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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

18.01.22

Quando, em tantas estradas e precipícios despovoados de metáforas, os nossos corações fizeram as vezes dos olhos e se recusaram a fitar o horizonte, estavam a preservar, através da sua cegueira, a carne atormentada. As nossas lágrimas desperdiçam tempo connosco. Apesar da dor, habitual freguesa da nossa cabeça, tudo se mantém decadente. A recusa de dar livre curso ao grito animalesco, o qual nos libertaria do fardo de décadas, leva-nos pela mão até à província do tédio. Nessas terras interditas ao homem contemporâneo há duas e apenas duas ocupações: crescer ou morrer.

Um vive como se fosse eterno, varre a morte para debaixo do tapete; o outro pensa constantemente no fim e vive a vida de suspiro em suspiro.

A impossibilidade de dizer algo acertado alimenta em nós o gosto pelas coisas barrocas e faz com que nos devotemos a arranjar legendas para todos os quadros. A nossa cabeça tornada exposição movediça apinhada de quadros mutantes. Aquele que não conhece o tédio ignora o seu nome. Prisioneiros estúpidos da pirotecnia do espectáculo, hipnotizados pelo som e pela fúria da cor mansa, fundamos cidades entre nós e o nosso reflexo.

Aquele que levou a cabo o exorcismo pelo seu próprio pé, sem auxílio de terceiros, sejam eles de origem terrena ou divina, aquele que não se entregou à empreitada da angústia e sentiu, no seu estômago, a biblioteca do mal, no interior da qual personagens de alto coturno engrossavam a definição de morte, que nunca saboreou uma falésia com os olhos apagados de esperança, que nunca soletrou a sua própria extinção num poema de Georg Trakl, nem provou os arpões de um deus enraivecido no lombo, jamais se curará de si. Ao passo que aquele, engodado a princípio pela morte, acostumado à disciplina de povoar de gente a folha assombrada e ao dispêndio inútil porém apaixonado de energia, mestre no capítulo de fazer tudo para ninguém, aproximar-se-á do fim sem gaguejar e logrará pôr a morte para trás das costas. Sem luzes e sem as ilusões das palavras fortes, afastados os véus, guilhotinados os deuses, dizimados os demónios, estaremos nós em condições de habitar, finalmente, o nosso nome?

empreitada da angústia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.12.21

Imaginei-me irremediavelmente pobre. Vasculhei os bolsos como quem procura as sobras de uma civilização perdida. Tinha para cima de setenta cêntimos; sorri, estava economicamente livre. É a sorte de viver no passado, quando o dinheiro ainda tinha valor.

Após nova busca, fiz outra descoberta. Encontrei as ossadas de um antepassado. Um antigo eu que havia esquecido. Um misto de horror e exaltação, aquele ulular engolido pela vergonha, o qual vem à tona para nos assombrar, apossou-se de mim. Apesar de marmóreo, que é o consolo dos fracassados, não podia deixar de sentir um certo desassossego.
Entretive-me a arear o passado e, findo esse trabalho, comecei a namoriscar o futuro. Perdera um ror de tempo a inventariar possibilidades, ângulos perfeitos e trajectórias para as minhas ideias-bala.

Quanto ao amor, nada de poético há a confessar. Não suporto sucedâneos nem versões diluídas, nem na vida nem nos livros, irei protestar — embora à minha maneira, cifrada ou escancarada, todavia à minha maneira — quando me tentarem ludibriar. O gato por lebre no tocante às verdades mais apetecíveis, a saber: amor, Deus e morte não me seduz.

Quando um amor antigo me escorraçou pela porta das traseiras com um pontapé magnifico no traseiro, talvez não tenha sido assim tão mau para a minha postura. O desmame foi custoso. Reerguermo-nos das cinzas é um trabalho hercúleo. Quem sabe se a solidão amarga não me terá afinado o miolo? Ou pelo menos dado condições para que, em certos momentos, consiga trampolinar até novas alturas.

Os anos passam, entre eles um salão de festas — de vaidades —, de meias-verdades, de meia-vida, de meia-altura, de meia-verticalidade; em suma, uma província de fogo incompleto na qual os seres humanos, inebriando-se com as aparências, estatutos, dogmas, reputações pensam exorcizar a morte — e todavia.

Usando o nomenclatura deles, sou um falhado. Rapinaram-me até ao tutano. Coisas há que escrevi há mais de dez anos que conheceram sucesso pela mão e pela boca de papagaios paraguaios destituídos de talento. Usando o dicionário deles, sou irrelevante. As hienas sofisticadas souberam ocultar a sua gula por cadáveres.

Tento esvaziar a cabeça de todas as guilhotinas e venenos que me povoam. Não tenciono atafulhar o silêncio de obstáculos e lâminas ou retirar-lhe a habilidade de se espreguiçar e de receber o desconhecido. Não foi a minha intenção transformar a minha mente numa câmara de tortura onde, dia e noite, a depressão e a ansiedade me torturam longe dos olhares dos demais. Seja como for, aconteceu, fugiu-me do controlo. Mais uma vez a História do Homem repete-se no homem.

Terá um travo amargo que eu, criatura apta a ir ao fundo qual cachalote, tenha de — isto é mais forte do que eu — insistir nisto, tentar afogar-me. Na profundidade onde a luz não é bem-vinda, a calma e a fúria, verdade e mentira equivalem-se, e a grandeza e a pequenez são lentas. No fundo, onde a luz foi escorraçada, a morte não tem pressa.

Regressemos à paixão. Os lábios aproximam-se fogosamente do meu pescoço, um coro de relâmpagos, gerado no coração, percorre o corpo de lés a lés. Paixão. Digo demasiado cioso da ideia perturbadora que esta palavrinha contém. Um fogo que se apresenta mínimo e cresce num estalar de dedos. Poeticamente, estou inclinado a afirmar: a paixão é a temperatura a que a carne humana arde.

À mercê dessas sensações, umas conquistadas outras imaginadas, o ser humano é obrigado a metamorfosear-se. Aquilo que sou não é suficiente, é preciso mudar.

A impotência total face ao que nos rodeia, com efeito, somos animais sem qualidades à beira da extinção. A incapacidade de chegar à nossa forma derradeira aprisiona-nos numa camisa-de-forças. Ou será um casulo? Sem comentários. A camisa-de-forças não merece qualquer apontamento.

Reservo as minhas horas mais obscuras para aprender a dançar com toda a espécie de verdugos. A morte defende-me da vida com unhas e dentes. Aproveito todos os instantes para desistir. Gostaria de poder espreitar para o interior do cadáver de Deus e perceber se há algo parecido comigo nas suas vísceras. Será possível asfixiar o futuro de tal modo que o mundo seja obrigado a inverter a marcha?

Então e se eu, nas traseiras mal-iluminadas deste século, de gatas e aos apalpões, dado que vendi a verticalidade ao Diabo, praticamente míope, fosse ao lixo catar uma nova espécie de luz?!!! Apesar de abundantes pontos de exclamação, a frase não chegou a ninguém.

Não se faz literatura com queixumes. Engulo oceano e cachalotes de um trago e prossigo, espero, fértil e criativo. Recomendaria uma cautela excepcional aos abutres, ou, pelo menos, uma inteligência ímpar no tratamento do meu cadáver aquando do saque. Um passo em falso e a minha morte trar-vos-á o dilúvio.

pobre em ouro mas rico em coisa nenhuma

 


Roberto Gamito

22.12.21

Careço de meios financeiros para contactar com a vida. Não é com cafés e garrafinhas de água que a engodo. Não estou a lamuriar-me por ser pai solteiro de uma carteira anoréctica, limito-me a dissertar que uma coisa está dependente da outra. Sem carteira gorda é difícil aproximarmo-nos da vida com a pose certa. Cada passo que damos tem um custo associado. Em havendo cabeça, tal dá origem a uma atmosfera fantástica, uma trapalhada sofisticada que intoxica a mente com mundos baratuchos, os quais nos consolam nos períodos de carência.

Enquanto turista do mundo anterior, passeio-me enfarpelado como um rei, montado num unicórnio barrocamente adornado, enquanto saúdo as gentes que choram de alegria ao contactarem comigo. À medida que avançamos na feitura desse mundo consolador, afogamo-nos por completo numa massa de abstrações — em suma, um mundo almofadado onde as arestas cortantes foram abolidas.

É difícil assistir, sem sentir embaraço, à sua demanda rumo à trapalhada fantasiosa e à transmutação da gata borralheira em princesa, cogita quem está de fora. Se ele tivesse conservado o ouvido, a vida tê-lo-ia posto ao corrente de alegrias mais em conta. Ao estreitar laços com a fantasia, enceta a dramatização do real, tornando-o inacessível pelo seu próprio pé. A imaginação fértil — a rede de onde escapa todo o peixe miúdo. De olhos fechados, acredita ser caçador de episódios mirabolantes, rastreador de perfumes que o conduzirão ao amor, uma espécie de flautista de Hamelin atrás do qual seguem, em fila, todos os sonhos da humanidade.

Ele, que não tinha nada de génio e tudo de estúpido, começou por remendar a sua biografia com pequenos fogachos da imaginação e acabou por se aprisionar num mundo mirífico. Foi um período de existência fervilhante, um período de grandes tumultos — as ideias ultrapassavam os obstáculos à primeira. Todavia o mundo permanecia o mesmo.

Mundo interior

 


Roberto Gamito

21.12.21

Não pretendo levar-vos pela mão em excursão à minha vida íntima, isso deixo para os outros, despojados de mundo interior e imaginação. Que coordenadas são estas, afinal? Primeiro, o instante sugere-me a harmonização com o alheio, o corpo estrangeiro — quer dizer, a carne cantante — aproxima-se com a sua coreografia. Quão ridícula e vasta é a impotência das palavras face à carne em ebulição? Antes, uma noite vertical, de seguida, a vida despontante. E enquanto isso, dando o salto do episódio para o seu rescaldo, o meu mito desenvolvia-se no percurso no decorrer do qual inspeccionava cadáveres míticos. Qual sucateiro lírico, ficava com as partes que me interessavam e desprezava o resto. Cabeça de Medusa: um clássico. Prepúcio de Jesus: outro.

Terminada a relação sem deixas dignas de figurar em película, a vida escorraçou-me da província do amor, qual Adão expulso do Paraíso, mergulhei em apneia na minha mortalidade, porventura chateado com a farsa da luz, e tornei-me criatura dos abismos. Aprendi com os peixes o gigantismo, a lentidão e a bizarria. O fundo do oceano introduziu-me nos bastidores da morte. Povoado de carcaças de mastodontes, os quais serviam de apartamentos para famílias de polvos albinos, o oceano era um sítio onde é impossível semear um novo amor.

Ficara evidente que eu não fora capaz de aprender nem a civilizar o negrume que se apossou de mim. Bastava ouvir o nome dela para entrar em transe qual xamã siberiano possuído por uma nuvem de espíritos. O que tinha eu em mente? Um novelo de mundos abortados? Um formigueiro de derrocadas? Não tenho dúvidas de que a morte me liquidaria se acaso farejasse em mim um pingo de futuro. Felizmente não é o caso.

 

Formigueiro de derrocada

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

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a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

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este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

25.11.21

Enleado nos antigos laços da própria vida, era-lhe negado o voo. Rotas de seda metamorfosearam-se em rotas castradoras. Será que não tinha outra saída senão espernear até à última pinga de fôlego e por conseguinte consumar a asfixia?

Astrónomo amador versado no microcosmos da sua biografia hieroglífica. Passara anos a fio a tentar unir os pontos sem alcançar uma constelação digna de figurar nos manuais menos propensos à mortalidade. Monologava o seu norte numa língua morta. De resto, ficava-se às escuras no respeitante às rotas mais frutíferas da época. Dando cambalhotas entre as ideias mais apoquentadoras, ziguezagueando entre os pilares da lógica, sustentado de ambos os lados pelos demónios mais travessos, tropeçou no cadáver de Deus. A complexa anatomia do primeiro cadáver esquisito. Surrealista desde o princípio, cada homem adicionara uma parcela do seu medo ao cadáver do númen.

Não obstante a escassez de ventos benfazejos, ele atravessava as províncias da estupidez filosofando, com dificuldade, sem amealhar adeptos nem ouvintes, tentando em vão colonizar os espaços especulativos entre duas frases, e saía, não como entrou, erecto e convicto, mas curvado em virtude do fardo das expectativas goradas. Todas as veredas em direcção ao norte haviam sido cortadas. Nem futuro nem depois, tão-somente uma sala de espera em expansão.

Quem explorou as profundezas deste pousio insondável onde nada sucede fora do guião do destino, quem terá tido uma loucura suficientemente grande capaz de medir quantas braçadas é preciso dar no sentido de ir de um lado ao outro da tristeza colectiva?

Prosa cheia de recantos e escaninhos. Era um lamentável sucedâneo de um sábio, dependente de interpretações mais generosas. Era de admirar que, nesse fluído e ameaçado estado de coisas, o nosso personagem ainda fosse capaz de dar um passo em frente sem se desfazer em lágrimas. Terminemos por aqui. Apesar de embriagadora, a atmosfera é limitada por demasiadas ressalvas.

Enleado nos antigos laços

 

 


Roberto Gamito

14.11.21

Já não me recordo como cheguei aqui. Órfão da realidade, qual natureza morta que em virtude dos sucessivos restauros se metamorfoseou em retrato, entrei na universidade dos ponteiros, entregando-me ao curso dos acontecimentos disposto a enfrentar com estoicismo as consequências dos tiquetaques.
Principiava um sufocante interrogatório. Mas quem poderia respirar aqui? Quantas mutações até alcançar o meu verdadeiro nome? É condenável transformar um cenário de guerra num salão de bailes? Será que desejo, como Alexandre, o Grande, o mundo inteiro? “E nem um palmo a menos do que o mundo.”
Desde então esta é a minha morada.

Com é óbvio, tudo isto deve ser interpretado à vossa maneira.
A vossa cabeça mobilará as lacunas do texto fazendo de mim um vilão ou um herói, estropiará as metáforas, esvaziará a altura, espezinhará os múltiplos sentidos, amesquinhará os pormenores em notas de rodapé. Viver dependente das interpretações hostis não é fácil; deixamo-nos levar pelos juízos flutuantes e saltitantes e quando damos conta estamos a condenar à guilhotina santos com obra feita.

Pois é isto: a estupidez não conhece obstáculo, eis a atleta-mor, melhor dizendo, a vontade de esfrangalhar o outro supera tudo. A lacuna no teu discurso será a tua vala — cogita o censor. Desde então tenho pesado as minhas palavras como quem trafica a mais valiosa das drogas.

Após umas semanas a reflectir numa travessa de marisco, agarrado a uma sapateira bolorenta, ensaiando o tango do tédio, consolidei a minha posição: a fúria de viver regressava vagarosamente às minhas veias. A cólera transfigurou-me num animal albino e quilométrico. Alea jacta est.

Entrementes, vasculhava, não de cócoras mas de pé, o mundo à procura de fragmentos de luz, pequenos nacos carcomidos de um deus antigo, um rudimento de um paraíso vetusto. O perfume da rosa fora sepultado na folha. Enformado desleixadamente em poema. Desafortunadamente, incapaz de me transportar pelo leito do delírio até ao passado, a arte viu-se submetida à métrica do literal. O verso tornado sarcófago do perfume. Sem a rota do perfume, vemo-nos agrilhoados ao presente.

Quando as exigências da carne afrouxam, quando o desejo aligeira a necessidade de alvo específico e se espraia como o Outono nas folhas verdes, abandona os ídolos, torna-se iconoclasta e regressa às leis da fome primeva. Não há uma única frase nas nossas conversas que não tenha já sido proferida centenas de vezes. Gaguejamos de nariz empinado citações de autores caídos no esquecimento. Sem poesia, a palavra orbita segundo a trajectória do eco.
Um átomo de novidade na ponta da língua: eis o labor do poeta. Face à bancarrota do coração, afigura-se-me uma guerra sem feridos.

Sem vida, fechado num sem-número de cárceres, foi da imaginação que o Homem gerou a sua autobiografia luxuriante. Nem Deus nos pode expulsar do paraíso da imaginação.

Paraíso da Imaginação, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

12.11.21

Garotos ajudam a algazarra a alcançar novos volumes. Ligarei mais tarde, para reforçarmos laços. Pela soma das cicatrizes consigo estimar a envergadura dos demónios. O beijo atarefado entre o trigo e o joio. Gestos de uma dança equivocada vendidos a granel.

Num ápice, o animal torna-se outro no quadro, adulterando a legenda. A perpétua aldrabice que é possível capturar o tempo numa fotografia é hoje incapaz de converter novos ingénuos.

O nada cortado às postas ocupa a montra e incendeia os olhares famintos.
A ventania impede o badmínton e as penas, mas contagia papagaios e velas.
O embrulho envolve o veneno e a doçaria sem problema. Arrefeço a um palmo da concretização.

Uma fúria impotente tomou conta da folha, ocupando-a de uma grandiloquência carunchosa, cujo tom e pretensão se misturam com o fel da derrota.

Frustraste, na folha e a um palmo da minha boca, as minhas actividades cognitivas com danças subtis — explosões nocturnas e insensatas.

E, para cúmulo, disseste: “Acorda”.

O beijo entre o trigo e o joio, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.11.21

Espremo a esperança entre cenários possíveis, aos quais a coragem me levou pelo cachaço. Não há muito a acrescentar, a nossa história está a chegar ao fim.
A trajectória do ‘era uma vez’ rumo ao ponto final não nos fez ganhar nome nem fama. Não tenciono chorar nas entrelinhas deste texto — a escolha do fado é da vossa competência, ó Parcas feitas fadistas.

Os neurónios, entorpecidos pelas derrotas, dormem, quais faquires minúsculos, numa cama de cacos biográficos, o sono não dos justos, mas dos vencidos, enquanto eu, à luz fraca de um futuro impontual, conferencio a paz com os meus demónios.

De mãos e pés atados, sonho maduramente com actos de calibre maior. Aponto a arma da minha cólera à cabeça dos gigantes e espero. Já não estamos encurralados no labirinto das possibilidades e dos delírios infantis, à nossa frente abre-se um abismo ou uma ponte.

O céu de um mês incógnito enche-se de luzes efémeras, pedras feitas luz, pequenitas sementes de meteoro. A noite torna-se palco de mil e uma quedas. Não pedimos qualquer desejo, receberemos o depois seja qual for a sua natureza.

Os arbustos ganhavam vida graças aos animais esfomeados, designemo-lo ventriloquismo da fome. É difícil perceber se a caçada termina com a vitória do predador ou com a desistência da presa. É árduo compreender em toda a sua extensão a ideia pela qual lutaram — refiro-me aos homens, presas enfarpeladas de predadores.

Predestinados a ser joguetes do quotidiano, estavam encantados na cantiga do marasmo. Quebrei a hipnose a um desses seres. Dei-lhe comida, casa e nome. Amei-o. Tive de voltar a ensinar-lhe a respiração desde o princípio. A sua antiga respiração de animal aflito não é bem-vinda na sociedade dos bichos verticais.
Agora está completamente integrado na cidade aparentemente movimentada, a bem dizer águas estagnadas e já não quer saber de mim. Nada do que é absurdo lhe é estranho. Apertamos as mãos, despedimo-nos. Inimigos como dantes.

Sementes de Meteoro, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.11.21

A mulher levantou a saia e comunicou-me: “algures por aqui encontra-se o grande viveiro das histórias, a fábrica das temperaturas prazerosas, o estaminé dos gemidos onde as palavras perdem a pose”. É tudo muito bonito, ripostei eu com um cigarro a pender dos beiços, todavia não é por aí o caminho. Ah, como a tua coragem literata (melhor dizendo, vegetal) aproxima todos os monstros.

Os precipícios deste diálogo? A minha intenção era soletrá-los desde o início de molde a domesticar a vertigem, ceifar o coro de lamúrias que se acoita nos atalhos jamais trilhados com um sopro à lobo mau. Estou fodido, estou fodido, estou fodido, repetimos nós diante do espelho como se fosse um refrão ritualístico. Que mais posso dizer sobre o que não sucedeu? Num suspiro isolado há famílias inteiras de guilhotinas disciplinadas. Mas com que sacrifício foi adquirida essa disciplina? Isso daria uma biblioteca.

Estudava a carne recém-descoberta com obstinação, paixão e nervosismo, com base no que aprendi nos documentários dos exploradores. Onde é que isto vai parar? Que pergunta ingénua!, disse-me. Ninguém é obrigado a saber tudo. Não nego que a literalidade tirânica que grassa presentemente me oblitera o tesão. É necessário pôr as palavras a dançar antes de estas alcançarem o epicentro das nossas intenções, uma certa fantasia a fim de encontrar as coordenadas derradeiras, um certo fogo antes do fogo para que o relâmpago que faz de ponte entre os olhos famintos nos singularize.

Não me espantaria nada se daqui a alguma décadas a literalidade extingui-se o tesão. Segundo o meu parecer de leigo, as carnes ofegantes apreciam ser prefaciadas numa cama de metáforas, de tangentes que, ao tocar na pele, se desfazem em delicadas carícias. Sou, não escondo, um cultor das entrelinhas — possivelmente o último da minha espécie. Já repararam que as entrelinhas de certos poemas são povoadas por gigantes, deuses, paisagens inconcebíveis que a palavra tenta em vão legendar?
A dimensão do que ficou por dizer faz cócegas até ao cérebro mais dotado. Se quiséssemos, podíamos esconder o mundo entre dois versos.

Todavia o mundo dos homens só ocasionalmente se equipara ao poema. Tal abismo fez-me andar de um lado para o outro, coreografia herdada de um pêndulo, espantando lagartixas que apanhavam banhos de sol nos caminhos de cabras.
Em todo o caso, por onde eu ando já alguém andou.

Irritado, partilhei a minha descoberta com o espelho.
Ficou indignado, trocara o refrão por um deixa inédita.
O reflexo acusou-me de exagero, de invenção, de mistificar o indizível. Recomendou-me que regressasse à lengalenga do costume.

O sofrimento é o meu grande professor. Em boa verdade, não é, mas receio sofrer mais represálias. E a rosa, a rosa polivalente, amiga sempre disponível para fazer uma perninha nos poemas? Era um abuso prendê-la neste pedestal desfalcado onde a carne e as aves se ausentaram.

Na ocasião, algo inédito e gigantesco deve ter-se introduzido na conversa. Infelizmente, não teremos tempo para dissecar o monstro. As conversas murcham quando não alimentadas com fome.
E como nos comportaríamos nós, imaginando a sequela desse encontro, diante desse monstro saído da hesitação de ambos?

Na vida, tal como no poema, semeamos reticências. Delas brotarão o Inverno ou a Primavera, conforme a sorte ou o engenho. É preciso muita paciência para encontrar a deixa certa no meio de um guião prenhe de lengalengas. E continuámos a falar — a papaguear não importa o quê.

 

Cultor das Entrelinhas, Roberto Gamito

 

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