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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.09.22

Na rua a temperatura deve rondar os trinta graus; no coração, zero absoluto. Comenta-se que muito em breve ser-nos-á apresentado outro inferno. Isto para não preocupar por aí além as pessoas e os seus prementes afazeres.

Tenho pensado nos meus inimigos e nos seus gumes analfabetos.
Não importa o que faças num sentido ou noutro, comenta um salmão para o outro. Relaxa, pequeno gafanhoto. Isto um dia acaba.

Aqui jaz um poema
de amor
perfumado ou profanado
por gumes famintos
ei-la, a procissão de linhas curtas
escoltando o nome luminoso
em cima do qual
me interrogo
acerca do sentido disto tudo.

Mudas testemunhas do finar das possibilidades.
Nome gravado a bisturi nas costas de Atlas. Mundo por engano embalsamado. Acrescento ao silêncio da catedral o riso dos mortos, e a isso chamamos imaginação pós-moderna.

Deus está morto, a arte morta está. Urge encontrar um emprego para as mãos que não o suicídio. Devemos, antes de tudo, pôr de parte a hipótese de redenção. Reputo a minha mão de cronista do Rei falhado.

O que é sair do anonimato aos 60 anos? Alguém que precisou dos milénios da imaginação para ascender em apneia de uma pirâmide de cadáveres. O desfecho do amor vacina os homens, o álcool enche-os de inacessibilidade — quem diria, afinal podemos ser uma ilha.

O bailarino é despetalado pela morte a cada passo de dança.
Livre-arbítrio, que a razão e os dias fizeram desaparecer.

O que pensas congela a mutação dos estorninhos. Olha como é belo o bando embalsamado a pairar sobre as nossas cabeças franzinas. Eis que assume a sua derradeira forma — a guilhotina emplumada.

Mais inocentemente diríamos, asa emergida da paixão. Perco-me no vasto campo do início de uma relação.

No tempo uma nuvem de morcegos procurava-me.
Uma frase. Outra frase apétala aproxima-se desejosa de contradizer a anterior. Pôr por escrito os debates com os demónios.

Ser espantosamente fraco e simular a queda de Ícaro ao rés de um candeeiro. Os livros que humanizam — para o que havíamos de estar guardados! Quero ir ao fundo, mas esqueci-me da farda de cachalote noutro tempo.
Que nome pôr a encimar esta cicatriz?

O pensamento é provisório e acolhe uma metrópole de falhas.

E nós, domadores acagaçados do imprevisto, munidos com folhas de cálculo, recorrendo a gráficos e tabelas como quem, de joelhos, vê no vazio um companheiro de sofrimento.

Pouco a pouco somos abalroados por uma demolidora certeza: vamos morrer. Saiamos da sombra, Deus, Diabo e Eu, os três montados na mesma vingança. Insuportável trabalho o da memória, o de diluir em tinas de ácido os traumas. Memória, o nosso algoz privado.

Os mosteiros vazios são locais usados pelo nada para engendrar a sua última jogada. Entre dois passos firmes crescem ervas daninhas. Há flores do mal por toda a parte, mas não há poetas entre os sobreviventes.

No fundo não há ninguém, são miragens indistinguíveis
de humanos. Mas o mais absurdo são os precipícios
tornados sinistros túneis de vento
onde ensaiamos o nosso fim vezes sem conta.

Consenti que me tocassem com os seus dedos cheios de vidros e me ensinassem, na pele, passo por passo, a custo, todavia sem medo, a dança da humanidade. Pomares da ignorância espalhados um pouco por toda a parte dentro dos quais podemos observar a flor dos séculos vindouros. Sôbolos rios que vão para a cona da mãe.

Duchamp
esse cabrão-mor
dei-lhe guarida no meu cérebro
desarrumou-me a casa
trocou tudo de sítio

agora ignoro tudo
não sei onde fica o amor e a casa de banho
o sofá e a ideia de salvação.
O poema há-de continuar noutro sítio,
mas a pagar, que um gajo não se alimenta
de aplausos nem de apupos.

No final dos tempos, Deus será rei sem súbditos de um grande império de mármore.

Fundei um inferno caseiro durante a amnésia do anjo. A salvação conduz-nos a um lugar inabitável, sem ninguém.

 

Império de Mármore


Roberto Gamito

25.09.22

Venho à tona do texto, espevito para as ruas apinhadas de nomes, pessoas mergulhadas nos ecrãs, à marrada com os postes, duplos falhados de Neo, os quais acolhem no peito um ror de balas e facadas nas costas, zaragatas em flor, crianças que alternam entre o choro e o sorriso como se fossem loucas, cafés superlotados de esboços de assassinos e quem sabe a voragem que nos há-de engolir a todos.

Sorrio estimulado pela primeira frase. Ingenuamente, sou catapultado para alguns períodos da minha biografia, agradeço a solicitude da insânia, todavia fico de fora das cidades muralhadas. Ver-me-ão as memórias como mongol que não descansará enquanto não as vir consumidas pelo fogo? Sacrificar tudo, a mais cómoda forma de idolatrar Deus.

Em cidade alguma o amor prosperou; invade-me o sossego de reconhecer o fim como personagem secundário num sem-número de conversas sem importância. Ninguém viu a morte sentar-se à mesa de cada família. A hospitalidade sem critérios lixou-nos.

Os dedos apertando os pescoços das memórias mais dolorosas, de seguida, feitos vampiros, havemos de lhes beber o sangue.

Isto de dia; à noite era tudo muito mais preocupante.

Quando tinha fome levantava-me do ataúde da minha depressão, embriagava-me com o brilho postiço da lua e erigia do meu desespero os meus minúsculos deuses — daí resultava uma cor única, capaz de esmagar com a sua canção o quadro mais encorpado.

Despiu-se à minha frente
estava eu a meio do poema
de supetão metamorfoseado
na ígnea pele dela escrevi
de um só fôlego o que se segue:

Não falarei de como escapei ao inferno, não confessarei como encontrei portas em paisagens abstractas; há quem me conheça como insólita província inescapável. Ignoro se há mapas para alcançar o núcleo do Homem.

Sempre me intrigou os conventos ou mosteiros rente ao mar. Será que as freiras e os monges precisam de fechar os olhos e imaginar um coração a bater ao rés do seu peito solitário, de conceber um vaivém de ancas divinas, aptas a leccionar o amor prático?

Encaixoto a exposição, digamos, artística e movo-a para o futuro. O fresco de moldes realistas reduzido a um esboço abstracto. Quem é a memória senão a musa que sob os seus mil ardis tem o sonho secreto de ser pintora?

A falta de paciência distorce o dicionário de uma ponta à outra, não ignorando os vocábulos mais comerciais, num estalar de dedos — a isto as gentes medievas apodariam magia.

Sobre as mesas instalam-se bichos esquartejados pela ciência.
Ei-las, as marés de fantasmas.

Aqui, entre as minhas mãos, o inferno teve um lugar.
O furacão helicoidal gera acasos de improviso. Os pacientes, a uma distância bem medida do psicólogo, sentados em sofás que já ouviram tudo.

Agora que não resta nada senão o cadáver divino, peço ao deus da escrita isto: Não me perturbes com os teus pedidos, não me exijas mais sacrifícios, a memória já me dá dilúvio pela barba.

Ah, o debandar maravilhoso das possibilidades quando jovem, as mãos vazias de caminhos a assaltar frases alheias à procura de alguma luz. O vício atira-nos para o seio de um quadro vazio e, risivelmente, a nossa presença não se faz sentir. Apesar do nosso infinito desconsolo, a tela branca permanece imperturbável.

O último suspiro das estrofes
o regresso de gatas aos teus lábios
pelos caminhos ínvios da memória
beijo o rosto habitado de lacunas.

O corpo que demos como perdido nos nevoeiros das relações falhadas. A queda é tão lenta que se confunde com o voo — eis a beleza da vida.

Na folga do corvo
qualquer bicho pressagia.

Recebe nas pupilas esfomeadas
bem longe do desespero até pareces criança
as notas de rodapé do cenário idílico
paisagens hoje consumidas
devoradas gulosamente cerce às pernas da amada.

Sacodes a esperança da farpela de palhaço, atiras-te às lâminas qual canário ao alpista. Eis a procissão de facas por onde os episódios biográficos foram sendo desmantelados. Desse dia chegou-te um braço numa caixa parcialmente negra.

Terás de reconstruir a rosa
pétala a pétala
como quem joga as mãos ao fogo
para resgatar uma cidade inteira.

Hoje tenho tentado ser feliz, porém sem resultados. Quero que tudo soe áspero e trágico, sem necessidade de comentários adicionais ou jornalistas. Quero que bebam o mundo sem intermediários. Então repetirei: o meu labor é a queda.
Em todo o caso, o mundo insuflava as frases, via nelas cidades grávidas de sentido.

 

o meu labor é a queda


Roberto Gamito

18.09.22

No coração dela
quem sabe a morada
derrotado pela vida
de rastos
agarrado de unhas e dentes
ao último sorriso
o homem.
 
Um par de estalos, isso é lá forma de começar seja o que for.
Perto da ermida arruinada, o noitibó inspecciona o teu desespero. Que bico demoníaco vem a ser esse?
 
Fugir do gelo como quem foge ao diabo. Não obstante no início ser sempre melhor, nada melhorará a tua condição de derrotado.
A isso se designa destino.
Tudo há-de recomeçar noutra velocidade
pretextando que já tiveste a tua dose de sorte
tempo para aprender a falhar adultamente.
 
A farpela de bobo com que foste urdindo os posfácios das tragédias assenta-te que nem um casulo. Não podes deixar de reparar que Stańczyk é cada vez mais um retrato do teu desassossego.
 
O palco enfada-te
sonhas cada vez mais com a arena
ó bárbaro reformado pela civilização
sonhas cada vez mais com o sangue
os arquivos inconcluídos da cólera
 
O senhor-cujo-nome-não-cabe-no-poema
matou-se
ao atirar-se para as entrelinhas de um poema
a quem os críticos apodarão de eterno
doravante enjaulado na palavra louco
ainda hoje, caso abram na página certa
vê-lo-ão em queda escoltado
por uma procissão de gritos.
 
O fardo persiste demasiado leve. Urge que o esqueleto desabe
qual explosão meticulosa, tipo edifício outrora magnífico
despedindo-se da sua verticalidade de supetão.
 
Se levada ao extremo, que é como quem diz, às raias do inconcebível, a burocracia é capaz de semear o infinito entre dois passos.
A biografia assoma-se à ponta dos dedos, faz das falangetas janelas. Não me recordo de grande parte da minha vida. Ignoro se fui raptado pelo tempo na infância e devolvido anos mais tarde, velho, rabugento e peludo. Buscávamos nos lábios tresmalhados talvez a intermitente anestesia.
Calma, respirem um pouco, não entrem na odisseia com tanta sede.
 
Repito:
vasculhávamos num mar de lábios
anestesia para o coração
redemoinhos onde a carne
tinha aulas de canto
 
anos depois
a inércia seria um Napoleão
conquistando um por um
os passos ulteriores.
 
Doravante os dias afigurar-se-ão como rituais dedicados à deusa Inércia.
 
Os dentes-de-leão decapitados
pelo sopro inocente da criança
a morte é sempre o desejo
de algo mais, ó suicidas em flor.
 
Já te agrilhoa o exército liliputiano de incertezas. Desejas que esta comédia negra termine.
 
A folha despovoada paralisa-te
qual medusa caseira.
 
Fecha os portões do castelo.
Pendura a farpela de bobo no trono.
Deixa o rei lá fora a ganir
as suas fingidas proezas
que a memória colectiva
há-de carcomer.
 
Sentes o formigueiro de lâminas a percorrer-te o corpo? Ou são antes átomos de esquecimento a colidir nas frágeis aspirações de grandeza, ó meu modesto acelerador de partículas?
 
As metáforas filtradas
pelos razoáveis exegetas
tantos gumes e perfumes
embotados e sem remédio
para que chegassem
às goelas e aos narizes
mais necessitados
sob a forma de animais mansos.
 
Morte para quem dilui a fúria em notas de rodapé.
 
Em todo o caso, a arte — deixem-me respirar, é capaz de demorar, sou asmático — não é o escudo polido de Atena. Seja como for, o que não faltam são Medusas por essas esquinas a petrificar os tomates dos heróis mais espantadiços.
 
Trago a cabeça de Deus na sacola, tenho petrificado legiões de uma assentada. Valeu a pena esperar este tempo todo, o nono círculo só me trouxe coisas boas. De repente, a cidade não nos pertence. Mudaram as pessoas do costume de sítio. Até podia ser uma coreografia de dança contemporânea não estivesse a morte a sondar-nos desde a primeira fila.
 
Cospe para o cadáver divino mais à mão e dá este dia por perdido. Um corpo morto na pista do baile. Coisas que acontecem quando a gente se diverte, diz uma velha.
 
Como me sinto? Estou a trabalhar no centro de areias movediças, evocando a dança da destruição. Garatujo este poema sabendo que vou morrer. Como é que achas que me sinto? Mergulhar na folha é uma viagem sem regresso, uma simulação de inferno.
 
Passaste por mim e não disseste nada. Respondo: sou um neutrino.
 
Enojam-me
os bárbaros
que trocam a arena
pelo catecismo
bobos da corte
com medo de perder a cabeça
mal molham os pés
na margem do inferno.
 
Vai para dez anos que não frito batatas em casa.
Como-as fora, sempre que posso. À parte isto, continuo sem sonhos.
 
Mas querem algo mais ao rés da carne, não é? Não seja por isso.
 
Falámos durante a noite inteira numa língua animalesca, uma que não domino, o amor. Confessou-lhe: querida fêmea, sou analfabeto no capítulo das intensidades, se quiseres saber mais, dou-te o número do meu terapeuta. Ele tem os meus espinhos documentados como deve ser.
Em todo o caso, ela prosseguiu, qual necromante diante do cadáver com o fito de o resgatar ao reino dos mortos.
 
Nada disto tem importância. Seja qual for o mês sugerido pelo calendário, o tempo das colheitas já passou.
 
As avarias do tesão
que as cometas
com ou sem mentiras
com o pau enfarpelado
de bobo da corte.
 
Mas só tenho dois guizos na cabeça, falta-me um, pensará o leitor. Esse rigor será a tua desgraça, digo-te eu.
Mas nem só de foda e amor vive um homem. Segurem-se.
 
Uma das amigas de escola morreu faz vinte anos, recordo-me da sua cara dotada de uma tristeza cinematográfica. Naquela altura ainda não se falava de depressão.
 
Pensaste ter arranjado forma de exorcizar
o demónio perene da depressão
graças aos beijos de uma paixão inesperada.
Coisas de putos, coisas de coração analfabeto.
 
Neste circo
onde palhaços e ursos se revezam
nos números de ilusionismo
da economia global
corte no pessoal
dois terços de mulher afadigam-se
fazem o trabalho de uma inteira.
 
O terço que falta tornou-se descrente nos holofotes.
 
O espectáculo tem de continuar. Cai o pano.
 

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Roberto Gamito

18.09.22

O vinho escorre-lhe pelos beiços, tipo bosquejo de cascata. É poesia, e da boa, comenta o aspirante a narrador. O pau eriça-se; pronto, está cumprida a vontade de Deus, vozeia o bêbado residente. Não me consigo compatibilizar com esta nova leva de fedelhos: fizeram tábua rasa do tesão. Entre as deixas dos personagens ouve-se uma espécie de eco: É esta vida que levamos.

Verticalizando o pau
dentro das possibilidades
graças aos andaimes do calor

Esqueçam, não é suficiente para encetar o poema. Não me fodas, retrucou o bêbado, já vi obras começarem por menos.

É uma pena, murmura, não passamos de um exercício de estilo, condenados a perecer num papel amachucado pela raiva.
Também quis ser Diderot por um dia, perder-me e afadigar-me em enciclopédias e paródias. Ouve-se um disparo; não há vítimas. Os jornalistas regressam a casa de mãos vazias. Falsa partida, o árbitro pede que regressemos aos nossos lugares. O melhor é não abusar da sorte, vestir as mesmas roupas e pronunciar as deixas do costume, fazer da vida o refrão da estagnação.

Parece evidente que a fuga é uma ilusão como qualquer outra, eis o legado de Sísifo. Estou fodido e sem tesão para a escrita, grita um epígono de Pessoa parido por estes dias que não lembram ao Diabo. E nisto passa a vida, e vamos ficando mais parecidos ao tríptico de Francis Bacon, dor e fome da cabeça aos pés, a tentar mascarar a infância com líricas mancas e desasadas. Ao menos Ícaro morreu na queda. Não tivesse morrido e ter-se-ia transformado em poeta maldito. Do que nos livrámos! Qualquer imbecil serve se o propósito for estragar uma vida, comentou uma mulher de cona calejada.

Dando aos pedais, saltamos de século em século, artifício que te faz compreender a longevidade da cólera e seus períodos de hibernação. O século XI, por exemplo, ensina-nos que a miséria extrema é tão-somente um pretexto para nos metamorfosearmos em canibais. Outro dia, a meio da pronunciação do seu nome, dei-me conta que não a amava. Felizmente, há mil maneiras de desperdiçar a vida, a isso damos o nome de livre-arbítrio. Em todos os lugares as mesmas personagens, em simultâneo protagonista e figurante, consoante o ponto de vista. Só quero que me esqueçam o melhor que conseguirem. Façam de conta que nunca existi. Por amor de Deus, há séculos que a memória não tem um dia de folga. Substituam-na, por favor. A arte não passou de um engano, a tentativa ridícula de engavetar e alfinetar o que nunca esteve parado.

O romancista que levas para a cama fez carreira com palavras de menino traumatizado. Cabrão, não tem vergonha nenhuma. A forma como tenta em vão sair do buraco dava um livro. Não há faísca, não há gumes nem perfumes. Sem perfumes, estamos condenados ao presente. O mundo é tão murcho e fedorento como um cachalote encalhado.
E isto tudo porque me furtei à escrita do poema.

Os declives são teimosos, não descansam enquanto não me virem a rebolar até a sepultura. Como se nos importássemos.

Não é possível que este seja eu, dizemos nós todos diante do espelho. Acabem com os tribunais, podem dizer que fui eu o culpado de tudo.

Estes tempos reservam pouca margem para Utopias, o espaço foi ocupado por prateleiras e ninharias. A obsolescência e a sua lógica expansionista, talvez isto fizesse rir Napoleão.

Já houve um tempo em que tudo isto me arrepiava. No que me toca, honrei o legado de Atlas e de Actéon ao mesmo tempo.

Seja como for, não podemos continuar indefinidamente a dançar entre fojos.

Voltar costas ao poema
quando o poema aparecer
não passar cartão à sua voz.

Não há nada a temer.

O inferno
o cume da organização.
Tudo no sítio.

Abusar do destino


Roberto Gamito

18.09.22

Estava estendido na valeta a pensar na morte. Um costume que herdara dos tempos de cadáver em que o amor me escorraçara sem embaraço de uma relação estável. Sonhei que me levavam para a morgue, qual faraó levado em ombros, serpenteando à fresca entre as dunas graças à força de meia dúzia de escravos. Tanta coisa para no fim acabar como morada de vermes.

Ao menos se acordasse cortado às fatias, encharcado em sangue e sem nome, num quadro de Francis Bacon, onde as formas estão desfocadas pela asma e fizesse da tela a gaiola do meu grito.

E eis-me aqui agora, vivo, a descrever minuciosamente como se não tivesse visto o fim nos teus olhos de ex-vivo. Sabia que os abutres não tardariam. A arte é fraco repelente nestas circunstâncias. Sobravam-nos os dias para fantasiar como tudo poderia ter sido de outra maneira. Ajeitei o pescoço no cepo, saboreando a paisagem que me calhara à frente dos olhos e esperei. Todavia a guilhotina não veio.

Falo de amor num poema, ou nos vários com que alimento o fogo, já começam a haver pessoas que não sabem quem é. Descrevo-o de uma ponta à outra como posso, não ignorando as miudezas, mas do outro lado raramente encontro a reacção esperada. Sim, retrucam, em tempos conheci alguém com esse nome. Que é feito dele? Herdeiros das suas sobras, contentamo-nos a enxertá-lo à queima-roupa com universos paralelos. Não é a mesma coisa. Esse amor analógico, feito de suor e sangue, é coisa do passado. Eis-nos na era digital, onde o peso é um holograma. Os gigantes e os anões ora levitam, ora ficcionam o seu legado. Ignoro quando é que foi a última vez que nos sentámos a conversar sobre raízes. Os tempos são outros, é preciso desocupar as mesas, há uma fila de referências à porta à espera, desde Dante a Tifeu, desde Xibalba a Gilgamesh, do Tártaro até ao Céu, amontoados de cidades vazias compactadas no mesmo destino; esperam os seus cinco minutos de fama, durante os quais se alimentarão do nosso minúsculo miolo. Estou consciente disso, é preciso arranjar espaço para novas levas de ninharias. A cabeça não é senão armazém mutante apinhado de bagatelas.

Tenho a sensação de que a minha obra é perecível, disse um ex-poeta, uma espécie de réptil saído das peles secas de Lucílio, diante do cadáver de Séneca. Nunca aceitem conselhos de suicidas.

Ex-vivo


Roberto Gamito

13.07.22

Na escrita, atiro carne podre aos vindouros. Formulei, para uso caseiro, tempestades e incêndios, vandalizei máscaras e escoei venenos. 
Numa das minhas mãos habitam um sem-número de roteiros de desorientação. Vasculhei dentro de mim — reconheço hoje o equívoco — uma família de mapas novinhos em folha. 

Os caminhos alimentam-se de passos, a jornada cresce com o nosso desnorte. 

A mulher suspira, como é usual em muitas histórias. Sabe-se pouco a respeito das entrelinhas da respiração aflita. O talento da respiração é fintar repetidas vezes a morte. 

A senhora de noventa anos descobre que a filha tem Alzheimer. Em minutos perdem-se todas as certezas da última década. 

Cabisbaixo, o meu rosto despenha-se do céu, qual Lúcifer, nas poças de água. 

Rasto cifrado para ludibriar hienas e perdigueiros, passos tapados por folhas, apeadeiros em chamas. Ulisses anónimos com a água das lágrimas a dar-lhes pelo pescoço. A vida a centímetros da morte. 

Toda a gente acorda de manhã como que vinda de um milagre, hesitante, um pouco espantada com mais um dia. Não era esta a imagem que tínhamos do inferno. 

Um ponto. Não há lugar para os pés nem para as mãos, nem tão-pouco para deuses. Encolhemo-nos até ao esquecimento. Novamente nesse ponto primevo, o antes-de-tudo-o-que-conhecemos-e-ignoramos. 

As coisas libertam-se do seu nome emperrado graças ao grito. 

Vencidos os homens, sobram umas migalhas. As sementes preparam uma rebelião há séculos no rés-do-chão do sangue. Até lá sobram-nos as histórias. As línguas despem-se de palavras ao rés do rosto amado. A mão percorre ao de leve o rosto como a brisa a cevada. O seu cheiro invade os campos da minha imaginação.  

A sua verticalidade é postiça, porque teme soltar o animal na escrita. Este alarde a que não falta fanatismo actua como um holofote, elevando o espantalho a celebridade. 

Amor, Deus, morte. A respiração de civilizações inteiras ecoa dentro de certas palavras. 

O falcão olha de cima o labirinto do Homem e confunde-nos com formigas. Agora vamos por aqui: engaiolar na mão a recém-cortada cauda da osga e ver na sua movimentação vã a humanidade. 

A morte, assim como Deus e o amor, é uma semente, está no meio de nós. Envelhecemos por aí, à procura do perdão. 

 

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Roberto Gamito

08.07.22

Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
- Herberto Helder
 
Já não ganho para a côdea, vivo à base de laranjas.
- Anónimo numa pastelaria algarvia
 
Preenches os buracos da árvore do conhecimento com a respiração aflita. Ofereces, ao mundo então escancarado, sem que a magia interfira, uma longa dinastia de gritos categorizados por épocas, credos e cor. Sem que o saibas, edificas o mapa da dor humana.
Na arte, és uma deidade tardia aprisionando uma estrela armada em coração entre as mãos. A estrela, que amanhã será palavra mansa poisada na folha, recusa-se a entrar na frase. Que trabalho te calhou em sorte, ó miserável!
É sempre a mesma coisa: antes de ingressar nas linhas, as mortes evitadas por sorte ou engenho aproximam-se em bandos de muitas e iniciam a dança de Shiva — a da destruição — em torno da minha cabeça, descrevendo órbitas excêntricas, abalroando satélites e planetas e estrelas que garantiam a estabilidade desta criatura assustadiça todavia vertical.
Noutra divisão da casa da biografia, o coração é arrancado de supetão pela coreografia adiabática da amada. Um passo atrás pode apunhalar um homem apaixonado no coração. A ideia de reverter a situação percorre os interstícios dos episódios vizinhos qual cobra sem cadastro.
É um crime ficar a meio na estrada do amor. Para onde ir se o meu norte se evaporou?
Doravante o caminho é um ziguezaguear sonâmbulo entre precipícios e fojos. O ouro das antigas palavras revela-se pechisbeque — o eterno amor oxida-se, revelando a farsa.
Carne arrefecida pela dor, metal exótico ao qual as chamas jamais ensinarão novas formas.
Infância, fera de mil caras, paisagem que nos assombra e abocanha por dentro com uma miríade de engodos, réplicas baratas de quadros fabricados pela hilariante memória, a qual é incapaz de conservar na íntegra seja o que for.
Se recuássemos uns aninhos, não teria pejo de pronunciar esta frase: "As tuas mãos cercam-me em sonhos, eu ardo qual cidade prestes a ceder às investidas dos bárbaros. "
Uma constelação de buracos negros estrangulada pela memória — o ataúde de Deus. Dentro de mim há um sem-número de génios engarrafados, ansiosos por trazer a morte ao seu salvador. Qual destas ideias me trará a morte?
Julguei, reconheço hoje a ingenuidade deste pensamento, que a vida acabaria por me conduzir a uma clareira no interior desta floresta negra inescapável, que é como quem diz, um princípio de entendimento. Tenho feito os possíveis para exorcizar os becos da vida. O quotidiano, outrora amigo, converteu-se num demónio de alto coturno. Vejo guilhotinas em todas as esquinas. Não sou senão uma marioneta nas mãos do meu demónio, eis a primeira revelação. Seguir-se-á, nem que seja num sonho ou num pesadelo, a emancipação da marioneta. Não será tarefa fácil. Ao cortar aos fios com o hábito, vou ter de reaprender a andar, de sair bípede pelo meu próprio pé desse entulho de ossos, pele e farpela que é a vida nova. Erguermo-nos das nossas sobras sem a mão vinda do alto não é isento de perigos.
Volta e meia regrido na metamorfose e regresso ao casulo. A sós com a minha respiração, reconheço que a escrita é som e fúria, o passado ebuliente posto por extenso. Não há como amansar a mão inspirada em Tifeu sem derramar sangue divino.
Repara bem no Homem que está à tua frente. A respiração resgata o labirinto do mundo interior, denuncia-o em todos os seus pormenores. Repara bem como estamos perdidos.
 
 

Emancipação da Marioneta


Roberto Gamito

20.06.22

O tédio era tão grande que parecia afogar-me naquela sala de espera. O tempo começara a esgotar-se, vazio, comecei a tremer como uma casca coreografada por um sismo mínimo, incapaz de assentar arraiais nas gordas dos jornais. O peixe cozido estava agora confeccionado, e eu, a sós com a minha vida, erigia monstros entre garfadas. Quando conseguires sossegar a mente a esse respeito, sussurrou a morte, vem ter comigo para falarmos.
Abandonei-me a fantasias grandiosas enquanto no chão o cerco das migalhas liliputianas dinamitava os meus sonhos um por um.
Lá longe, os bulldozers labutavam dia e noite nos terrenos da memória.
Arrependo-me de ter suspirado, não queria fazê-la cair numa esparrela. Nas prateleiras atafulhadas de bibelôs, uma ou outra fotografia exibindo o lado empoeirado da biografia.
Embora a situação lhe pareça nova, cogita o narrador, a verdade é que se repetira vezes de mais sem que os resultados tenham sido espectaculares. A Gigantomaquia no interior de cada artista. Não adianta, disse alguém cujo nome foi devorado pelo tempo. Eu disse-lhe que ela estava a falar de mim como se carpisse afoitamente um defunto. Em bom rigor, permanecia vivo.
Depois de o ter por perto, o calor fugia-me das mãos, retruquei pausadamente.
Um enxame de rotas alternativas voava à volta da minha cabeça incendiada. Abriria as janelas para arejar a casa até que o cheiro da morte desaparecesse. Enfureci-me, sentindo que o canário que invadira a minha mina me roubara os segredos.
De vez em quando vai dando notícias, murmurou o canário; não sou jornalista, ó nome depenado pela memória.
 

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Roberto Gamito

10.04.22

Riscamos o fósforo pela enésima vez, mas a humidade humilde de uma gota de água protege-o, adiando o fim. A cabeça incólume não é destino que se queira. De que vale sobreviver ao fogo se é ele que nos efectiva?

Dentro de nós um inferno em miniatura, projectos de demónios, esboços de quedas, raivas postas em discurso e o catecismo do fracasso arrancando-nos os sonhos como quem arranca asas a insectos. De ilusão em ilusão, tentamos em vão simular as asas perdidas.

Caem meteoritos que nada sabem sobre os nossos desejos, pedimos-lhes tudo e mais alguma coisa até ficarmos afónicos, todavia o mundo não é hospitaleiro no tocante às nossas vontades.

Quando a melancolia irrompe, a mão, que não tem limites nem remédio, agiganta-se — eis a farsa. Cresce até à loucura rumo à morte de molde a pormenorizar o falhanço. Haverá alegria para quem, na folha, viu nos dedos cabeças de fósforo e tentou incendiar o seu cosmos posto por extenso? Sobrará talento para quem venceu provisoriamente a morte? Com que palavras regressou desse combate?

Vida contrabandeada por gritos
ululante comédia desmantelada
tragédia que todos acorrem para ver.

Nem o truque barato do suspiro nos salva face à cratera nos nomes outrora salvíficos. Não me parece que o poeta extraia grande minério do acto de escrever, de orbitar em terrenos resvaladiços, qual pirilampo ébrio: em nenhuma das suas órbitas encontrará redenção. Homem, o animal mais fantástico deste circo — a cabeça apinhada de problemas é um número inesgotável e em constante aperfeiçoamento. Nunca faltará público para o homem sem qualidades.

As vidas improvisadas no balcão, comentadas lado a lado com o entrechoque dos copos sempre por encher. Condenados a rabujar para todo o sempre, afugentámos o amor, a felicidade e o mais com o condão de aliviar o fardo. Ao rés do precipício, os homens encenam os antigos mitos de Actéon, Sísifo e Tântalo.

Confesso que me faltam os dias que desaproveitei a ser outro. Almejei ser clandestino bobo ao rés das goelas de Deus. Os corpos caídos numa formação que alguns dirão um enigma. Seja como for, as vozes sobrevivem num refrão animalesco. Choraram, amaram, beberam e bailaram e eu fiz de conta que não havia entendido nada. Como resgatar o passado do poço da memória sem o desmembrar no resgate?

O homem, eterno peixe fora de água, ocultando o estrebuchar em danças mais ou menos artísticas, sucumbe ao engodo das luzes dos holofotes. De uma maneira ou de outra, sucumbiremos à primeira promessa armada em messias. Minúsculos seres fantasiando estaturas ao pé de megafones. A festa termina. O coração fica a sós com o teu nome. Os que fugiram ao amor sabem do que falo.

Cada verso é uma despedida cifrada, digo adeus à miríade de homens que fui sendo. A vida é um funeral onde enterramos, à vez, as nossas metamorfoses. Salivo o fogo larapiado ao inferno. A folha, ninho partilhado por facas e aves canoras, é palco onde ensaio o recomeço. Nada nos prepara para o início.

Como reaprender a respirar se o amor semeou nós de uma ponta à outra do nosso corpo? Diz-me se ainda sou o clarão noturno que se apossa do teu corpo quando te recordas do meu nome. Ovaciono com prontidão os cães que me abocanham, mas o corpo não acompanha o gesto.

Só existo quando fico do lado de fora do pensamento. Que querem que vos diga? Escorraçar-me das ideias não é um trabalho isento de perigo. E um mundo pequenino vai-me brotando das falangetas
linhas que mais parecem caminhos arruinados, juncados de cadáveres de Ulisses. Só posso falar do que não vi.

Mas para quê insistir nesta prosa regateada no mercado do eclipse, quando a morte nos morde os calcanhares sem parança?


Riscamos o fósforo pela enésima vez, Roberto Gamito


Roberto Gamito

27.03.22

A morte fê-lo crescer para dentro de vários nomes. Dentes afiados, barriga inchada de vermes, elevando-o ao inquestionável estatuto de animal de museu. A berma para a qual foi atirado pela vida, que, agarrada ao papel de bailarina contemporânea, o catapultou vistosamente, sem esquecer os saltinhos espalhafatosos ao som da música.

Três ou quatro varejeiras pioneiras hão-de chamar outras até se tornarem um nevoeiro fervilhante à roda dos caídos. As varejeiras crepitam no ar inquietas, indecisas entre os mortos e os vivos. Não os distinguem: e isso inquieta-nos. Se não há diferença entre estar vivo e morto, então para quê isto tudo?

Estamos impedidos de tocar no mundo, a repulsão electrónica impede-nos. Poeticamente falando, diríamos a maldição da assimptota. Estamos condenados ao quase. Quase que amei, quase que te toquei, quase que vivi. Saltamos de quase em quase, pelo que o caudal do rio das frustrações transborda até inundar as margens biográficas onde pululavam minúsculos projectos de fauna e flora.

Tento regressar à infância, porém os caminhos por onde andei já não existem. Recordo-me das estradas no Alentejo ladeadas de árvores e olhar para o vidro do carro até ficar enjoado. Às tantas não sabia se era eu que me movia, se eram as árvores. Hoje sobram poucos representantes desses dias, meia dúzia de árvores para contar a história. Neste caso, a luz não é sinónimo de bênção. As sombras daquele cortejo de árvores tranquilizavam-me. O regresso é impossível, contento-me, qual Penélope, a fazer e a desfazer o meu episódio vezes sem conta.

De quando em quando o imprevisível intromete-se no guião das nossas vidas. E o meu passado, escrevi-o noutro texto, foi engolido por um único beijo. Esse amor reinventou-me até ao pormenor, vim à tona das águas com outro nome e outra cabeça. Mas nada dura para sempre, e o amor, tal como deus, não é eterno. Doravante contentar-nos-emos com as sobras de um cadáver imperecível.

Ganharam espinhos, esses dias. Adquiriram o perfume de rosas envenenadas. Encontramo-lo, ao passado, sempre por acaso e parece sempre que andámos a evitá-lo.

No museu da minha vida, vejo tudo com igual desinteresse. Observo as legendas de um quadro a saltarem para outro sem que haja reacção da minha parte: um grande cadáver esquisito em mutação: eis o labor da memória. O que me faz avançar no texto é saber que o vou abandonar, qual cadáver crescido capaz de, mesmo morto, escrever a sua história.

O que era só uma frase inicial tornou-se o regresso à infância. Uma sinfonia de caruncho entoa pela casa dos velhos. O espectáculo de baixo orçamento preludia a morte. A vontade de viver vem-lhe de onde? As ideias veem-lhe de onde? A morte vem-lhe de onde? Onde é que não lhe dói, pergunta o médico.
O escritor ou Homem abeira-se da folha para simular nascimentos e ressurreições.

Por uma frincha na porta, vê-se o velho na cama rodeado por tubos e maquinaria que fazem a conta da luz disparar. Qualquer dia não terei dinheiro para pagar a conta da luz, diz o velho com graves problemas pulmonares. A empresa de electricidade será o seu algoz. Estamos todos presos por arames, eis o que somos: marionetas acamadas.

Um corpo imóvel comentado por uma multidão de cheiros. A última inspiração antes do fim. A vida resumida num estalar de dedos. Acabou, finalmente acabou. Os andaimes — os tubos e as máquinas — que rodeavam a morte em construção foram retirados. Apesar dos sucessivos adiamentos, o projecto foi finalizado. Flores por cima do cadáver, todavia não há flor capaz de fazer as vezes da luz. A noite será daqui em diante para sempre.

A maldição da assimptota

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