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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

30.06.22

Faltam-nos o vigor e a vertigem. A gaja pôs-me o peito em frangalhos, grita o bêbedo. Seríamos poupados à aflição se, para encetar a prosa barriguda, não tivéssemos de passar por cima desse cadáver hesitante com o pranto afinado, o qual, se não fosse a cruz da bebida, não saberia afastar a morte, o vampiro-mor.
De lá para cá fomos sofrendo, segundo após segundo, cada um segundo a sua escola, engaiolando os dias em pipas de lágrimas e hoje a dor perdeu os seus matizes. Há séculos que andamos a fermentar espinhos dentro dos olhos e pronunciar tautologias como "ira cega".
Cumprido o jejum intelectual, ai que eu me atiro às prateleiras e à Moby Dick, todavia comecemos humildes, pela sardinha miúda, vão ver, ó cabrões camuflados em simpatias e cacofonias, se um dia a língua vira gume ponho-vos a fama e a estatura nas ruas da amargura, ponho-vos a soro de frases motivacionais. Ah, meus filhos da puta, ainda há-de nascer um poema inescápavel após o qual serão incapazes de prosseguir a vida como seres falantes.
Humanizem-me, diz o milionário ao seu cardume de gurus pessoais, estou a pagar-vos por isso, meus merdas. Foda-se, injectem-me empatia no rabo ou nos lábios, meus contorcionistas à beira da guilhotina.
A mim, ninguém me há-de conspurcar o nome, comenta o santo.
Merda para os pássaros, para as rosas e para essas coisas miúdas que atafulham o poema de quotidianidade. Só me estorvam. Trabalho melhor sozinho. Ou com Polifemo a mirar-me as costas. Venha de lá esse pedregulho ou essa fome.
À luz dos nossos dias mais esclarecidos e menos frondosos de atalhos, dou-me conta que o Homem é uma pedreira de mármore ambulante. Volta e meia, ouço uma sinfonia de explosões vinda de dentro de mim e recordo-me de Carrara. Lá onde eu perdi os dedos e a fé, eis o posfácio do dinamite.
É preciso ter cuidadinho, ter olho neste mundo construído às três pancadas e recordar a frase de Salomão: "Não há segredo onde reina a bebida." Merda, melhor dizendo, a frase de São Jerónimo: "Que o diabo, nosso inimigo, não te apanhe desocupado."
Tenho mobilado os meus passos a papéis e rascunhos, cada passo é um fojo mascarado por cima do qual os poemas abortados fazem as vezes da folharada.
Andamos todos a fingir que fazemos algo — o que é isto senão fingimento posto em texto? — para que o Diabo não nos passe cartão. Será que o Diabo cai nesse ardil? Que Deus guarde a nossa ingenuidade por muitos séculos.
O personagem, o bêbedo ou um homem sem qualidades, desesperou numa língua rasa, gaguejou uns eufemismos quilométricos, todavia nada ousou dizer que já não se soubesse, somente em quadras, já perto da cova, pôde, enfim, sofrer sem o estorvo do ego.

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