase anémica com vocábulos ingleses, a nossa deixa será entendida como brilhante. De uma assentada, mascara o óbvio e a ausência de ideias. Uma das consequências, raramente abordadas pelos vigilantes da língua, é que há muita gente que sabe pronunciar correctamente os termos ingleses e, todavia, quando se encontra com o termo português, esse embate provoca-lhe estranhamento.

Não será descabido abrandarmos a marcha e comermos uma bucha no apeadeiro da marotice. Palpita-me que as gerações mais novas já não fornicam em português. Por milhares de vezes fui espectador do seguinte espectáculo posto em discurso: o português carece de vocábulos capazes na esfera da fodanga. A segunda coisa que pensei, sendo que a primeira foi o suicídio: estamos irremediavelmente perdidos. Que país é este que vota o caralho e a cona ao ostracismo? Não quero ser obrigado a foder em estrangeiro.
Não quero viver num país que viu nascer Bocage, O Pauzinho do Matrimónio e agora sente pudor em vir-se na língua lusa. Sinto que falta uma espécie de activista da cona e do caralho para combater eficazmente o preconceito.

Eis-nos chegados ao tema da crónica. O novo pedante. Em tempos idos, o pedante era um gajo chato, porém sabia muito de muita coisa, hoje é apenas chato e vazio. Hoje não se lê, decora-se nomes de escritores; hoje não se tenta adentrar no filme, surripiamos uma frame, tipo homenagem ao tumblr, porém sem a parte boa que é a pornografia; não se interpreta um poema, sublinha-se um verso, utiliza-se a subjectividade como muleta de molde a não ter de responder a nada, carece-se de opinião sobre tudo ou então citamos o rabugento estrangeiro mais à mão, não vá alguém chatear-se e perdermos seguidores — a maldição do século.

Vamos lá ver uma coisa, como diz o bardo eleito pelo povo, o conhecimento, o pensamento — e a arte por arrasto — dão trabalho. No entanto, não abdicamos da aura — queremos continuar a ser apodados de instruídos, pensadores, poetas, artistas e o mais que se lembrarem sem suar nem queimar pestanas. Em todo o caso, ninguém liga, estamos todos embrenhados neste zapping de doidivanas, a saltar de coisa em coisa qual sapo em ácidos, quando vemos um filme não vemos o filme, estamos nas redes e o mais, abrimos um livro de poesia não com a vontade de nos perdermos mas com a preocupação de sacar a melhor fotografia para o Instagram, vemos citações de pendor existencialista a servir de legenda a rabudas — não critico, bela aliança —, mas se tentássemos fazer sumo com o homem contemporâneo seria um trabalho votado ao fracasso. Seriam necessários dias para obter meia dúzia de pingas. Eu, que nunca saí deste mundo para ir a Marte, digo-vos: falta rigor aos filhos do século XXI, isso vi eu num filme iraniano ou num poema ou numa citação que acompanhava um culto mamaçal.

Comunidade Cultura e Arte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.02.22

O Homem do século XXI abarca o mundo pela rama, é um Leonardo da Vinci de fugida e em tudo tem êxito. Como Terêncio, nada do que é humano lhe é estranho. Em suma, é contemporâneo de um sem-número de delírios.

Nas redes sociais ou na televisão, é vê-lo a injectar vigor em raciocínios mancos, a ornamentar com artifícios ideias rombas com o à-vontade de um sábio. O seu palavreado é magnífico, grandes construções positivas — mas sem sal.
Em chegando perto dos arquivos do sangue, não descansa enquanto não os diluir em contradições. Não compreende a cólera, não compreende o Homem.

A tragédia é sistematizada, é-lhe retirada a cabeça e as patas de molde a tornar-se mais mastigável, ou mesmo passada em revista, emendada, as dores arredondadas por defeito ou por excesso consoante as vontades. O objectivo é tornar a mágoa num post de circulação corrente. Ao dar-se conta do sucesso, é acometido por uma epifania. Da manufactura da ansiedade até à indústria do grito é um tirinho. Inesperadamente, sobe na vida graças à escada de lágrimas de crocodilo.

O público ciclópico (dinastia do literal) engrandece-o, resgata-o da invisibilidade, a pior maldição deste século e eleva-o aos píncaros da genialidade. Este cadáver esquisito nascido da necessidade da turba passa a oscilar entre o positivismo mastodôntico e o niilismo de pacotilha. Mais: alimenta-se disso.

O influencer — figura central destes últimos anos — é um pensador desnorteado, necrófago de citações franzinas, infinitamente coxo e maravilhosamente cego. Explora a sua cabeça com medo de encontrar alguma réstia de lâmina. Sorri para tudo como se fosse apresentadora de um programa da manhã. Coligiu os ecos e chamou-lhe obra, apropriou-se daquilo que todos fazem e envernizou-o, passou o antigo para outro formato. Retira prazer em liquidar o duplo sentido ao transplantá-lo para imagens. Não muda o urinol de sítio, se está aqui é por alguma razão, comenta. Maneja Deus e o Diabo como um rico os talheres: com gestos calculados sem pingo de humanidade.

A cobardia é o seu modus operandi, nunca ataca um problema de frente; inspirado em danças populares, anda às voltas e voltas e é incapaz de entrar no seu âmago.

Profundamente apoético, crê ver nas marcas um verso, num anúncio um poema. Nada o estremece verdadeiramente. Os seus suspiros são reflectidos, bem enquadrados e fotografáveis. Os seus ódios são elogios mascarados; as suas exasperações, birras de crianças bigodudas. Não tem preferências nem preconceitos, vai ao sabor da corrente, qual salmão após a desova. É um santo fabricado pelos holofotes e pelos números. Diz-se um espírito livre e, sem se deixar abater pela contradição, aproveita todos os segundos para pregar a xaropada mais em voga. Agarra-se a todas as verdades estrangeiras, preferencialmente aquelas frases curtas repletas de palavras da moda. É o cu manso de todos os ventríloquos. Os seus passos, assim como o ‘pensamento’ e o sorriso, são oportunidades de negócio.
O seu maior sonho é monetizar cada canto da sua Odisseia em frangalhos.

Homem do século XXI, roberto gamito

 


Roberto Gamito

30.01.22

Já não me sobra espaço na cabeça para o amor, nem vontade para direccionar os caprichos de pendor humanista rumo a terrenos mais palpáveis. Cabeça, epicentro de uma multitude de tragédias. Atulhei-a de destroços e terramotos, a memória vandalizou-ma, os episódios a braços com a transfiguração, catedrais-abandonadas-pássaros-silêncio, animais desfigurados pela velocidade e pela ruminação.
O teatro das intensidades — animal desdobrado do amor à cólera — é tão-somente um pretexto para acelerar a nossa perdição.

Ao frequentarmos o delírio dos outros, digo, as suas deixas mais intensas, recebemos a dádiva de assistirmos ao teatro ebuliente do mundo ou, em acreditando na mão poderosa do macho, o teatrinho da testosterona. Por vezes, no seio desse diálogo onde as vozes se anulam sem pernoitarem na paixão, esquecemos os nossos limites, as nossas fraquezas tartamudeadas em confessionários, os nossos calcanhares de Aquiles; sonhamos com dias mais luminosos sem conseguirmos pronunciar o nome do Salvador.

De seguida, o raro transforma-se em guião. O fantoche feito santo sobe a escada da perfeição, começa a falar das grandes palavras compactas, a saber: amor, vida, pátria, morte, vira-se para os humildes, ocos de frases certas, intriga as multidões ababalhadas — e imita os grandes facínoras. No papel, Salvador, na prática, carrasco-mor. Os delírios desaparecerão um dia — mais por cansaço do que por obra feita. Sim, concordo com as palavras de Teresa de Ávila, parece-me que os demónios jogam à bola com a minha alma.
O Bem não é senão um eufemismo para Mal.

A vida é o lugar das nossas quedas, não há voos que nos enobreçam: tudo o que larapio ao destino, gesto que me leva às cordas, é lançado para o monte das coisas intocadas. Apesar do esforço hercúleo, tudo permanece na mesma. Saboreio a mortalidade qual vampiro livresco, alimento-me do meu próprio sangue, organizo-o por tremores e terrores, sou o deus arcaico renascido das cinzas.

Não descarto a hipótese de o Homem ter gosto pela cruz, que tentemos pô-la em discurso e fazer disso carreira. Oxalá as nossas lágrimas nos catapultem até ao pódio do privilégio. Porque, bem vistas as coisas, o Salvador, nome pomposo para uma luz impontual, é tão enfadonho como qualquer bêbedo. Se não formos nós a sair da cruz pelo próprio pé, se o grito não quebrar a maldição e as grilhetas, se formos incapazes de aliviar o fardo com um tonitruante foda-se, estamos bem lixados. Uns e outros — loucos amadores e loucos profissionais agarrados a uma ideia a cheirar a novo, sob a qual se acoita o inferno do mesmo — transmudaram as lágrimas em mel. Sábios do oportunismo, aproveitam o momento de desatenção dos algozes — maldita comoção — para os guilhotinar. Canonizemos os abutres e as hienas, elevemos os cadáveres putrefactos aos píncaros, façamos do mausoléu palco deste festim pantagruélico.

Atentos às flutuações da mente humana, o homem sem maiúscula oscila entre o poeta e o jornalista do mundo interior. Façam para aí os vossos milagres: multipliquem para aí os ateus. Deturpando as palavras de Cioran, se o Homem fosse um ciclope, a palavra servir-lhe-ia de olho. Errata: onde está palavra deve ler-se cegueira.

Não há espaço para o amor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.01.22

Quem nasceu primeiro: o voto ou o influencer? Se vadiarmos pelas redes sociais por estes dias dá a ideia que o influencer inventou a democracia num guardanapo, cinco minutos antes de mais uma sessão fotográfica. Nada o fazia prever: promotores de cremes, divulgadores de banalidades requentadas, papagaios versados em língua inglesa, empresários de filhos bochechudos, capazes de ir até aos confins do útero para monetizar o crescimento do pintelhito com vida, brindam o circo dos papalvos, não com imagens de locais paradisíacos, as tais migalhas para o bico do pobretanas, mas com a democracia — essa coisa pouco fotogénica, pelo menos segundo os padrões do World Press Photo. Ora, eu, enquanto privilegiado não praticante, não tenho voto na matéria, nem voto na luz. Seja como for, não é disparatado comunicar-vos que o influencer pegou no ceptro da condescendência e transformou-se numa espécie de missionário em terras de selvagens. Não sabem o que é o amor? Eu catequizo. Não sabem onde fica a Tailândia? Eu mostro. Ignoram que farpela escolher para um date? Eu auxilio. Não sabem distinguir o bem do mal? Eu doutrino. Não sabem ser verdadeiros e genuínos? Eu ensino-vos, deixem-me só acertar no tom de voz.

Se, na hierarquia dos estúpidos, o influencer ocupa o primeiro lugar, o tal cume reservado os antigos sábios, os quais foram escorraçados pelo Altíssimo por não terem pago as despesas do Nirvana, o sensato é uma figura que não destoa na prateleira dos mitos. Haverá algo mais humilhante para o Homem do que sentir que a voz que vem de cima é a de um boneco cujo cu é disputado por uma multidão de ventríloquos? Trata-se de um cu cantante regateado pelas marcas.

É necessário possuir um ego do tamanho do cosmos de molde a pensar da seguinte forma: caso eu não diga nada, estes labregos com a quarta classe mal tirada até se esquecem de ir votar. Eis a constelação de umbigos enobrecidos pelos números das redes sociais a cuspir pepitas das suas torres de marfim. Na cabeça deles, mudam o mundo; fora do seu mundo, o mundo permanece o mesmo.

Prosseguindo com tiques de vedeta nessa senda do Outro, disfarçamos bem a nossa loucura. Pensam, em nome de um mundo melhor, esmagar o eu, quando, na verdade, não passa de uma sofisticada manobra de diversão. Que grandes sonhos, comparados com os dos influencers, não se revelariam insignificantes. Alexandre, o Grande não é ninguém ao pé de um influencer com um milhão de seguidores, o qual, numa legenda de uma foto de rabo engalanado pelos filtros, educa os seus adeptos analfabetos.
A vontade de doutrinar a toda a hora, levada até aos meandros das sílabas, enoja-me. Desmascara o falso paladino da humanidade. Com efeito, não acredita no Homem, na melhor das hipóteses, vê nele um semi-boneco de plasticina que, graças às suas mãos divinas, tornar-se-á uma criatura apresentável.

Rejeito a sedução de um Eu cantante. A megalomania dos novos conventos apinhados de puritanos cheios de manhas, quando nos bastidores funciona um bordel, dá-me vontade de dinamitar o mundo. Nas palavras de Cioran, o niilista entre os niilistas, quem não admite o seu nada é um doente mental. Creio que estamos diante de um diagnóstico acertado. Malucos a doutrinar malucos: o universo cresce para albergar tanta loucura.

A opinião pública, isto é, os curadores de deuses, deixa-se ludibriar pelo espectáculo das luzes e pelo corrupio de sofrimentos de pacotilha. Mártires por geração espontânea, agendam dores para receberem a bênção do algoritmo. Obrigado, caros influencers, meus excelsos lembretes com pernas.

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Roberto Gamito

19.01.22

Como recompormo-nos após o saque da juventude — ela que nos ludibriou com o mundo luxuriante todo frutos e nos entregou à idade adulta depenados e com uma verticalidade postiça. Somos abandonados dentro de uma caixa cheia de côdeas. Os sonhos deram origem a migalhas. O inferno é um paraíso quando comparado com a cabeça de um Homem. Tudo o que há foi parido na cabeça de um homem desesperado. Nada e de supetão tudo — um tudo apinhado de unhas, mandíbulas e fome. Cercados de um sem-número de predadores não nos resta nada senão simular no grito uma avalanche, rezando para que os predadores, canibais e necrófagos tombem, uns atrás dos outros, como peças de dominó. Recompormo-nos de um itinerário de faquir: trilho de áscuas, vidros e promessas quebradas. Em habitando a víscera-mor, seja um deus ou uma mulher elevada aos píncaros, o nome sairá escoltado por uma procissão de berros e gemidos e roncos animalescos. Eis as crónicas de um homem sem asas.

Entrementes, envelhecemos. A idade adulta assemelha-se a uma doença à qual tivéssemos sobrevivido em virtude de termos pago um preço elevado, uma perna, um braço, uma porção substancial do cérebro. Não chegamos inteiros à idade adulta. Cada ser humano é uma variação de Proust: dentro de nós engendra-se, ora às escâncaras, ora às ocultas, a composição de Em Busca do Tempo Perdido. O resto da vida é tentar regressar a um passado que aos poucos vão perdendo os contornos. Eis-nos Ulisses rumo a uma mancha situada na província das assimptotas. Dotados de uma réstia de clarividência, damo-nos conta da impossibilidade de regresso. A cidade de onde partimos já não existe, já não existimos na íntegra, somos outros, somos, com efeito, o cadáver esquisito posto em marcha pelas mil e uma mãos surrealistas de que a vida é dotada.

E de um momento para o outro o concreto passa a abstracto. Que terapêutica empregar contra um quadro mental que não passa de um borrão — ele que pode ser tudo e nada simultaneamente —, de que modo nos podemos desembaraçar da doença se nos fundimos com as sequelas. É impossível apagar o legado das chagas sem nos aniquilarmos.

Exceptuando um punhado de desocupados mais versados em voos poéticos e os reis do absurdo e demais bailarinos cujo passatempo é ensaiar as primícias da loucura, todos os espíritos parecem subjugados por uma vocação que não lhes pertence.

Só aqueles que se emanciparam — e para quê, perguntar-me-ão —, uns através do questionamento perpétuo, alcançando o caroço do nada, outros através do bailado da loucura, ao passo que os demais, mais sensatos ou mais loucos que os loucos, resolveram abrir mão de tudo o que é palpável.

A obsessão insípida de ser útil tornou-nos primos dos objectos. Num primeiro encontro, fitamos o outro como quem compara iogurtes. A humanidade, a haver, existe como vestígio na tabela de componentes. Alcançámos estas ideias sentados, numa sala de espera, na qual esperamos um diagnóstico que pode, qual fadinha malvada, mudar o curso da vida num segundo. Sou um, ninguém e cem mil. Estou de acordo em parte, senhor Pirandello, todavia cem mil são abatidos logo que o cancro é propalado pelas trombetas da medicina. Doravante seremos simultaneamente um e ninguém.

Quando, no mundo actual, o trabalhador é tão-somente átomo neste universo decorativo do capital, onde as ficções se encavalitam gerando pirâmides bizarras, as quais podem tombar graças a um suspiro, com efeito, há muito deixou de ser uma mais-valia. Mais rente à verdade, o trabalhador é um empecilho com pernas, feito barata tonta, porém vulnerável como porcelana, o qual pode ser visto, caso sintam necessidade de serem turistas de uma tragédia actual, na coluna mais tristonha da folha de cálculo. Presentemente, somos uma despesa nómada, obrigada a esforçar-se a toque de chicote subtil, mas nunca a transcender-se, para isso é preciso ter posses, o Deus no trono, não esquecer, é o dinheiro. Pedem-nos o infinito, exigem-nos a omnipresença, estar em mais de um sítio ao mesmo tempo, e, inesperadamente, dado que fomos feitos à imagem de um antigo Deus falecido, fazemo-lo. Somos pequenos deuses precários, não há ninguém que preste culto ao trabalhador. Não há fiéis nem aplausos, há crucificações e trabalho no dia seguinte.

Encontramo-nos à mercê deste jogo sinistro, vítimas de um diálogo estéril, vigiado e guionado. O improviso é punido.
Somos uma família, apesar do chicote incansável, apesar dos salários cadavéricos, eis o que diz o aparato do branding no interior da empresa. A economia tornada negócio de família pela comédia mais negra. Se assim é, não me admiraria nada se isto tudo acabasse numa chacina.

Calados, os trabalhadores comunicam a sua dor e a verticalidade murcha com o olhar, é vital perseverar no sorriso, é-nos proibido quebrar a ilusão do cliente: o mundo é belo, recheado de oportunidades, eis o que assevera o punhado açambarcador dos lucros.

Dentro de cada um de nós, há uma guilhotina. Dissimulamos o carrasco numa avalanche de boatos, não matamos o senhor mas figuras virtuais, geramos o milho para pardais ávidos de tagarelice em vez de minar a arquitectura vampiresca do Capital, sobre a qual se apoia a Grande Ficção.

Não é fácil ser iconoclasta, destruir um ídolo não é para todos: dominar a marreta requer muito tempo, é preciso promovê-la ao estatuto de caneta e avançar sobre as estátuas de deuses erigidos pelo dinheiro insuflado pela ganância qual poeta prolixo que rescreve a História da primeira à última linha. Não há meias revoluções. Espártaco que o diga. Parar é morrer.

Mas como virar os seus olhares povoados de iguarias de faz de conta para os cantos mais obscuros onde a patranha não sobrevive? Embeiçados pela promessa de conforto, parece que somos incapazes de nos comovermos quando assistimos de camarote a essa fanfarra cinética que é a extinção da liberdade.

Às carambolas entre os meus jugos, os meus arrependimentos, os meus amores, os meus fracassos, há um pensamento que não se dá por vencido. Teria defendido o Homem se acaso acreditasse nele, cogitam alguns, defendê-lo-ia contra as cruzes agendadas, contra a invasão dos papagaios catequistas e contra a avalanche de mártires por geração espontânea. Nos olhos vazios dos bustos, refiro-me às pessoas, não há pinga de depois.

Entretanto, há alguém que desfigura o quadro dos cabisbaixos, e ousa olhar para cima, saciando-se com um céu a abarrotar de estrelas: Qualquer dia arrasto Roma — uma cidade inteira — pelos cabelos, ato o século à minha carroça e hei-de passear-me com o seu cadáver sem recear ninguém nem tão-pouco a morte. Talvez isso acorde o Homem.

O Espectáculo do Tédio

 


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.11.21

Antes de mais, é admirável, embora pouco, que os arautos da mediocridade sejam os promotores histéricos da arte, da política e de tudo o que mexe. Não podemos chamar estúpido a qualquer pessoa, há critérios pelos quais devemos separar o trigo do joio. Todavia, ao contrário da felicidade e da riqueza, a estupidez está ao alcance de qualquer um. Inspirada no capitalismo, a estupidez segue uma lógica expansionista. Eis a turba de Napoleões com os copos. Belo quadro! Pintem vocês que o meu pincel foi de férias.

Por preguiça, por falta de tempo, também por falta de talento ou de massa cinzenta, ou por um conforto intelectual que reside em atar em vez de desatar, sou obrigado a confessar-vos que careço de ideias capazes de combater a estupidez.
A conversa, o debate, o diálogo, a troca de ideias, a controvérsia são velhas práticas votadas ao abandono, logo não se perde muito se persistirmos nos terrenos na ambiguidade.

A nossa relação com o tempo, sobretudo o tempo morto, tumultuou-se. As pausas são percepcionadas como estorvos e fazemos de tudo para as obliterar. O pensamento desabrocha nas pausas, no tédio. Esses interlúdios entre dois trabalhos chatos onde fantasiamos sítios, monstros e ideias. A lentidão e a espera são uma espécie de adubo destinado a fertilizar a mente. Esse lado verdadeiramente humano aproxima-nos das plantas — precisamos de tempo e luz para crescermos. Sem pausas, a voz que fala é uma voz desafinada. Doravante ficará impossível chegar ao estágio de animal cantante.

Joga-se algo de muito essencial na tentativa de o Homem contemporâneo expurgar o imprevisível. No regime rápido, sem pausas, dá a ideia — melhor dizendo, ficção — de que somos reis e senhores da nossa vida. O mundo afunila-se, perde espessura, em suma, torna-se unidimensional. Só num mundo despojado das suas várias dimensões é possível retirar o factor de imprevisibilidade da equação. Esse mundo, como é fácil de entender, não existe, é um paraíso artificial. Daí que o resultado fique aquém do esperado. Presentemente, o imprevisível, quando surge, torna-se ainda mais dramático, dado que foi dado como animal extinto. A tentação é olhar para o lado, fingir que não existe, puxar da carabina e liquidá-lo.
A propensão para a literalidade, tão própria do Homem do século XXI, é um retrocesso monumental na nossa relação com o mundo. Regressámos ao instinto. A renúncia ao instinto, termo cunhado por Freud, o qual está no princípio de toda a concepção simbólica, já teve o seu momento. Num mundo sem pausas, sem esperas só o instinto pode triunfar. Eis a nova dinastia dos bárbaros.

 

Animal sem pausas

 


Roberto Gamito

07.07.21

António Careca levou a cabo uma proeza alto lá com ela. Segundo reza as gordas do jornal, escorraçou com um pontapé bem metido nas nalgas o Caído-Mor, o Senhor Satã, o qual replicou degrau a degrau a sua célebre queda. Escapou por um triz ao elogio do vulgo, o visado acanhava — sempre acanhou — os bajuladores. Os demónios menores caíram-lhe em cima como lobos esfomeados. Em vez de o matar, desfecho que o aliviaria, obrigaram-no, então, a vestir-se com um oleado verde e amarelo, isolando-o cromaticamente do resto do mundo. As redes sociais, blindadas que estão ao pensamento, não souberam como reagir a tal acontecimento. Assim enfarpelado, o homem cumpriu o seu destino de fazer-nos rir.

É uma criatura submissa, entre o homem e o cão, pacata e inofensiva, cuja arte lhe chega, no máximo, para coçar os tomates em dias de palestra. Ao que parece, é insuficiente se o fito for fundar uma vanguarda.

A modéstia impede-me de revelar os maiores cumes entre os estúpidos. Todavia uma coisa vos digo, a competição nunca esteve tão renhida. Não é fácil deixar um legado neste campo.

O árbitro de comportamentos interrompia momentos tensos como se a vida dos outros fosse um filme dirigido por ele. Movido por um fervor religioso, o figurão eclesiástico das redes comunicava às pessoas como deviam viver a sua vida. Ninguém diz nada, esse juiz de meia-tigela é o orgulho do Homem, a menina dos olhos do século XXI. Todos fingem concordar, perpetuando assim a farsa. Mais burros não ficamos, pensavam eles.

O seu nome vem à baila de vez em quando, fazendo o soalho estalar com o sapateado da sua grandeza, é um nome demasiado grande para ser menosprezado pelo círculo de medíocres calejados. Corre o boato que a conversa só é conversa quando o seu nome é chamado ao barulho.

Homens sazonalmente verticais tentam passar por escritores. Estão a braços com uma língua que não é a deles, espremem-na até à última gota, mal dá para um copo, quanto mais para uma obra.

À míngua de espectáculos e demandas dignas de figurar em currículos de heróis, ocupam os dias a apadrinhar guilhotinas. As redes sociais são o lar, como alguém há-de postular um dia, de algozes enfezados. Incapazes de ver sangue, arranjaram um ardil destinado a provocar a morte à distância.

Oh, K., receio bem que o senhor seja demasiado hilariante para este século. Amanhã falamos, primeiro é necessário seduzir o coração do castelo.

À excepção do linchamento digital, somos burocratas até ao tutano. Burocratizamos o coração, o sexo e o mais. A picha e a cona traumatizados, acoitados em cima da pilha de papéis. E que alívio é abrirmos a porta à morte e saltar pela janela do quinto andar.
Os suicidas dariam a vida para poder ver as feições da morte ao perceber a fífia do Homem.
Os génios do século XXI ocupam um lugar muito importante na História, e é extremamente árdua a tarefa de os descrever — são papagaios uns dos outros.

Mais uma corrente literária, mais uma ninhada de papagaios.
À medida que envelhecem, os Homens vêem com mais nitidez o discurso do seu reflexo. Olha como estás acabado, meu animal esfrangalhado, comenta o reflexo alojado no espelho.

Recuso-me a ser ludibriado por uma fatia de nada, por mais apetitosa que se me afigure. Logo que os víveres começarem a ser desmentidos pelos sábios, os suicídios vão subir em flecha.

Esquece a verticalidade, se quiseres prosperar no teu ofício, e é por estas dicas que os aspirantes a homenzinhos de valor vendem a alma ao diabo, agacha-te e reza a tudo o que não te for familiar. Pudesse eu ao menos usar um faca nos dentes — sucessora da rosa no tango —, a fim de fazer boa figura na dança das cadeiras. Regicídio, deicídio, não importa. Fui contratado pelo destino para trabalhar, que é como quem diz, colher cabeças dos arbustos penumbrosos.

Não há ninguém capaz de puxar fogo ao século? Estes anos apinhados de escritores de prosa desdentada é incapaz de deixar marca. Tanta carne à espera de ser mordida.

Se apreciares o meu poema, sou menina de te abrir as pernas. Manjar silábico, digno de um não-sei-das-quantas. A cavalo dado não se lhe olha o dente e ficamos assim, cada um com o seu quinhão. A tão desejada aprovação, emprestar a rata por tuta-e-meia, dar minutos de voo ao vergalho, o costume, réchauffés.

Se pudesse fazer aquilo que quero, e o meu caminho fosse exequível, não restariam deuses nem demónios para contar a História. No entanto, é útil editar o pensamento antes de o verbalizar, enfatizá-lo com prosa hipócrita, elevar o paralítico das artes aos píncaros, tudo comportamentos com provas dadas, os quais fazem com que nós sejamos populares quando rodeados de uma matilha a salivar de aprovação. Para brilhar à mesa não é preciso suar o miolo, basta dizer aquilo que os demais ambicionam ouvir.

Quando cumpridas as várias salvas de elogios, aí sim, podem começar a pavonear-se. A vossa grandeza fictícia entrará sem atrito nessa atmosfera carregada de empáfia. Hipnotizados, os anões julgar-se-ão gigantes. Inimigos, nem vos passa pela cabeça a verdadeira estatura do Homem.

E eis que prossegue o artista nas andas da publicidade, papando elogios qual parasita, saracoteando-se com o pedigree dos iluminados. Atrás dele, uma comitiva de carraças, em cima, uma ou outra pulga.

Mas está tudo mal para ti? Nada disso, sou como uma criança que brinca na praia de pilinha ao léu. Tudo me alegra, tudo capta a minha atenção.

Ninhada de papagaios, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.03.21

Esperam lucrar com os meus suspiros
o canto retrocede na ave empalhada
menos fricção e esforço, animal agrilhoado
selvajaria dúctil disposta em prateleiras
reflexo distorcido, casa de espelhos,
espectáculo de feira popular, livre-arbítrio
embalsamado, para carteiras abastadas.
Pretendem atordoar-nos com uma saraivada
de promessas, tornar a gaiola tão omnipresente quanto possível.

O voo de laboratório, apetite sussurrado por terceiros,
musas amordaçadas, cadáveres de outros tempos ordenhados,
cadáveres mais ou menos esquisitos, mais ou menos prolixos
enquanto, livremente, se dá o saque do Eu.

Apesar destes versos de apreensão
nada musicais a ilustrar uma época sem arte
as conclusões sobre as sobras foram brandas.
Subestimámos a pilhagem, despimo-nos e rendemo-nos
aos juízos ubíquos. Despedimo-nos do pensamento
para nunca mais regressar, quais Ulisses desmemoriados.
Em todo o caso, não há Ninguém à nossa espera
aqui ou em parte alguma.

Personagem esfarrapado e aos trambolhões
oriundo de uma História com mil e uma versões.

Nascemos com o pescoço picotado
as guilhotinas tombam na região certa
ó esbraguilhado alvo inerme
ao passo que fotografias celebram os gritos adiados
elevando a miséria ao pedestal da arte

um emaranhado de equívocos aziagos, uma constelação de nós
e sangue cifram o sofrimento. Por fora, seres tão felizes
quanto fictícios, manejados com mestria pelo titereiro.

Babam-se no literal com perucas de gigantes
são incapazes de sair da hipnose engrandecedora
eis os Homens do século XXI.

Surdos, calcorreamos um trilho juncado de sonhos e promessas quebradas, qual faquir deste século a cair aos bocados, tudo estala como a quitina dos insectos outrora alados. Graças às miragens, já ninguém morre sozinho agarrado à sua dor.


Que fiz eu realmente para usar tantas máscaras?
Anestesiámos a nosso coração com narrativas enobrecedoras,
o último grito da fantasia — sem perceber o fim em vista.

Estou contente ou envergonhado por sorrir sem vontade?

Segundo Sartre, a voz nasce do risco: quer para nos perdermos, quer para ganharmos o direito de falar na primeira pessoa.

 

A Voz e o Risco, Roberto Gamito

 

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