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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.08.22

Com toda a estima que o mundo me merece, essa bola gigante que anda às voltas do sol como se tivesse larapiado a pochete a um asteróide, devo confessar que não me impressiona por aí além em matéria de beleza. Ao menos se fosse um cometa que adquire farta cabeleira nas redondezas do sol, agora uma esfera careca não produz grande ânimo na minha pessoa. Após ver por alto meia dúzia de postais que ilustram os sítios alegadamente exóticos obtemos uma imagem nítida e insofismável sobre o planeta. Há água, há florestas que, como declarou e bem o sábio Bolsonaro, só servem para causar incêndios, animais, a maioria intragáveis, pelo menos se formos ocidentais, e equívocos em todos os meridianos. Este sentimento de respeito infinitesimal tem razão de ser. Não me querendo armar em Bazarov, o primeiro niilista, continuo a não acreditar na existência do turismo num planeta destes. Uma tarde a ver documentários da National Geographic e está visto, não vale a pena pagar bilhete. O facto de haver vida neste planeta não me surpreende, os animais vivem em qualquer buraco, já o turista, que está habituado a certas condições de pessoa de nariz perpetuamente empinado, levanta-me certas dúvidas e desperta-me outras tantas comichões. Províncias estrangeiras, curiosamente, recebem pessoas que nunca lá estiveram com boas-vindas e não com tiros de canhão, tal como aconteceu na Rússia, em 1825, ao esquadrão de insurrectos. O turista é uma criatura cuja fé, a qual podemos desdobrar em crença de ver algo novo e encontrar a paz, sobrevive, no máximo, uma semana. Findo esse período de delírio, o turista dá conta que o melhor era ter ficado em casa a mandar vir com as paredes e a cavaquear com as osgas. Além disso dá-se conta do mau negócio. Viajar para um sítio em que não conhece ninguém e que nada tem que ver com ele só para actualizar as redes sociais com fotos de qualidade duvidosa. Como o leitor mais sagaz terá notado, o turista é vítima de uma burla. Tenta cria amizades com bichos autóctones, mas as araras não lhe passam cartão. Para elas, o turista não passa de mais um ser vertical com chapéu de palha. Além disso, põem repelente para afastar os problemas, porém eles acabarão por vir. Os problemas e os mosquitos. Quanto a mim merecidamente, enfarpelar-se com roupa duvidosa só porque se está de férias causa um desequilíbrio no universo que deve ser punido.

Aníbal Joaquim mal saíra de uma relação quando foi desassossegado por uma mulher que casava vistosamente o corpo com o seu vestido, mulher essa autora de um gingar de anca diabólico capaz de arrancar um sorriso ao mais antigo dos cadáveres; em suma, arrancou-o do pântano do marasmo onde, diariamente, há pirotecnia ininterrupta de ideias destrutivas. Em ambiente de férias, somos levados a acreditar em coisas que não existem. Quantas religiões e cultos não terão começado no verão, aproveitando o facto de as pessoas estarem indefesas e de chinelos, feitas turistas.

Mas este texto não é sobre o Aníbal, paz à sua alma de veraneante.

No auge do entusiasmo, que acontece algures na primeira semana de férias, o turista alega: "isto é que é vida". Aparentemente inofensiva, é vista como ofensiva para quem trabalha na restauração nesses sítios paradisíacos. O que é Paraíso para uns, para outros é o Inferno. O Bem e o Mal, uma vez mais, dependem do observador, como já nos ensinou a História.

Esta crónica não estaria completa sem a referência mais macabra de todas. O ser estúpido, que não tem outro apodo, que diz: quero conhecer pessoas novas. Dando de barato a inocência, é uma ideia pouco convicta que se esfuma passados uns dias. Desfeito o frágil feitiço das férias, o turista percebe a imbecilidade que é tentar conhecer pessoas quando as há em todos os sítios, até bem perto de casa, segundo ouviu dizer. Aliás, essas pessoas parecem-se muito com aquelas que andou a evitar o ano todo. Doravante percebe que a felicidade é impossível. E começa, pouco a pouco, a despir mentalmente a farda de turista. Aos poucos regressa ao seu mundo. Ao vê-lo tristonho e sem esperança dá vontade de lhe dizer: Isto é que é vida.

 

turista e o feitiço das férias


Roberto Gamito

26.02.21

A vida é uma porta giratória de sonhos e caprichos que transitam entre o passado e o futuro. Aqui, no presente, esvaem-se as fronteiras entre o que sou e o que poderia ter sido, derretem na forja de episódios que se avizinham.

Este prelúdio irá turvar as águas, confundir os papéis tradicionais de quem fica e de quem viaja.

Poderosas afinidades com o desconhecido — perdoem-me o mamarracho linguístico — favoreceram a aquisição de uma máquina do tempo. Namorei-a durante anos a fio e finalmente é minha. Não teve saída, ao que sei, ninguém comprou nenhuma. O consumidor cheirou nela o embuste, a patranha estapafúrdia, pelo que foi uma pechincha. Graças ao desdém da maioria, alcancei a possibilidade da viagem desimpedida de obstáculos. Sou o pioneiro da viagem a quatro dimensões. Creio que mereço uma pitada de respeito.

Sempre me pareceu curta a frase “o presente é que conta”. Isto não implica que devamos ceder à falácia natural de que é tudo é igual ao litro ou interpretar este inédito desabrochar de possibilidades como uma valência notável e uma inevitabilidade inerentes à viagem no tempo. Fui exemplo para alguns, todavia continua a ser uma jornada de poucos. Vamos lá despachar isto, eis a frase que gosto de pronunciar no início de cada viagem. Eclipsando as artes tradicionais de palmilhar o mundo, podem designar-me, embora não aprecie por aí além o termo, mas nunca encontrei nenhum melhor, turista 2.0.

Apesar de já ter visto muito e lidado com ideias inconcebíveis para os habitantes do presente, dominando hoje a arte de persuadir cada ser humano no sentido de escolher isto e aquilo, preferi uma espécie de distanciamento. As minhas palavras podiam influenciar o curso das coisas no presente, pelo que, de há uns anos para cá, fiz um voto de silêncio, o qual é retomado a cada regresso. As repetidas viagens obrigaram-me a ruminar a vetusta ideia de Homero presente na Odisseia, o regresso é, de facto, impossível. Quando muito, um arremedo, um simulacro. Tudo nos molda, somos barro nas mãos dos outros e do tempo. Nunca conheci um Homem imperturbável, capaz de fugir com mestria à chuva de mãos que nos moldam sem pedir licença.

Não obstante o lado inédito disto tudo, há aspectos da viagem e até da passeata solitária que se mantêm. Quando diante de portentos naturais, ou grandes proezas levadas a cabo pela nossa espécie, que as há se as procurarmos, embora de longe em longe haja uma facção de marreta em punho que as tenta derrubar, tendemos a relativizar a nossa própria dimensão. Com efeito, cumpridas mil e uma peregrinações aos cumes do mundo e do Homem, sinto-me hoje o mais pequeno dos bípedes. Há muito que me despedi do ego. Se a memória não me falha, há uma canção dos Mão Morta intitulada ‘Há já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar Se Tornou Irrespirável”, a qual serve de legenda para todas as eras. Seja qual for o sítio ou a época, há sempre alguém a pensar da mesma maneira. Para o bem e para o mal, a viagem dá-nos o Homem.

 

Diário de um viajante, Roberto Gamito

 

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