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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

02.07.21

A única inovação admitida era a zaragata enquanto aquecimento para a escrita, à qual se entregava com grande entusiasmo. Aos poucos, sem que ninguém o tivesse previsto, tornara-se um lutador de nomeada, ao passo que como escritor nunca passou da cepa torta.

O gordo é um Galactus em potência, um aspirante a devorador de mundos, uma vez que come em quantidades astronómicas. Embora não seja um trabalho intelectual que gostássemos de pôr no currículo, não creio ser despiciendo contar a razão pela qual o gordo ambicionava engolir o universo. Segundo reza o boato, a mulher da sua vida possuía um corpo que estava a anos-luz do seu. Não me espantaria se por detrás do seu crescimento estivesse oculta a vontade de a comer.

O palestrante caído na ruína, o qual se considera indigno de comunicar directamente com qualquer pessoa presentemente, está, com a sua vida de eremita, a prestar, finalmente, um serviço ao mundo. O ‘caladinho é que estás bem’ posto em prática — e é uma das belezas deste século.

O mundo dos negócios é o novo planeta do sistema solar — não tenho provas, isto sou eu a especular.

Não há mal nenhum levar uma chapada na bochecha e permanecer calado. Aliás, é preferível atermo-nos ao silêncio a cometer o crime de escrever um livro sobre o sucedido. Que há com esses bandalhos que anseiam por perenizar em canhenho a sua tragédia?

Nutricionista do discurso. Quando o sentíamos pesado, recorríamos a estes profissionais da leveza. Aconselhável a humoristas hipnotizados pelo evangelho da gravitas.
Ao adicionarmos peso às brincadeiras, estamos a ser — digo-o com todo o respeito — empata-fodas ou, se preferirem, bibliotecárias embirrentas. Que mundo é este no qual só podemos falar se for com o fito de requisitar os volumes coxos da língua agrilhoada — o puritanismo 2.0?

Nem todos os puritanos são seres humanos no crepúsculo da vida. Há-os que, ansiosos por pôr mãos ao trabalho no estaleiro do eco, encetam a sua carreira de censor logo no berço. Há verdadeiros prodígios neste campo, há quem só comece a falar aos trinta com medo de pronunciar alguma palavra maldita que o ensarilhe.
O pensamento?! Que a sua prática seja para sempre abolida — que se fodam o ontem e o amanhã. Mãos tão pequeninas — outrora versadas na poesia mais vulcânica — mal chegam para segurar o diminuto presente.

Deus morreu, e o Homem decidiu usar o espaço para montar o estaminé do ego. Uma imbecilidade narcisista. Entrementes, a verticalidade desapareceu, embora as performances sazonais de bipedia nos convencem de longe em longe do contrário. Do berço ao cepo imperturbável — eis um tipo de Homem que se extinguiu.

A solução? Se fôssemos obrigados a enunciá-la, seríamos objectivos, e toda a gente sabe que o objectivo é hoje coisa mais flexível que um contorcionista asiático — ai meu deus, o que o escriba foi dizer!

O leitor não simpatizará com qualquer linha que se aventure pelos caminhos tortuosos e mal-iluminados. O escritor, mesmo sozinho, já que, ao não se demorar em nada, nem para ele escreve, não se importa — ó maravilha das maravilhas! — de vez em quando, depenar com sageza de velha do campo um tanso mais armado ao pingarelho.

O público há-de condená-lo e os demónios e hóspedes dos círculos de Dante hão-de apaparicá-lo, tal qual o dia em que surgir o algoz de Deus. Criador ou estalajadeira esquiva deste planeta azul? Um hipócrita da hospitalidade. Seja como for, há um preço a pagar — não há almoços grátis e, como se isso não bastasse, amanhã temos de abalar.

É verdade que o velho gasta a reforma em cona de bordel? As línguas nefandas dizem que sim, mas a verdade é que devíamos aprender com o velho. Poeta da cintura para baixo, agarra-se tão-somente ao essencial. Entretanto, os anos infectaram a cona com uma inflação tremenda e hoje não tem outro remédio senão contentar-se em comer uma senaita a meias com a mulher. Uma pessoa tem de se adaptar aos novos tempos — outra lição valiosa. Com efeito, encontramos sábios em sítios inesperados. Eis o sábio do bordel.

A freira, tomada por um exército de febres, ofereceu-se para me desembaraçar do tesão que me enfunava as calças. Propensão tão pagã, sussurrei-lhe, tão imprópria para quem leva a vida a carregar a cruz. Que tipo de homem seria eu se negasse quem me quer ajudar? Graças ao psicólogo, sou hoje uma pessoa menos reactiva — siga, abocanhe cristãmente o mangalho. A outra, porque, como a música nos alerta, afinal havia outra, recusou-se a contribuir para a minha salvação. Em todo o caso, a amante do senhor agarrou a pechincha — visto que foi de graça —, e o ritual argênteo cumpriu-se sem problemas de maior.

Podem imaginar a vida penosa desse miserável personagem, esse mártir que de tempos a tempos é obrigado a sacrificar o nabo.
Ao contrário do que seria expectável, os tempos de escassez são-lhe mais favoráveis que os tempos de abundância. Deus, com o seu convite a uma vida simples, estava, de forma cifrada, a aconselhar-nos a fornicar mais.

exército de febres, roberto gamito

 

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