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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.07.22

Na escrita, atiro carne podre aos vindouros. Formulei, para uso caseiro, tempestades e incêndios, vandalizei máscaras e escoei venenos. 
Numa das minhas mãos habitam um sem-número de roteiros de desorientação. Vasculhei dentro de mim — reconheço hoje o equívoco — uma família de mapas novinhos em folha. 

Os caminhos alimentam-se de passos, a jornada cresce com o nosso desnorte. 

A mulher suspira, como é usual em muitas histórias. Sabe-se pouco a respeito das entrelinhas da respiração aflita. O talento da respiração é fintar repetidas vezes a morte. 

A senhora de noventa anos descobre que a filha tem Alzheimer. Em minutos perdem-se todas as certezas da última década. 

Cabisbaixo, o meu rosto despenha-se do céu, qual Lúcifer, nas poças de água. 

Rasto cifrado para ludibriar hienas e perdigueiros, passos tapados por folhas, apeadeiros em chamas. Ulisses anónimos com a água das lágrimas a dar-lhes pelo pescoço. A vida a centímetros da morte. 

Toda a gente acorda de manhã como que vinda de um milagre, hesitante, um pouco espantada com mais um dia. Não era esta a imagem que tínhamos do inferno. 

Um ponto. Não há lugar para os pés nem para as mãos, nem tão-pouco para deuses. Encolhemo-nos até ao esquecimento. Novamente nesse ponto primevo, o antes-de-tudo-o-que-conhecemos-e-ignoramos. 

As coisas libertam-se do seu nome emperrado graças ao grito. 

Vencidos os homens, sobram umas migalhas. As sementes preparam uma rebelião há séculos no rés-do-chão do sangue. Até lá sobram-nos as histórias. As línguas despem-se de palavras ao rés do rosto amado. A mão percorre ao de leve o rosto como a brisa a cevada. O seu cheiro invade os campos da minha imaginação.  

A sua verticalidade é postiça, porque teme soltar o animal na escrita. Este alarde a que não falta fanatismo actua como um holofote, elevando o espantalho a celebridade. 

Amor, Deus, morte. A respiração de civilizações inteiras ecoa dentro de certas palavras. 

O falcão olha de cima o labirinto do Homem e confunde-nos com formigas. Agora vamos por aqui: engaiolar na mão a recém-cortada cauda da osga e ver na sua movimentação vã a humanidade. 

A morte, assim como Deus e o amor, é uma semente, está no meio de nós. Envelhecemos por aí, à procura do perdão. 

 

travis-leery-G5rxUJMwsso-unsplash.jpg

 


Roberto Gamito

08.07.22

Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
- Herberto Helder
 
Já não ganho para a côdea, vivo à base de laranjas.
- Anónimo numa pastelaria algarvia
 
Preenches os buracos da árvore do conhecimento com a respiração aflita. Ofereces, ao mundo então escancarado, sem que a magia interfira, uma longa dinastia de gritos categorizados por épocas, credos e cor. Sem que o saibas, edificas o mapa da dor humana.
Na arte, és uma deidade tardia aprisionando uma estrela armada em coração entre as mãos. A estrela, que amanhã será palavra mansa poisada na folha, recusa-se a entrar na frase. Que trabalho te calhou em sorte, ó miserável!
É sempre a mesma coisa: antes de ingressar nas linhas, as mortes evitadas por sorte ou engenho aproximam-se em bandos de muitas e iniciam a dança de Shiva — a da destruição — em torno da minha cabeça, descrevendo órbitas excêntricas, abalroando satélites e planetas e estrelas que garantiam a estabilidade desta criatura assustadiça todavia vertical.
Noutra divisão da casa da biografia, o coração é arrancado de supetão pela coreografia adiabática da amada. Um passo atrás pode apunhalar um homem apaixonado no coração. A ideia de reverter a situação percorre os interstícios dos episódios vizinhos qual cobra sem cadastro.
É um crime ficar a meio na estrada do amor. Para onde ir se o meu norte se evaporou?
Doravante o caminho é um ziguezaguear sonâmbulo entre precipícios e fojos. O ouro das antigas palavras revela-se pechisbeque — o eterno amor oxida-se, revelando a farsa.
Carne arrefecida pela dor, metal exótico ao qual as chamas jamais ensinarão novas formas.
Infância, fera de mil caras, paisagem que nos assombra e abocanha por dentro com uma miríade de engodos, réplicas baratas de quadros fabricados pela hilariante memória, a qual é incapaz de conservar na íntegra seja o que for.
Se recuássemos uns aninhos, não teria pejo de pronunciar esta frase: "As tuas mãos cercam-me em sonhos, eu ardo qual cidade prestes a ceder às investidas dos bárbaros. "
Uma constelação de buracos negros estrangulada pela memória — o ataúde de Deus. Dentro de mim há um sem-número de génios engarrafados, ansiosos por trazer a morte ao seu salvador. Qual destas ideias me trará a morte?
Julguei, reconheço hoje a ingenuidade deste pensamento, que a vida acabaria por me conduzir a uma clareira no interior desta floresta negra inescapável, que é como quem diz, um princípio de entendimento. Tenho feito os possíveis para exorcizar os becos da vida. O quotidiano, outrora amigo, converteu-se num demónio de alto coturno. Vejo guilhotinas em todas as esquinas. Não sou senão uma marioneta nas mãos do meu demónio, eis a primeira revelação. Seguir-se-á, nem que seja num sonho ou num pesadelo, a emancipação da marioneta. Não será tarefa fácil. Ao cortar aos fios com o hábito, vou ter de reaprender a andar, de sair bípede pelo meu próprio pé desse entulho de ossos, pele e farpela que é a vida nova. Erguermo-nos das nossas sobras sem a mão vinda do alto não é isento de perigos.
Volta e meia regrido na metamorfose e regresso ao casulo. A sós com a minha respiração, reconheço que a escrita é som e fúria, o passado ebuliente posto por extenso. Não há como amansar a mão inspirada em Tifeu sem derramar sangue divino.
Repara bem no Homem que está à tua frente. A respiração resgata o labirinto do mundo interior, denuncia-o em todos os seus pormenores. Repara bem como estamos perdidos.
 
 

Emancipação da Marioneta


Roberto Gamito

20.06.22

O tédio era tão grande que parecia afogar-me naquela sala de espera. O tempo começara a esgotar-se, vazio, comecei a tremer como uma casca coreografada por um sismo mínimo, incapaz de assentar arraiais nas gordas dos jornais. O peixe cozido estava agora confeccionado, e eu, a sós com a minha vida, erigia monstros entre garfadas. Quando conseguires sossegar a mente a esse respeito, sussurrou a morte, vem ter comigo para falarmos.
Abandonei-me a fantasias grandiosas enquanto no chão o cerco das migalhas liliputianas dinamitava os meus sonhos um por um.
Lá longe, os bulldozers labutavam dia e noite nos terrenos da memória.
Arrependo-me de ter suspirado, não queria fazê-la cair numa esparrela. Nas prateleiras atafulhadas de bibelôs, uma ou outra fotografia exibindo o lado empoeirado da biografia.
Embora a situação lhe pareça nova, cogita o narrador, a verdade é que se repetira vezes de mais sem que os resultados tenham sido espectaculares. A Gigantomaquia no interior de cada artista. Não adianta, disse alguém cujo nome foi devorado pelo tempo. Eu disse-lhe que ela estava a falar de mim como se carpisse afoitamente um defunto. Em bom rigor, permanecia vivo.
Depois de o ter por perto, o calor fugia-me das mãos, retruquei pausadamente.
Um enxame de rotas alternativas voava à volta da minha cabeça incendiada. Abriria as janelas para arejar a casa até que o cheiro da morte desaparecesse. Enfureci-me, sentindo que o canário que invadira a minha mina me roubara os segredos.
De vez em quando vai dando notícias, murmurou o canário; não sou jornalista, ó nome depenado pela memória.
 

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Roberto Gamito

10.04.22

Riscamos o fósforo pela enésima vez, mas a humidade humilde de uma gota de água protege-o, adiando o fim. A cabeça incólume não é destino que se queira. De que vale sobreviver ao fogo se é ele que nos efectiva?

Dentro de nós um inferno em miniatura, projectos de demónios, esboços de quedas, raivas postas em discurso e o catecismo do fracasso arrancando-nos os sonhos como quem arranca asas a insectos. De ilusão em ilusão, tentamos em vão simular as asas perdidas.

Caem meteoritos que nada sabem sobre os nossos desejos, pedimos-lhes tudo e mais alguma coisa até ficarmos afónicos, todavia o mundo não é hospitaleiro no tocante às nossas vontades.

Quando a melancolia irrompe, a mão, que não tem limites nem remédio, agiganta-se — eis a farsa. Cresce até à loucura rumo à morte de molde a pormenorizar o falhanço. Haverá alegria para quem, na folha, viu nos dedos cabeças de fósforo e tentou incendiar o seu cosmos posto por extenso? Sobrará talento para quem venceu provisoriamente a morte? Com que palavras regressou desse combate?

Vida contrabandeada por gritos
ululante comédia desmantelada
tragédia que todos acorrem para ver.

Nem o truque barato do suspiro nos salva face à cratera nos nomes outrora salvíficos. Não me parece que o poeta extraia grande minério do acto de escrever, de orbitar em terrenos resvaladiços, qual pirilampo ébrio: em nenhuma das suas órbitas encontrará redenção. Homem, o animal mais fantástico deste circo — a cabeça apinhada de problemas é um número inesgotável e em constante aperfeiçoamento. Nunca faltará público para o homem sem qualidades.

As vidas improvisadas no balcão, comentadas lado a lado com o entrechoque dos copos sempre por encher. Condenados a rabujar para todo o sempre, afugentámos o amor, a felicidade e o mais com o condão de aliviar o fardo. Ao rés do precipício, os homens encenam os antigos mitos de Actéon, Sísifo e Tântalo.

Confesso que me faltam os dias que desaproveitei a ser outro. Almejei ser clandestino bobo ao rés das goelas de Deus. Os corpos caídos numa formação que alguns dirão um enigma. Seja como for, as vozes sobrevivem num refrão animalesco. Choraram, amaram, beberam e bailaram e eu fiz de conta que não havia entendido nada. Como resgatar o passado do poço da memória sem o desmembrar no resgate?

O homem, eterno peixe fora de água, ocultando o estrebuchar em danças mais ou menos artísticas, sucumbe ao engodo das luzes dos holofotes. De uma maneira ou de outra, sucumbiremos à primeira promessa armada em messias. Minúsculos seres fantasiando estaturas ao pé de megafones. A festa termina. O coração fica a sós com o teu nome. Os que fugiram ao amor sabem do que falo.

Cada verso é uma despedida cifrada, digo adeus à miríade de homens que fui sendo. A vida é um funeral onde enterramos, à vez, as nossas metamorfoses. Salivo o fogo larapiado ao inferno. A folha, ninho partilhado por facas e aves canoras, é palco onde ensaio o recomeço. Nada nos prepara para o início.

Como reaprender a respirar se o amor semeou nós de uma ponta à outra do nosso corpo? Diz-me se ainda sou o clarão noturno que se apossa do teu corpo quando te recordas do meu nome. Ovaciono com prontidão os cães que me abocanham, mas o corpo não acompanha o gesto.

Só existo quando fico do lado de fora do pensamento. Que querem que vos diga? Escorraçar-me das ideias não é um trabalho isento de perigo. E um mundo pequenino vai-me brotando das falangetas
linhas que mais parecem caminhos arruinados, juncados de cadáveres de Ulisses. Só posso falar do que não vi.

Mas para quê insistir nesta prosa regateada no mercado do eclipse, quando a morte nos morde os calcanhares sem parança?


Riscamos o fósforo pela enésima vez, Roberto Gamito


Roberto Gamito

27.03.22

A morte fê-lo crescer para dentro de vários nomes. Dentes afiados, barriga inchada de vermes, elevando-o ao inquestionável estatuto de animal de museu. A berma para a qual foi atirado pela vida, que, agarrada ao papel de bailarina contemporânea, o catapultou vistosamente, sem esquecer os saltinhos espalhafatosos ao som da música.

Três ou quatro varejeiras pioneiras hão-de chamar outras até se tornarem um nevoeiro fervilhante à roda dos caídos. As varejeiras crepitam no ar inquietas, indecisas entre os mortos e os vivos. Não os distinguem: e isso inquieta-nos. Se não há diferença entre estar vivo e morto, então para quê isto tudo?

Estamos impedidos de tocar no mundo, a repulsão electrónica impede-nos. Poeticamente falando, diríamos a maldição da assimptota. Estamos condenados ao quase. Quase que amei, quase que te toquei, quase que vivi. Saltamos de quase em quase, pelo que o caudal do rio das frustrações transborda até inundar as margens biográficas onde pululavam minúsculos projectos de fauna e flora.

Tento regressar à infância, porém os caminhos por onde andei já não existem. Recordo-me das estradas no Alentejo ladeadas de árvores e olhar para o vidro do carro até ficar enjoado. Às tantas não sabia se era eu que me movia, se eram as árvores. Hoje sobram poucos representantes desses dias, meia dúzia de árvores para contar a história. Neste caso, a luz não é sinónimo de bênção. As sombras daquele cortejo de árvores tranquilizavam-me. O regresso é impossível, contento-me, qual Penélope, a fazer e a desfazer o meu episódio vezes sem conta.

De quando em quando o imprevisível intromete-se no guião das nossas vidas. E o meu passado, escrevi-o noutro texto, foi engolido por um único beijo. Esse amor reinventou-me até ao pormenor, vim à tona das águas com outro nome e outra cabeça. Mas nada dura para sempre, e o amor, tal como deus, não é eterno. Doravante contentar-nos-emos com as sobras de um cadáver imperecível.

Ganharam espinhos, esses dias. Adquiriram o perfume de rosas envenenadas. Encontramo-lo, ao passado, sempre por acaso e parece sempre que andámos a evitá-lo.

No museu da minha vida, vejo tudo com igual desinteresse. Observo as legendas de um quadro a saltarem para outro sem que haja reacção da minha parte: um grande cadáver esquisito em mutação: eis o labor da memória. O que me faz avançar no texto é saber que o vou abandonar, qual cadáver crescido capaz de, mesmo morto, escrever a sua história.

O que era só uma frase inicial tornou-se o regresso à infância. Uma sinfonia de caruncho entoa pela casa dos velhos. O espectáculo de baixo orçamento preludia a morte. A vontade de viver vem-lhe de onde? As ideias veem-lhe de onde? A morte vem-lhe de onde? Onde é que não lhe dói, pergunta o médico.
O escritor ou Homem abeira-se da folha para simular nascimentos e ressurreições.

Por uma frincha na porta, vê-se o velho na cama rodeado por tubos e maquinaria que fazem a conta da luz disparar. Qualquer dia não terei dinheiro para pagar a conta da luz, diz o velho com graves problemas pulmonares. A empresa de electricidade será o seu algoz. Estamos todos presos por arames, eis o que somos: marionetas acamadas.

Um corpo imóvel comentado por uma multidão de cheiros. A última inspiração antes do fim. A vida resumida num estalar de dedos. Acabou, finalmente acabou. Os andaimes — os tubos e as máquinas — que rodeavam a morte em construção foram retirados. Apesar dos sucessivos adiamentos, o projecto foi finalizado. Flores por cima do cadáver, todavia não há flor capaz de fazer as vezes da luz. A noite será daqui em diante para sempre.

A maldição da assimptota


Roberto Gamito

03.02.22

O diálogo compreende, no seu jogo, impostores e devotos, os gestos práticos e os teóricos, os papagaios e os poetas. Eis-nos diante um desfile de ortodoxias e heresias, as quais espicaçam à vez a cobiça do Homem. A vida do Homem é saqueada e vandalizada; depois, as suas ruínas passam a ser objecto de estudo e, adornadas com legendas e aparato crítico, adquirem uma auréola de imprescindíveis, de santidade prática, em suma, as sobras do Homem transformam-se em locais de peregrinação. Mas antes disso o Homem precisa morrer. No final, suplicamos milagres ao cadáver que assassinámos.

Não podemos evitar ser contemporâneos dos nossos suspiros, de sermos, pura e irrefutavelmente, do nosso tempo. Há o perigo de nos acoitarmos no passado e não estarmos presentes no agora quando o futuro nos alcançar. Atormentar-nos-íamos se o futuro, ao chegar ao dia marcado, não desse connosco e deixasse uma carta a dizer que tentou. Como idiotas com goelas de tenor, exaltamos os nossos martírios, dando cambalhotas sobre as nossas magras proezas. Seja um Dante ou um Zé-Ninguém, o Homem vive à procura das palavras certas: sonha com o dia em que conseguirá expressar o seu nada. E aqui estamos nós, a tirar partido desse espectáculo incompleto.

Permanecemos deitados nos nossos problemas e percorremos mentalmente o novelo da nossa biografia. O desfalque absoluto não é algo que apoquente a humanidade laboriosa. Resignam-se às migalhas da vida na pausa do tabaco; aguardam por melhores dias e regressam à lengalenga do suor e das lágrimas. Nas palavras de Cioran, a esperança é uma virtude dos escravos. Os pensamentos voam entre o agora e o depois e são incapazes de encontrar uma saída. Nas nossas memórias, um arquivo de dias monótonos e inúteis. O nosso olhar é uma escada de lágrimas pela qual subimos até à forca.

Vingarmo-nos pressupõe um pingo de vida. As horas apinhadas de preocupações, o dinheiro que não chega, a energia que escasseia, o olhar que definha: não estamos à altura da nossa revolta. Dissequem as palavras de quem quer que seja: a grandiloquência actual é inseparável da inércia.

nos bastidores do nada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.01.22

Quando, em tantas estradas e precipícios despovoados de metáforas, os nossos corações fizeram as vezes dos olhos e se recusaram a fitar o horizonte, estavam a preservar, através da sua cegueira, a carne atormentada. As nossas lágrimas desperdiçam tempo connosco. Apesar da dor, habitual freguesa da nossa cabeça, tudo se mantém decadente. A recusa de dar livre curso ao grito animalesco, o qual nos libertaria do fardo de décadas, leva-nos pela mão até à província do tédio. Nessas terras interditas ao homem contemporâneo há duas e apenas duas ocupações: crescer ou morrer.

Um vive como se fosse eterno, varre a morte para debaixo do tapete; o outro pensa constantemente no fim e vive a vida de suspiro em suspiro.

A impossibilidade de dizer algo acertado alimenta em nós o gosto pelas coisas barrocas e faz com que nos devotemos a arranjar legendas para todos os quadros. A nossa cabeça tornada exposição movediça apinhada de quadros mutantes. Aquele que não conhece o tédio ignora o seu nome. Prisioneiros estúpidos da pirotecnia do espectáculo, hipnotizados pelo som e pela fúria da cor mansa, fundamos cidades entre nós e o nosso reflexo.

Aquele que levou a cabo o exorcismo pelo seu próprio pé, sem auxílio de terceiros, sejam eles de origem terrena ou divina, aquele que não se entregou à empreitada da angústia e sentiu, no seu estômago, a biblioteca do mal, no interior da qual personagens de alto coturno engrossavam a definição de morte, que nunca saboreou uma falésia com os olhos apagados de esperança, que nunca soletrou a sua própria extinção num poema de Georg Trakl, nem provou os arpões de um deus enraivecido no lombo, jamais se curará de si. Ao passo que aquele, engodado a princípio pela morte, acostumado à disciplina de povoar de gente a folha assombrada e ao dispêndio inútil porém apaixonado de energia, mestre no capítulo de fazer tudo para ninguém, aproximar-se-á do fim sem gaguejar e logrará pôr a morte para trás das costas. Sem luzes e sem as ilusões das palavras fortes, afastados os véus, guilhotinados os deuses, dizimados os demónios, estaremos nós em condições de habitar, finalmente, o nosso nome?

empreitada da angústia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.12.21

Imaginei-me irremediavelmente pobre. Vasculhei os bolsos como quem procura as sobras de uma civilização perdida. Tinha para cima de setenta cêntimos; sorri, estava economicamente livre. É a sorte de viver no passado, quando o dinheiro ainda tinha valor.

Após nova busca, fiz outra descoberta. Encontrei as ossadas de um antepassado. Um antigo eu que havia esquecido. Um misto de horror e exaltação, aquele ulular engolido pela vergonha, o qual vem à tona para nos assombrar, apossou-se de mim. Apesar de marmóreo, que é o consolo dos fracassados, não podia deixar de sentir um certo desassossego.
Entretive-me a arear o passado e, findo esse trabalho, comecei a namoriscar o futuro. Perdera um ror de tempo a inventariar possibilidades, ângulos perfeitos e trajectórias para as minhas ideias-bala.

Quanto ao amor, nada de poético há a confessar. Não suporto sucedâneos nem versões diluídas, nem na vida nem nos livros, irei protestar — embora à minha maneira, cifrada ou escancarada, todavia à minha maneira — quando me tentarem ludibriar. O gato por lebre no tocante às verdades mais apetecíveis, a saber: amor, Deus e morte não me seduz.

Quando um amor antigo me escorraçou pela porta das traseiras com um pontapé magnifico no traseiro, talvez não tenha sido assim tão mau para a minha postura. O desmame foi custoso. Reerguermo-nos das cinzas é um trabalho hercúleo. Quem sabe se a solidão amarga não me terá afinado o miolo? Ou pelo menos dado condições para que, em certos momentos, consiga trampolinar até novas alturas.

Os anos passam, entre eles um salão de festas — de vaidades —, de meias-verdades, de meia-vida, de meia-altura, de meia-verticalidade; em suma, uma província de fogo incompleto na qual os seres humanos, inebriando-se com as aparências, estatutos, dogmas, reputações pensam exorcizar a morte — e todavia.

Usando o nomenclatura deles, sou um falhado. Rapinaram-me até ao tutano. Coisas há que escrevi há mais de dez anos que conheceram sucesso pela mão e pela boca de papagaios paraguaios destituídos de talento. Usando o dicionário deles, sou irrelevante. As hienas sofisticadas souberam ocultar a sua gula por cadáveres.

Tento esvaziar a cabeça de todas as guilhotinas e venenos que me povoam. Não tenciono atafulhar o silêncio de obstáculos e lâminas ou retirar-lhe a habilidade de se espreguiçar e de receber o desconhecido. Não foi a minha intenção transformar a minha mente numa câmara de tortura onde, dia e noite, a depressão e a ansiedade me torturam longe dos olhares dos demais. Seja como for, aconteceu, fugiu-me do controlo. Mais uma vez a História do Homem repete-se no homem.

Terá um travo amargo que eu, criatura apta a ir ao fundo qual cachalote, tenha de — isto é mais forte do que eu — insistir nisto, tentar afogar-me. Na profundidade onde a luz não é bem-vinda, a calma e a fúria, verdade e mentira equivalem-se, e a grandeza e a pequenez são lentas. No fundo, onde a luz foi escorraçada, a morte não tem pressa.

Regressemos à paixão. Os lábios aproximam-se fogosamente do meu pescoço, um coro de relâmpagos, gerado no coração, percorre o corpo de lés a lés. Paixão. Digo demasiado cioso da ideia perturbadora que esta palavrinha contém. Um fogo que se apresenta mínimo e cresce num estalar de dedos. Poeticamente, estou inclinado a afirmar: a paixão é a temperatura a que a carne humana arde.

À mercê dessas sensações, umas conquistadas outras imaginadas, o ser humano é obrigado a metamorfosear-se. Aquilo que sou não é suficiente, é preciso mudar.

A impotência total face ao que nos rodeia, com efeito, somos animais sem qualidades à beira da extinção. A incapacidade de chegar à nossa forma derradeira aprisiona-nos numa camisa-de-forças. Ou será um casulo? Sem comentários. A camisa-de-forças não merece qualquer apontamento.

Reservo as minhas horas mais obscuras para aprender a dançar com toda a espécie de verdugos. A morte defende-me da vida com unhas e dentes. Aproveito todos os instantes para desistir. Gostaria de poder espreitar para o interior do cadáver de Deus e perceber se há algo parecido comigo nas suas vísceras. Será possível asfixiar o futuro de tal modo que o mundo seja obrigado a inverter a marcha?

Então e se eu, nas traseiras mal-iluminadas deste século, de gatas e aos apalpões, dado que vendi a verticalidade ao Diabo, praticamente míope, fosse ao lixo catar uma nova espécie de luz?!!! Apesar de abundantes pontos de exclamação, a frase não chegou a ninguém.

Não se faz literatura com queixumes. Engulo oceano e cachalotes de um trago e prossigo, espero, fértil e criativo. Recomendaria uma cautela excepcional aos abutres, ou, pelo menos, uma inteligência ímpar no tratamento do meu cadáver aquando do saque. Um passo em falso e a minha morte trar-vos-á o dilúvio.

pobre em ouro mas rico em coisa nenhuma

 


Roberto Gamito

22.12.21

Careço de meios financeiros para contactar com a vida. Não é com cafés e garrafinhas de água que a engodo. Não estou a lamuriar-me por ser pai solteiro de uma carteira anoréctica, limito-me a dissertar que uma coisa está dependente da outra. Sem carteira gorda é difícil aproximarmo-nos da vida com a pose certa. Cada passo que damos tem um custo associado. Em havendo cabeça, tal dá origem a uma atmosfera fantástica, uma trapalhada sofisticada que intoxica a mente com mundos baratuchos, os quais nos consolam nos períodos de carência.

Enquanto turista do mundo anterior, passeio-me enfarpelado como um rei, montado num unicórnio barrocamente adornado, enquanto saúdo as gentes que choram de alegria ao contactarem comigo. À medida que avançamos na feitura desse mundo consolador, afogamo-nos por completo numa massa de abstrações — em suma, um mundo almofadado onde as arestas cortantes foram abolidas.

É difícil assistir, sem sentir embaraço, à sua demanda rumo à trapalhada fantasiosa e à transmutação da gata borralheira em princesa, cogita quem está de fora. Se ele tivesse conservado o ouvido, a vida tê-lo-ia posto ao corrente de alegrias mais em conta. Ao estreitar laços com a fantasia, enceta a dramatização do real, tornando-o inacessível pelo seu próprio pé. A imaginação fértil — a rede de onde escapa todo o peixe miúdo. De olhos fechados, acredita ser caçador de episódios mirabolantes, rastreador de perfumes que o conduzirão ao amor, uma espécie de flautista de Hamelin atrás do qual seguem, em fila, todos os sonhos da humanidade.

Ele, que não tinha nada de génio e tudo de estúpido, começou por remendar a sua biografia com pequenos fogachos da imaginação e acabou por se aprisionar num mundo mirífico. Foi um período de existência fervilhante, um período de grandes tumultos — as ideias ultrapassavam os obstáculos à primeira. Todavia o mundo permanecia o mesmo.

Mundo interior

 


Roberto Gamito

21.12.21

Não pretendo levar-vos pela mão em excursão à minha vida íntima, isso deixo para os outros, despojados de mundo interior e imaginação. Que coordenadas são estas, afinal? Primeiro, o instante sugere-me a harmonização com o alheio, o corpo estrangeiro — quer dizer, a carne cantante — aproxima-se com a sua coreografia. Quão ridícula e vasta é a impotência das palavras face à carne em ebulição? Antes, uma noite vertical, de seguida, a vida despontante. E enquanto isso, dando o salto do episódio para o seu rescaldo, o meu mito desenvolvia-se no percurso no decorrer do qual inspeccionava cadáveres míticos. Qual sucateiro lírico, ficava com as partes que me interessavam e desprezava o resto. Cabeça de Medusa: um clássico. Prepúcio de Jesus: outro.

Terminada a relação sem deixas dignas de figurar em película, a vida escorraçou-me da província do amor, qual Adão expulso do Paraíso, mergulhei em apneia na minha mortalidade, porventura chateado com a farsa da luz, e tornei-me criatura dos abismos. Aprendi com os peixes o gigantismo, a lentidão e a bizarria. O fundo do oceano introduziu-me nos bastidores da morte. Povoado de carcaças de mastodontes, os quais serviam de apartamentos para famílias de polvos albinos, o oceano era um sítio onde é impossível semear um novo amor.

Ficara evidente que eu não fora capaz de aprender nem a civilizar o negrume que se apossou de mim. Bastava ouvir o nome dela para entrar em transe qual xamã siberiano possuído por uma nuvem de espíritos. O que tinha eu em mente? Um novelo de mundos abortados? Um formigueiro de derrocadas? Não tenho dúvidas de que a morte me liquidaria se acaso farejasse em mim um pingo de futuro. Felizmente não é o caso.

 

Formigueiro de derrocada

 

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