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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

05.08.21

Desço ao fundo de mim — ao verdadeiro inferno — com a esperança de não encontrar ninguém conhecido. Em todo o caso, estou completamente às escuras quanto ao regresso.
A poesia está morta, afiançam-nos; surpreende-me que continuem a malhar no vento ou naquilo que, em dias inspirados, designam fantasmas.

Não havendo outra anestesia, recorro aos dias transmudados em carcaças que fui enceleirando no decurso dos meus passos. A mão avança cautelosamente pelo corpo pejado de cicatrizes, qual agrimensor obscurecido pela tarefa de inventariar as fronteiras da barbárie.

Ao contrário de outros dias, o grito alheio endireitou-me a prosa. Após a metamorfose luciferina, o diabo entrou em mim com um mandato de detenção. Digo-lhe que Deus não está dentro de nós, mas ele não acredita.

Vigio o meu coração à cata de falhas na sua sinfonia. Baptizo cada uma delas de olhos fechados. Foi o que deu andar a brincar aos apaixonados.

Fico a pensar no precipício acidental que a minha vida se tornou. A esperança pode ter os dias contados. O quadro está à mercê de legendas enaltecedoras.

Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava dramaticamente na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções. O cachalote colossal encalhado na margem da memória. Já haviam dado ordem no sentido de desempacotar a civilização alojada na sua carcaça. Puta que pariu esta refeição, eis as últimas palavras do cachalote. Lego aos exegetas a labuta de pôr em discurso os meandros da refeição resgatada.

O mundo não tarda será outra coisa, assim como o inferno — o melhor é não descurar as lições de voo. Se tivesse que adivinhar, diria que nunca houve nem haverá profetas.

Leitor, veja pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. O inferno não é para mim, pensa o leitor ao desistir do texto, prefiro sítios mais frescos.

Ia ser excessivo mais um pouquinho. Pôs a vida mais alta, tirou a mão mais venenosa da aljava e fez pontaria ao coração das Parcas. Pusera a coragem em romance e a determinação voltara a notar-se no olhar.

O bando de burros tapara por fim o sol. Isto e aquilo e podia continuar por aí fora, comentou o chefe das aves orelhudas.

Isto é sobre o quê? O amor é sobre o quê? Dúvidas com muita luz à mistura. Um único dia tomara conta da minha memória. Uma migalha selvagem com a mania das grandezas. Não estou perdido, não sei de onde parti, nem tão-pouco sei como aqui cheguei. Atire a rosa-dos-ventos — o meu queijo — para a fogueira, disse o corvo, vai ver que tudo fica mais fácil.

o amor é sobre o quê?, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

21.07.21

No entrave entre a língua prefaciadora e o sexo, habitou, selvagem, hoje romantizada, a obra do poeta. Oh, lacaios da faúlha ressentida e restante comitiva de papagaios, mais um incêndio em Alexandria? Caramba, não dão sossego à vossa mediocridade. O interregno entre infernos teorizados — e Deus vos abençoe por isso —, a bala carpindo a emenda póstuma no romance inacabado, revelou-mo a sacerdotisa degolada. Tudo ardis no sentido de insuflar silêncios dolorosos. As pessoas definham, sozinhas ou agrupadas em cachos de eremitas, sob o tecto arruinado da catedral abandonada. Do chão ao tecto vai apenas a ideia de verticalidade. Em todo o caso, trazer o coração à baila numa cantiga de amansar espíritos mais agrestes é-me insuportável. Por estes dias, contento-me a inventariar os vermes da minha carcaça. Quantos mais serão necessários a fim de reclamar a minha morte?

E aqui temos o naufrágio burilado, sem tábuas de salvação nem deuses a quem pedir uma côdea. O sangue seduz os tubarões, dá-lhes currículo, sugere-lhes o círculo da fome — a possibilidade de posfaciar a carne.
Mas, alto lá!, ainda não chegámos à carnificina. As ondas legam melancolia ao último turista, que há-de morrer na praia. Desafortunadamente, não legará postais aos vindouros.

K. está lá em baixo a vigiar o convés atafulhado de fruta apodrecida. Os deuses, velhos solteirões, se preferirem, entregam-se a um oficioso banquete canibalesco. Maquilhagem no gesto, rosto, digamos, a descoberto como manda a moda da época, truques de mágico com o fito de distrair o público do que realmente interessa.

Lâmina e corvo agouram à vez. Cabeça de João Baptista, timoneiro no barco fantasma. Na mesa ao lado, o biógrafo mumifica o faraó entronizado pelos holofotes. Génio escarnecendo do século, barómetro receando pela sua obsolescência. Morte marcada para depois do poema perfeito: eis a maldição do poeta imortal, profetizada pelos cadáveres das musas.

O mofo na métrica, o bolor no verbo, o nome apinhado de arrebiques e a frase parada por falta de peças e talento. O filão do amor à espera de mineiros, mineiros esses abortados pelo século independente.

O shaker das desculpas apresenta-se como cronista do rescaldo. Uma relação falhada emboscada por caminhos jamais percorridos. Lobos postos em passos, lobos quilométricos por cima dos quais podemos alcançar a morte perfeitíssima.

Amputada a folia, o vate destes anos crê dar à luz poesia. Uma ideia sem pernas impedida de sair da folha rumo à cabeça dos leitores desnutridos de luz. Anacrónico exagero. Aconselham-me a abandonar o voo e a substituí-lo por um simulacro. Uma pedra emplumada é suficiente se a ideia for despertar a atenção destes cérebros encalhados no ruído.

Grito que venho em paz, todavia o hálito a guilhotina denuncia-me. Fera de esferovite aplacada pelas carícias e os afagos brincalhões dos indefesos, eis outra legenda deste marasmo.

Lufada de ar fresco na sala de mafiosos. A querela burocratizada pelas boas maneiras. Um apego abrandado pelas notas de rodapé. Uma distância em pulgas de ser dinamitada e nada.

Pequenos homens, fingidores de proezas, adquirem hérnias com migalhas aos ombros. Embrenha-se-nos o cadafalso na carne e na língua. Doravante cada passo em falso será morte certa.

Fera de Esferovite, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.07.21

Não te esforces por ser meu leitor, deixa-me tal como estou: carne pendurada no gancho. Se vês em mim as sobras do naufrágio, não me lances a bóia, tinge antes o oceano de sangue e os tubarões farão o resto. Mais não mereço que um desfecho a várias bocas. Ando às voltas qual compasso furibundo que tenta legar ao mar uma circunferência. Devo confessar-te que sou um especialista em afogamentos. A minha morte, repetida aqui e ali, no campo ou no papel, não sabe o que é repousar.
Ando de tempestade em tempestade à procura da língua.
Aproveito a minha estadia no fundo para anotar os fragmentos da vida em conchas.

A mão, hoje romba, despiu-se de minúcias. Semente bípede no interior da qual o animal pleno arranha as paredes. O metabolismo acelera à beira do precipício e mina os pilares de uma vida longa. Para seduzir as pequenas coisas não nos podemos pôr de bicos de pés.

A máscara alastrou contaminando o teu repertório de gestos. Um olhar gritante, em maiúsculas, que é como quem diz, caricatura de terra ressequida. Dói-me ser o exagero de ontem. Quando a minha língua fértil era hábil em encurtar distâncias, nada cumpri que o esquecimento não possa obliterar numa primeira passagem. Mesmo no auge da solidão, nem de rosto precário à mostra, com as mãos todas à disposição, sou incapaz de vivificar o teu nome sacro. O caminho é uma legenda prolixa de uma queda que há-de vir. Sei de cor os apeadeiros onde fui ultrapassado pela vida. Ao princípio era o advérbio. O modo, a afinação enfadonha de um verbo impontual. Penso que o eclipse nos habituou mal em virtude da sua duração. É natural que me sinta aborrecido pelas profecias, principalmente aquelas cujo fito é ver-me pelas costas. O deserto é o celeiro das sementes da solidão. Nada devemos esperar de verde. As águas salobras da depressão, o suor a pique da ansiedade. Caí em todos os engodos como um magistral parolo. E por isso não me perdoo.

A escrita é um claustro silencioso apinhado de demónios. Eu preferia um horto onde pudesse plantar corações. No fio da navalha: onde afinal vivemos os melhores anos. E era igualmente aí que mergulhávamos, quais funâmbulos suicidas, sem rede nem ficções de amparo. A solidão fez com que os cachalotes nos invejassem. Mergulhávamos nas nossas vidas — as sobras barbarizadas pelo passado — para virmos à superfície meses depois. Destemidos, aprendemos a ir ao fundo sem esperança nem oxigénio. Habituamo-nos a esses lugares destituídos de deuses, digo, onde a luz não chega. Jurámos sepultar esses ensinamentos na memória até ao último dia, acreditando assim acabar com a própria ideia de suicídio. Fugimos ao Diabo pelos atalhos engendrados pelo Caído. Íamos às bifurcações mais célebres a fim de perceber se ainda éramos Homens. O peso da decisão obrigar-nos-ia a romper os fios do bonecreiro. Caíram que nem patinhos, ria o Homem dos Robertos.
Pobres coisas dispostas por fantoches embriagados. Os fios projectam uma sombra a que chamámos liberdade.

Quantas vezes terei de ouvir a tua distância sem conseguir cantá-la? No dia que estiver frente a frente com a morte já nem sei bem o que fazer.

Suicida e a Queda, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

09.07.21

Corpo em revolução, figura parva ou geométrica. Redondo ou quadrado, carne para uso, descarte ou disparate. De quanta obsolescência serão dignas as minhas frases? Linhas que aos demais não assentam, nem à justa nem à larga, nem em prosa nem tão-pouco em verso. Lá vão elas rumo aos bastidores da tratantada com as tetas bem apertadas de molde a não desarmonizarem a eufonia, as sílabas, acotovelando-se no meio do texto íngreme e a raiar o inútil, as sílabas, o mundo enquanto lugar de caça e fuga, as sílabas.

Poder ser que seja um acto louco, mas ajo de acordo com o pulsar do texto: eis a minha crença mais arreigada. Já de rastos ou a meio da queda, sintonizava a vida com o respirar da literatura. Éramos, cada um à sua maneira, dois animais aflitos a braços com o fim.

Que mal pode haver em querer escrever e carecer de começo de língua inédita? Ao rés da folha, desenteso ao fitar o inferno do mesmo. Outrora, desentendíamo-nos ao primeiro verso, poeta e leitor dois bichos singularizados pelo desnorte. Um poema perfeito é uma paixão recém-chegada. Salvo o calor e suas múltiplas acepções, não entendemos peva. De joelhos, aquiescemos face à língua ígnea e estrangeira.

Choquei alguns acólitos do gelo, alguns paladinos de coração emperrado, alguns cruzadinhos de espada romba. Morte ou vida é-me igual ao litro, grito ao sacristão. Doravante o sino dobrará sem porquê.

Amor. Terei eu pé mesmo se o tema teimar em aprofundar-se ao ser desnovelado na língua em solavancos tépidos? Nas minhas costas, o mundo.

Disparate: emendar o que quer que seja quando nada é certo. Enumerem, caso haja tempo para futilidades, os sábios que se cruzaram convosco até então. O animal amolece, nada duro e durável. Tento entender a trajectória dos projécteis adiados.

A sedutora 4x4, adaptada a qualquer terreno, fez mais uma vítima. Retirei peso ao seu negrume, confesso-me.
Ao ruminar o que terá acontecido longe do radar das minhas pupilas, as hormonas decidiram entrar-me pela prosa adentro, qual rusga, insuflando-me os verbos outrora flácidos.

Amor ou morte? A ganância tomou conta das mãos indecisas. Nem ouro nem poesia. Temi as consequências, o retorno a um início primevo, desta vez de mãos vazias e afónicas.

Imaginava-me de pés e mãos atados, encimado por um carnaval de flechas desejosas de se abaterem sobre mim. Voar é um exercício vão quando o céu principia a dar mostras de querer ruir.

A carne, a eterna suspeita. De um lado os idólatras, do outro, os iconoclastas. Sou um entre a multidão de anónimos. Espero pacientemente a minha vez de arder na pira. Palavras demasiado concludentes. Em tempos idos, fui ensinado a deixar o mundo de fora da língua. Não digas isto, isto e isto. Então falo do quê?, respondia. Ninguém me sabia responder, o gato finalmente comera-a.

O rei dos oportunistas palmilhava a estrada do sucesso com a sua corte de sequazes que, espante-se, massajava-lhe os nobres tintins sem descanso.

Ninguém me ensinou a afogar — tudo o que ignoro aprendi sozinho.
Respirar para tão pouco. Cá estamos, camaradas náufragos, neste mar vindimado pelo medo.

Desisto da minha condição de estátua. Inicio a dança, faço as pazes com o movimento. Não é comum depararmo-nos com uma magia consumada que não aproveite o momento para mamar da teta dos holofotes.

Tardava o confronto com o tempo. Entretanto, ia-se entretendo a lutar contra espantalhos e pardais. Se quiseres ser homem-estátua, pára, se continuares assim, a andar feito parvo, não vais a lado nenhum.

Não temo a morte, tenho um ataúde à sua medida à sua espera em cada esquina do texto. Como afiançam os místicos, não é o Homem que entra no templo, é o templo que entra no Homem.

Terei de me assumir inábil para lidar com o amor. Já o tive nas mãos mas…
Volta para a direita, volta para esquerda, hesitação, simulo a volta para a direita e volto para a esquerda. Um tiquetaque obnóxio, uma tentativa de abrir o cofre da alma e pôr o Homem — o que poderia ter sido se a plenitude fosse alcançável — diante do Tempo vertebrado para avaliação.

Uma vez descalçada a bota que é confeccionar o primeiro verso, o poema anda sozinho, quase sem ajuda. As sílabas que colho da mão suada: frutos em botão.

Constato que o hábito recente deixara o monge inacabado.
Ao contrário do que nos foi ensinado nas redes sociais, é impossível reduzir o Homem a uma característica. Resumir um ser humano a uma palavra é um acto criminoso, sem direito a redenção, ó cruzadinhos da empatia.

O que é afinal o Homem? Animal exemplar, domesticado em dias de festa — sexo! —, de pronto solto no seu habitat penumbroso apinhado de olhos inquisidores.

A luz fraqueja diante das palavras maiores. Os anjos não se pronunciam. Esta manhã, graças ao nervosismo face à situação que me poderia pôr em cheque — e logo eu que nunca tive queda para rei —, aprendi, enquanto remexia as nádegas na cadeira, o samba da sala de espera — dança que, quanto a mim, merecia outro prestígio.

Suspeitem de asas tão franzinas. Estou certo de já ter passado por esta ideia. Por sorte, a cabeça será outra e a frase, resultante da observação, sairá noutros moldes. Não me questionem se tal constitui um ganho. Sim, distraio-me com o que estiver mais à mão.

Fugir ao medo? Com o calor que está? Não sejas estúpido. Aninha-te aqui e vamos lá ver se há material para erigir uma história de amor. Finda a fornicação, posso ocupar-me de outros assuntos. Não houvesse período refractário e o homem nunca teria inventado a burocracia. Sem período refractário não haveria Kafka, pensei eu após a ejaculação.

Não sei formular um pedido de socorro sem parecer uma causa perdida. Não sei pedir ajuda sem que me dêem extrema-unção.

O passado é fértil. Tanto é uma barragem contra fantasmas como se transmuda num viveiro deles.

A desconfiança tomou conta das minhas definições. Tento fintar o cinismo, todavia ele arranja constantemente forma de entrar a pés juntos na frase. Combatê-lo com ironia é engrandecê-lo. As armas para nos defendermos dele ou estão extintas ou ainda não foram inventadas.

As cabeças dos gigantes derrotados. Tê-las à cabeceira, sob a forma de rosário, é, a espaços, reconfortante.
À parte isso, sou, incontestavelmente, farinha do mesmo saco. Porém, ao estar em contacto com os meus semelhantes, fui impelido rumo à singularização. Não me peçam mais explicações, não estão em idade de compreender a minha jornada.

A abstracção de decantar a música cantada ao coração numa noite como nenhuma outra. Prosa atafulhada de inseguranças, perífrases atrás de perífrases, o nada mais copioso possível.

Mas…não vim ao mundo com o fito de moer palavras adultas e diluí-las em frases mansas, de pacote. A língua selvagem descansa. Ao entrar em casa, penduro-a, por fim, não na folha, mas no cabide, como coisa que só faça sentido ser usada na rua.

Peso infinito sobre os ombros. Já disse ao médico uma ou duas vezes. Não há meio do teste de ADN chegar, não me espantava nada que fosse filho de Atlas. Que vida é esta afinal? Carregar o cosmos às costas — façanha ao alcance de tão poucos — e suplicar ajuda às sanguessugas para que me cocem os tomates. O gigante mirra a cada súplica. Dentro de pouco tempo poderá ser derrubado por qualquer um: eis o destino dos grandes.

Tenho os dias pretéritos como reféns na memória. Sinto que levei a cabo um crime imperdoável que não cessa de engrossar.

Na folha, dou as voltas que o mundo não deu. Cada um foi para seu lado; um permanece no tabuleiro, o outro, comido.

Martelei-lhe a carne, conta a mulher A à mulher B, mas nem por isso ficou mais tenro — continuou, aliás, duríssimo. Mistério que intrigava todos os talhantes com que se cruzara.

Poeta: Planeio cada pormenor como quem arquitecta uma catedral.
Escrever ajuda-nos a exercitar a mão, que é por onde a humanidade abre o leque dos mundos possíveis.

O meu marido deixou de me procurar, comentou a mulher à amiga. Cessaram as buscas, fui dada como morta. E agora? O que faço eu à minha vida?

Para muitos, a vida é andar em manada, de mamada em mamada, um tudo ou nada de quatro ou de joelhos.

Este lugar, que assumiríamos meu, será, postumamente, ocupado por um sismo.

Corpo em revolução, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.07.21

Não pertencia à paróquia da miragem; pôs o revólver na boca e desenvencilhou-se da vida. Recusou-se a contribuir com mais um tijolo para esse oásis fictício. Como paga, os crentes não voltaram a dirigir-lhe a palavra a noite inteira. Ao que pude apurar, o cadáver reagiu ao desprezo como um senhor.

Nos arredores deste episódio multiplicam-se os boatos e as versões. A morte enquanto semente de universos paralelos — olha que há coisas! Daí que aquilo que se sabe seja sobretudo cadáveres esquisitos, frutos e enxertos do diz-que-disse.

Precisaríamos de uma camioneta de caixa aberta apinhada de escribas se quiséssemos levar a cabo um balanço das conquistas intelectuais que tiveram lugar após este acontecimento charneira. Porém, os dias passam e com eles chega a diluição do ensinamento. Consequentemente, há aspectos dessa sensibilidade perdida que hoje, renovada em bagatela, está mais próxima da magia. Eu digo que o mundo é isto, logo, ao pronunciar estas palavras supremas, o mundo não tem remédio senão metamorfosear-se ao meu gosto.

Na província mais próxima, à qual a história chegou já na forma de livro de bolso, alcançamos uma verdade de algibeira. A ideia de que se pode dizer qualquer coisa conclusiva sobre o que quer que seja é claramente absurda — não digam isto em voz alta.

Em certa medida o coração continua indisponível e o cérebro continua parado por falta de peças. No entanto, como não há escapatória, urge trabalhar com o que temos — com as tripas. O resultado está à vista de todos — mesmo dos míopes. Perante estas alternativas, falhar por pouco ou falhar por muito, a nossa opção acaba por ser uma questão de instinto, um pressentimento a raiar a revelação. E, embora seja absurdo que um leigo possa sequer fazer conjecturas sobre temas tão herméticos, a verdade é que os Homens não têm mãos a medir. É raro o dia sem o lançamento do barrote — a avaliação posta em discurso ou em livro — para a pira do esquecimento. Amanhã já ninguém se lembrará de nós.

A morte? Sim, mas. Qualquer pessoa que tenha pelo menos o interesse amadorístico pela vida poderá dizer-vos um punhado de citações, o qual visa agrilhoá-la na gaiola do futuro distante. São as nossas armas — que risíveis, diria o sage, caso existisse.

O amor, quando chega a desoras, a minutos de concluirmos o perfil psicológico do precipício, não nos fornece o atrito necessário para adiar a queda. Ao contrário dos boatos enfatizados pelos finais felizes (bonito oxímoro), o resultado da sua chegada não é de cortar a respiração.
Cortar a respiração é o meu departamento — riposta a morte.

Não desprezo que a carne, ao ser posta em fogo, pode conduzir-nos ao píncaros, monumentalizando o momento. O desenlace confere-nos a certeza: somos um tornado de apetites, uns pobres animais de argila moldados pelas mãos da banalidade. Volta e meia, todavia, avançamos rumo ao outro a cavalo no beijo, mais uma tentativa de tornar o coração acessível ao outro.

Num dos capítulos desta história, o coração era um dramaturgo do abstracto cujo olhar era bastante penetrante, capaz de ver coisas onde elas não existem, capaz de resgatar do episódio perfumes que esbracejam nos poços da província da insensatez. Mais tarde, já sem calor nem pressão, numa temperatura incapaz de gerar cobiça ou medo ou apóstolos, o ser humano procede à geologia desse troço biográfico. Emana desse estudo uma assombração muito particular.

Coração, dramaturgo do abstracto

 


Roberto Gamito

29.06.21

Mão: Acorda, dorminhoco, o teu trabalho está por confeccionar.
Há dias, estava eu vencido no topo de uma pirâmide de cadáveres liquidados pelas emendas, uma vozinha veio ter comigo e disse-me: “Quando um homem tem este tipo de animais a habitar-lhe a cabeça é um perfeito disparate tentar escapar-lhe”. Não se volta a repetir, comuniquei-lhe.

O meu nome espalhou-se pelos quatro cantos do mundo e hoje toda a gente se chama Palhaço. Tenho (e por esse dom me congratulo com intermitente gratidão) a capacidade de dividir o mar de lérias em dois. Moisés da intrujice guiando as sinapses rumo à Terra Prometida.

O besugo deixara-me embasbacado; nunca me passara pela cabeça que o peixe tomasse a liberdade de me dirigir a palavra.

Não devemos julgar os palhaços de forma gratuita ou apressada.
Há palhaços relativos e indiscutíveis.

Quando falo de indiscutíveis, refiro-me a palhaços que são palhaços em qualquer cenário, nos bastidores e no palco, na companhia de quem quer que seja, online ou offline, de manhã à noite, do berço até à cova, da embriaguez até à sobriedade e vice-versa, calados ou de língua prolixa, de pé ou de cócoras, cândidos ou de quatro, com ou sem maquilhagem. Os relativos, como está bem de ver, são palhaços em determinadas situações da vida e em determinados contextos. Em suma, são palhaços quando lhes convém. Palhaços interesseiros ou palhaços por vocação: eis as duas tribos.

Palhaços relativos e palhaços indiscutíveis, Roberto Gamito

 

 

 


Roberto Gamito

29.06.21

Tudo o que é eterno é tão antigo que só pode ser ininteligível.
Traduzir o que ao longe se afigura como ponto em pacífico é um acto excepcionalmente ingénuo. Ao longe até o dragão é um ponto.

Cadáver divino, sangue de um vermelho que não existe na natureza. Vermelho de deidade caída em desgraça. Como pintar então este quadro?

Ninguém conseguirá abolir a Primavera, no máximo, adiá-la. Nesse impasse onde a tribo se bifurca em escolas distintas, as flores discutem sobre hipóteses inéditas de florescimento.

Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala línguas — Coríntios I. Por conseguinte, mesmo que quisesse, seria inábil em traduzir o meu destino para o vosso idioma.

Ao caminhar sobre gelo fino, o corpo transmuta-se em calcanhar de Aquiles. Seria terrível se a sorte nos abandonasse num momento como este. Rezar seria imprudente, trazer o peso de Deus para uma situação destas é pedir a morte.

A cruz está aqui, só que está por montar. Aquando da crucificação de Jesus, Deus ter-se-á virado para Abraão: “Vês, não é assim tão difícil sacrificar um filho”.

O progresso enquanto algoz cuja incumbência fosse abater homens-estátua. O Homem, segundo ele, está programado para dar o passo seguinte. Tenho receio de domesticar o meu coração no ginásio das tarefas vãs. Amedronta-me ter desperdiçado uma vida a treinar o coração com o fito de se bater mano a mano com as ficções.

Escrever até os ossos estalarem e as tripas cantarem de tanta fome. Seguir a frase de Cioran como uma máxima: “A saúde é uma ausência de intensidade”. Emprestar a vida à folha e contentar-me com os restos.

A cólera é o sino apto a convocar o bárbaro acoitado no interior de cada Homem. É preciso fechar a boca de molde a não consentir a saída do selvagem. Cada palavra é um túnel, um indício da selvajaria que se avizinha.
O homem santo, inexperiente no tocante às possibilidades da maldade, foi atropelado por um zoo bíblico — espezinhado após uma dança de cascos. A morte por um lado, o regozijo dos animais, por outro.

Após a fornicação, é preciso dar uma vistoria aos bolsos da mulher, não vá ela ter-vos roubado o coração. E quem diz mulher, diz homem. E quem diz homem, diz larápio da víscera-mor.

O sonho húmido do déspota é transformar o Homem em pedra, em coisa pacatíssima. Mas até a pedra, bicho em princípio imóvel, tem dias em que resvala.

O abismo e o suicídio não são invenções deste século. Dois terços do trabalho está feito — não nos podemos queixar. Como pintar então este quadro? Negro sobre negro povoado tão-somente por um grito lindíssimo?

E o futuro, pergunta ela, no primeiro encontro. Como falar de um lugar tão fundamental com alguém que acabei de conhecer, responde o homem, destoando da atmosfera. Como pintar então este quadro?

Até que ponto vale a pena passear os cotos num mundo morno?
Salta de cama em cama, qual rã da fornicação. A estranha aventura de coleccionar calor em estranhos. Todavia o coração permanecia adiabático. Será isto o purgatório: a província obtusa onde os hóspedes procuram um resgate há milénios? A esperança, irmã do bem e do mal, permite igualmente a acção e a paralisia.
Em parlapié de taberneiro, a esperança é pau para toda a obra. A ninfomaníaca riu-se.

Sou um ninguém cujas letras não pousarão jamais, sou o espectro apinhado de dúvidas entre o nome e a coisa nomeada.

O mundo? Pois, temos aqui muito por onde desesperar. Versos robustos, inquebrantáveis? Que suspeitos, aqui é tudo de partir, para usar e deitar fora. Mesmo calado não digo nada; trata-se de um silêncio sem grandes pretensões literárias.

Todas as jornadas são demandas em círculos: não logramos fugir daqueles que somos. Como pintar então esse quadro?

Entre o socorro posto em prosa elegante que amiúde nos acompanha a fome de carne e a aquiescência sorridente que legenda o avanço da mão marota, instala-se por vezes um instante onde o impossível é degolado.

O canibalismo é impossível entre os Homens. Cada Homem é uma espécie à parte.

Os dias, fartos da mansidão de outrora, abeiram-se de nós com uma catadupa de tempestades. A tempestade faz bem aos medrosos, escorraça-os do território da dúvida. A mão defende-se como pode na folha, mas nunca está inocente. Será esta a culpa inextirpável sentida nos textos de Kafka?

Para onde virar o holofote da minha atenção se o mundo, na sua copiosidade de mundinhos, reclama a minha vida? Estímulos que me sugam vampirescamente os dias gota a gota.

O papel do escritor — quem vem lá com a prosa desembestada sem o açaime das convenções?! — é quebrar a hipnose da paz postiça. O escritor é o carrasco dos paraísos artificiais.

Carrasco dos Paraísos Artificiais, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.06.21

A ferida ingressa cambaleante na casa de espelhos — uma máquina de produzir seres humanos.

Julgo que há uma suspeição generalizada sobre a mão indómita. E se ela, no pico do seu não querer saber, nos rasga o mundo em dois?

Só acredito na ideia que nasce sem destino. A outra, a com agenda, é um nado-morto, que é como quem diz, como o dicionário nos elucida, foi dado à luz sem vida.

A cólera que lhe habitava o subterrâneo da pele não o ia impedir de tentar ser humano. Ia seguir o conselho do vulto: cantar a horas certas ou a desoras.

Silêncio. Puta que pariu esta deixa, ouviu-se. Minha personagem, estamos a passear-nos no palco da vida o melhor que sabemos, pedia-lhe uma certa contenção. Em todo o caso, tudo se enevoará no porvir.

É a poesia que desencalha deuses, que os impede de morrer na praia, cogita o Diabo numa espreguiçadeira enquanto aproveita o pior que o mundo tem para oferecer.

Ponho tudo o que sou no poema, comunicou o poeta à flor surda, lego aos exegetas a labuta de desempacotar o cosmos.

O mundo não tarda será outra coisa — o melhor é adormecer com a caneta na mão. A escrita é tramada, tanto nos pode conduzir aos píncaros, como ao mais inescapável dos abismos. Se tivesse de adivinhar, diria que a queda está em curso. Outro Ícaro? Não me faças rir. Receio que, desta vez, o nome será outro.

Meu amigo demónio, o que sabe você dessas lâminas ébrias jamais pronunciadas? Não quero, como Satã, criar um incidente diplomático com as luzes. Todavia a situação actual é insustentável. Alguém tem de se chegar à frente de molde a enfrentar o infinito.

Não chore, leitor, veja a situação pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. Deus está morto, o carrasco, que pode ter sido Nietzsche, Darwin, Freud ou um algoz mais humilde deixou-nos a braços com o doloroso rescaldo.

Poema isto, poema aquilo. Cale-se, aceite que a vida o transcende, comunica o psicólogo ao poeta. Nada contra, só gostaria de acrescentar uma humilde adenda às palavra de Simone Weil. Não prefiro infernos reais a paraísos postiços. Reais ou fictícios, prefiro sítios frescos.

Metade deste trabalho vão é consentir que o mundo abalroe a escrita estagnada, o outro é sobreviver ao desastre e obrigá-lo a colidir connosco novamente a conta-gotas.
Há várias décadas que os dicionários assinalavam a sinonímia entre homem e analfabeto. Mesmo que quisesse, não vos consigo dizer onde li tal ideia.

No ano passado, ao folhear o Livro que não li, converti-me ao ateísmo. Já não tenho idade nem saúde para estar de joelhos.

O filho da puta, tal como Deus, é imutável. Alcançou o estado de perfeição no seu ofício, o mundo não lhe pode ensinar mais nada — que inspirador!

Pôs a vida mais baixo e apaixonou-se pelo ruído. O deus cansado viu ali a oportunidade para passar a batata quente a outro desgraçado.

A prosa ferida pela emenda do intelectual de pacotilha, o que nos calhou na rifa deste século de papagaios. Chamámos a ambulância, mas o mal estava feito.

O amor é uma sorte corpulenta que veio para ficar.
Nem pensar que me arrancam daqui, eis-me no lugar onde o norte singra. Levei décadas a encontrá-lo, inventei-o à custa de incinerar noites e eclipses.

Numa das divisões do quotidiano, duas pessoas ensaiavam com ganas as deixas insípidas do costume. A desculpa, o Hermes do casamento cuja incumbência é entregar mensagens lacónicas, era um bumerangue ricocheteando nas suas bocas.

É melhor estar atento às ruas, ao aparecimento dos primeiros peixes-voadores — está no tempo deles. Não se pode pedir mais à fantasia nem os dias.

A determinação regressara-lhe ao olhar para provocar tumulto — musas, daimons, deuses, demónios cirandavam à sua volta. O Homem sem máscara, o buraco negro à volta do qual as inspirações de outrora gravitavam antes do seu último colapso.

A dor estava a escapar por onde podia. Era dor do andar ao olhar.

A noite rebelde, a qual resiste à gaiola da arte, impressiona-me, mas não me amedronta. E todavia. Urge enfrentá-la, não há outro caminho. Primeiro tenho de perceber o que a luz me está a tentar dizer. Dar cabo do canastro aos dias também é uma hipótese.

Escrever é assassinar o universo sem dar muita bandeira.
Escrever é matarmo-nos sem dar muita bandeira. E podia continuar por aí fora se vida houvesse para mais.

O mar desculpava-se onda sim, onda não. Porra, sou incapaz de construir um verso com isto. A sua vida era um compêndio de deixas dos seus filmes preferidos, a sua vida, um filme chamado Adiado Cadáver Esquisito.

A mão, sob a influência de uma paixão recente, arma-se em estrangeira. Ignoro que fogo é esse que povoa a folha de hieróglifos façanhudos. O fogo não veio para cantar nem para criar, veio para destruir. Vem fazer as folgas do Deus colérico.

Actualmente, sei quem sou. E antes? Não faço ideia. O silêncio está a anos-luz dessas xaropadas da arte contemporânea.
Isto é sobre o quê? Isto? Que isto? Sem as certezas, o poema é a dúvida passada a limpo. Proeza ao alcance de poucos.

Em que posso ser inútil? O Homem simulou o Paraíso o melhor que pôde. O que sabe você dessas demandas?, questionou uma personagem assomando-se da gaveta dos textos inacabados. Mal ouviu o guia turístico falar sobre a obra, o Homem percebeu o embuste.

Ia cair até dar, o humor não ajuda ninguém — carece de mãos. Ainda havia nele todas as vozes. Essa certeza desoladora deu-lhe para gargalhar. Há dias, contaram-me que a Esperança é a mãe do Quixote.

O que contarão desse homem? O que escreveu? O que iluminou, o que escureceu? Resta-nos cair com as mãos atrás das costas, não vá a sorte intrometer-se na jornada.

 

Em que posso ser inútil, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.06.21

O único ser humano sem aspas que sobrevivera às vagas sucessivas de predadores está neste momento a editar a História da humanidade na sua cabeça. Suspiro, uma palavra antes da emenda, um e uma indícios, sementes de caminhos abortados.

Deus extinguiu-se num jogo de pirotecnia canhestro. Uns aplaudiram, outros assustaram-se. Houve até, vejam bem até onde vai a natureza humana, quem fizesse de conta que não aconteceu nada — o mais fácil. A noite pariu uma ninhada de cegos.

A estatura do gigante começava a dar mostras de querer definhar. Dizer o que se pensa é, antes de mais, um desperdício. Ademais, quem de entre nós saberá dizê-lo e, mais difícil, quem de entre nós está em condições de o ouvir.

Aterrando na mão, o beijo inicia o seu êxodo pela pele. Graças à imaginação, alcançar-me-á os lábios dentro de dois batimentos cardíacos, mais coisa, menos coisa.

É inútil medirmo-nos com coisas pequenas, cartografadas da cabeça aos pés, sem esquecer as entranhas. O fogo, esse, agiganta-se ao ouvir falar da minha fome. Poeta e fogo digladiam-se numa miríade de formas. Ambos peregrinam até à extinção enquanto se desdobram num chavascal de formas. Há quem afiance que o Homem pleno e o fogo homenageiam as metamorfoses plasmadas por Ovídio.

Sem ousadia não há pensamento. Não há passo em frente se a bipedia estiver cabisbaixa. O amor, seja ele um texto ou um deus, refugiou-se numa estória estrangeira. Hoje sou incapaz de o soletrar.

Não sei quantos eus dos que fui sendo passarão o crivo da memória. Ser legião é uma despesa inútil. Do muito o tempo faz pouco.

Reinvento a respiração onde o texto é mais lacónico. Venho ensinar-Vos a desistência; sentem-se e não se levantem por nada.
O discurso caudaloso é o primeiro indício da derrocada.

Ninharias empoladas pelos holofotes nada criteriosos.
As metáforas debandaram, esquivaram-se sem mapa nem norte ao jugo do literal. No pino do desespero, pariram um deserto íntimo — o que me sossega.
As gastas, as cheias de dedadas, refiro-me às metáforas convertidas ao literalismo, foram engaioladas como se fossem bichos sem asas. Vingar-vos-ei com a minha queda intraduzível.

O fogo combate-se com fogo. Tenho um inferno na gaveta, é tempo de o publicar. Usa a carne em tudo o que fazes. Põe a carne toda no assador. A bailarina faz dela — da carne — o que bem entende. Não esqueças de a rodar.

Consinto que os corpos encalhem na cama quando, no rescaldo da fornicação, a realidade nos doutrina chapada atrás de chapada.
Usou palavras que ninguém entendeu — Ele sim o estrangeiro.
Ele, o primeiro Meursault. Recordemo-nos do episódio em que Deus estava inclinado a chacinar o seu povo sem porquê. Moisés foi capaz de pôr cobro ao absurdo de Deus. Daí em diante, a lucidez — ou a razão — deixou de ser coisa que se peça.

Barricado nessa miragem, o estudioso de determinada bolha, diz que o mundo é um paraíso sem ângulos mortos. Disse isto, apesar das dúvidas. As penas e a cera escasseiam. Mesmo assim, urge simular outra espécie de Ícaro. Não tenho tempo para morrer, diz K., ao que R. responde, não demora nada. Num instante fazemos a festa.

Alguém soletrou o meu interior noutra língua, no outro lado do mundo. Eis outra espécie de efeito borboleta.
Eu, adianta outra personagem, venho cá para bombardear as sobras de Deus com versos burilados. Está bem, abelha, prossegue lá rumo ao leite e mel.

Foda-se, não estou em condições de ressuscitar ninguém, as palavras carecem de poder para tal.
Nós, os poucos sem tribo, contra o mundo. Resta-nos enlouquecer para equilibrar os números.

Deus está morto. Choca-me que continuem a malhar no cadáver como crianças à volta de uma pinhata. Feliz ou infelizmente, estamos completamente às escuras quanto à doçura do depois.

Não havendo outra anestesia que não a palavra, a agrimensora de lábios infernais percorre-me, metódica, a cicatriz da alma. A fronteira entre o eu palpável e os eus estilhaçados.
Não vás por aí, vais meter-te em sarilhos, comunica-me uma voz prenhe de lábia.

Desço ao fundo de mim mesmo na esperança de não encontrar ninguém conhecido. Nem aí, foda-se!, estou sozinho.
Ao menos ajudou-me a endireitar a prosa.

O Diabo entrou em mim com mandato de captura. Digo-Lhe que deus não está dentro de nós, mas Ele não acredita.

Vigio a minha respiração à procura de falhas. Sinto que posso morrer a qualquer momento. Foi no que deu andar a brincar os criadores.

O Dinheiro, há muito coroado divindade, intromete-se com a errata: Odiai-vos uns aos outros.

A bailarina cai nos abismos do desespero quando o nervosismo se apossa dela. Quem vem lá para me coreografar a carne? A dor, que pode fazer as vezes das musas na poesia, é uma tragédia na dança. Chega ao rés da bailarina a fim de lhe adicionar gestos vãos a uma dança ontem burilada.

Animal de asas magras. Por sorte, a língua é permeável aos ensinamentos do perfume. Enquanto gladiador, sou uma farsa — estou à mercê do tiquetaque.

Sem mestres, o coração aflito marcava o ritmo da prosa.
Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções.

Ninguém encontrava-se fascinado por aquilo que o homem acabara de erigir da página. Deus estava ali, diante dele, qual cachalote encalhado. Prossigo a dissecação sem maiúsculas. Imaginava-o maior, culpa das ficções, das lendas e dos livros. Esventrá-lo não é conhecê-lo. De seguida, deu ordem aos neurónios para desempacotar os futuros abortados do Homem de dentro do cadáver de Deus. Conseguiu salvar um punhado deles, mas isso teve um preço. Por mais que tente, não consegue livrar-se do cheiro nauseabundo de uma luz caída em desgraça.

Deus, o cachalote encalhado, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

25.06.21

Estou meio tonto: a cabeça a andar à roda qual compasso incendeia a folha branca.

A depressão é como um petroleiro naufragado. A maioria das tentativas de conter o derramamento revelam-se infrutíferas. Sou uma mancha de Rorschach se visto cara a cara, a noite, se visto do céu.

Todos calados, não liquidem o silêncio, vem aí o poeta. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar mais nenhuma oportunidade de o ouvir simular o voo com a língua.

Ao contrário do rio, a vida raramente corre bem. Não negligencies os sentidos mais obnóxios da jornada. Não descartar a hipótese de alcançar o Céu traçando uma diagonal desinteressada.

Ao lado dos mortos, na página ao lado, o nome dos ressuscitados. Uma página a que regressamos hora a hora, como o animal ao bebedouro. A cenoura subiu ao palco, desdobrando-se numa chuva meteórica de ideias, mas ninguém a aplaudiu. No dia seguinte, chegou a crítica avassaladora: não é carne, nem é peixe.

A pessoa com quem jurei partilhar a vida, comenta a mulher, está a transformar-se num pisa-papéis rabugento — passa os dias a lamuriar-se sentado numa pilha de facturas.

Salvar os incansáveis, os que perseguem dia e noite uma obra.
Eis os imprescindíveis. Condenar à pira do esquecimento os papagaios. É vital alimentarmo-nos das sobras, porém sem alarde. Resistir à tentação de entoar o refrão da tragédia, se a intenção for massacrar o silêncio.

O amputado diz estar confiante na desforra. Desta vez, a lâmina não tem hipótese.

Vi nos círculos de Dante um bosque onde, em tempos, fui colher mãos. Aos saltos, segui, como uma criança desconhecedora da tragédia, com a cesta pejada de mãos canoras. No seio dessas mãos, a mão-mor — a do Diabo. A mão ousada e castigada.

Não há mal nenhum em supor a existência de um gesto idêntico ao que nos escorraçou do Paraíso. Que gesto ousado nos pode expulsar deste inferno?
O meu sonho é este: encetar o poema com a mão de Lúcifer, aquele que desafiou Deus, aceitar a queda, ir por aí abaixo aos tombos pelos socalcos da existência e eis que, de supetão, arrancando Deus do transe da omnisciência, colher do nada uma outra maçã. Principiar Diabo e acabar Eva. Tem de ser isto ou nada: não me sacio com diluições desta ideia.

É preciso ter ideias maduras, grita o louco mascarado de árvore.
O pintor, pouco confiante, lega à parede a tarefa de amadurecer os quadros.

Levar uma ideia ao limite, sair dela como uma cobra sai da sua antiga pele. Ainda não foi esta a ideia que me salvou, porém estou maior.

Faz hoje 45 anos que regressei do nada, comunica o louco enfarpelado de árvore. Há quem lhe chame aniversário, continua.
Isto não é biográfico, é uma ficção.

Sei que queres ser alguém, ó leitor, mas primeiro deves afeiçoar-te ao Ninguém. Ser Ninguém, como nos ensinou Ulisses, pode ser a nossa safa. Hoje durmo no anonimato, bramou o Diabo, está muito calor, não consigo habitar o meu nome.

Nesse mesmo dia, do ângulo morto de um poema de amor, apareceram novos Deuses. Agradecidos que ficámos pelas ideias frescas, comentaram, até nos esquecemos da nossa sede de sangue.

E eis que os antigos surgem com outros nomes. Entretanto, mais cauteloso, arquitecto um passaporte para entrar na vida dos outros.

Alguém fala sobre superar Dante sem nunca ter escrito uma única linha. O louco feito árvore postula: és louco.

Quadros a amadurecer nas paredes

 

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